segunda-feira, 17 de agosto de 2026

20 ANOS DO CURTA TAPA NA PANTERA

 

No dia 18 de agosto de 2006, era exibido um curta-metragem brasileiro postado no site do Youtube chamado Tapa na Pantera(Brasil, 2006).

Essa produção contou com assinatura de três diretores: Mariana Bastos, Esmir Filho e Rafael Gomes, este último também creditado como roteirista e editor.






O curta-metragem de três minutos de duração, teve sua postagem feita sem autorização da produção onde mostrava o depoimento de uma senhora usuária de maconha que foi representada pela atriz Maria Alice Vergueiro(1935-2020) que em outras fontes a creditam como roteirista.

 

Ela que já era uma atriz que acumulou longa carreira em teatro, cinema e em alguns poucos trabalhos em televisão.

Nessa obra, ela representou brilhantemente o papel de uma senhora usuária de maconha que não se identifica com nome, como se tivesse prestando um depoimento numa entrevista para televisão expressando de uma forma espontânea, com um humor mais contido a personagem em estado de êxtase ao argumentar a sua justificativa de fumar no cachimbo, porque o que faz mal  para ela não é a droga em sim, é o papel. Sua maneira de expressar com ar grogue, chapadona chegou ao    ponto de pensar que aquilo  fosse verídico. O seu título se referia a expressão popular do Dar um tapa na pantera*, que significava fumar maconha. 




O que levou ele a ser assistido por cerca de 235 mil internautas no site do Youtube,  que até aquele  momento não era essa plataforma que virou essa forte marca que conhecemos hoje em dia.




 Digo isso porquê, quando a famosa plataforma de compartilhamento de vídeos surgiu nos Estados Unidos em Outubro de 2004 na Califórnia, fundada por:  Chad Hurley, Steven Chen e Jawed Karim. Nesses primeiros anos de operação, a plataforma ainda não era como conhecemos hoje com  esse nível forte de influência, assistir a vídeos nessa plataforma ainda eram lentos e assim era uma coisa mais broadcast(enviar por escala) nesses primeiros anos, era simplesmente um armazenador de vídeos.




Os primeiros vídeos que a gente costumava vê nesses primeiros anos de operações da plataforma no Brasil não eram as produções originais de criadores de conteúdos   de suas contas, eram compartilhamento de videoclipes de artistas, eram alguns trechos de arquivos de antigos programas de tv brasileiro, é dessa época que surgiu a conta de nome Mofo TV, do saudoso José Marques Neto(1965-2023) que foi a grande referência em preservar o arquivo da TV no Brasil.




Eu tenho uma vaga recordação da primeira vez que tive contato com essa plataforma quando na antiga rede social do Orkut, alguém numa comunidade que não lembro qual era postou um link que levou a esse vídeo, isso lá por volta de 2006.

Com o passar do tempo, o Youtube foi aos poucos se consolidando graças ao surgimento de  criadores de conteúdo que foram surgindo denominados de Youtubers  expondo a cara e a coragem ao se comunicarem no estilo da comunicação  descolada sem filtro que atraia o público jovem, expondo suas opiniões a respeito de qualquer assunto do cotidiano tipicamente brasileiro, sem muita roteirização nem nada.

Fosse em formato de vlogs(Termo para vídeo blogs) ou mesmo formato de tutoriais como os de videogames.

Isso levou ao interesse dos anunciantes e começou a abrir os olhos para o ponto  de partida para o surgimento de  uma forte concorrente com as corporações mais tradicionais de mídias.

A MTV sentiu esse peso por assim dizer, antes uma forte marca atrelada a audiência jovem, estava perdendo sua relevância naquele momento, primeiro na indústria fonográfica na qual ela era a grande referência, as exibições dos videoclipes dos artistas em sua grade de programação simbolizava bem  a forte vitrine de  divulgar talentos fora do mainstream e trazia programas mais descontraídos, anárquicos, caóticos, que  dialogavam no estilo mais sem filtro,  despojado da linguagem jovial informal, cheia de gírias, cujos apresentadores faziam programas que fugiam ao estilo mais engessado de algumas emissoras, que simbolizava bem o público jovem.




Tudo isso ela foi perdendo espaço quando as grandes corporações de gravadoras passaram a divulgar as músicas dos seus grandes artistas rentáveis nessas plataformas, incluindo o videoclipe.  E o público jovem vinha migrando para essas plataformas assistindo conteúdo dos criadores chamados de  youtubers como: Felipe Netto, Cauê Moura, Izzy Nobre, P.C. Siqueira(1986-2023), Kéfera Buchmann, o Omelete, uma importante marca  de site geek/nerd passou também a postar vídeos no Youtube e virou a referência da comunicação jovem inspirado no próprio formato da MTV.



A marca da MTV encerraria suas operações em solo brasileiro  duas vezes. Duas vezes, como assim? Explico: Primeiro foi em setembro de 2013, depois que o Grupo Abril que detinha o licenciamento da marca para operar no Brasil e a lançou em 1990,  resolveu devolver a marca MTV à Viacom, já que naquele momento a Abril vinha passando por um colapso financeiro que se agravou depois do falecimento de Roberto Civita(1936-2013), filho do fundador Victor Civita(1907-1990), que sabia como gerenciar a editora e com o falecimento dele, a situação só piorou, o que levou a editora a fazer contenção  de gastos, tendo que diminuir o seu rico acervo de portfólios de revistas.

A partir daí a marca continuou operando em solo brasileiro pelas mãos da Viacom, apenas como tv por assinatura, mas sem a mesma influência e o mesmo prestigio de antes. Onde estava exibindo os reality shows como De Férias com o Ex. E isso durou até o momento dela encerrar suas operações definitivamente em 31 de dezembro de 2025.

O crescimento do site de compartilhamento de vídeos fez com que alguns nomes de pessoas que tinham trabalhado na mídia tradicional migrasse para essa plataforma.

Como é o caso do jornalista Britto Jr. com passagens por diferentes emissoras onde fez carreira como repórter e foi apresentador do entretenimento na Record e que hoje em dia(com perdão do  trocadilho com o título do antigo programa que ele comandou na Record nos anos 2000), afastado do meio televisivo  produz  uma crônica eletrônica em seu canal no Youtube.

Do mesmo jeito que também é o caso de Mauricio Ricardo, um chargista, cartunista e músico, onde este no caso como posso descrever já é um dinossauro da internet brasileira antes de existir o Youtube.

Digo  isso porque desde  de Fevereiro de 2000, ele vinha  produzindo charges animadas num programa de  Adobe Flash que eram postadas primeiro num antigo site do Zip.net, que a partir de Setembro de 2003 passou a fazer parte do Portal UOL. Onde lá ele passou a exibir suas charges animadas, foi nesse mesmo interim que o seu trabalho ganharia mais popularidade quando foi contratado pela Rede Globo para animar charges dos programas Domingão do Faustão, Mais Você e  Big Brother Brasil.

A partir de 2010, ele resolveu investir em postar suas charges animadas no Youtube  que duraram  até 2022, quando resolveu parar de postar devido as questões envolvendo a monetização da plataforma digital e por um tempo chegou a postar vídeos expondo suas opiniões críticas sobre temáticas cotidiano.

E recentemente nessa última edição da Copa do Mundo nos Estados Unidos, México e Canadá, testemunhamos o canal do Youtube brasileiro da CazéTV mostrar o seu predomínio nas transmissões das partidas, tirando até mesmo o embalo da concorrência da Globo com seus patrocínios controversos de bets.

Posso concluir que essa obra simbolizou bem um ponto de partida para introduzir o Youtube para nós brasileiros, e fora que assim sua estrutura se mostra bem conceitual, experimental de uma produção independente que foi apresentado no 14º Festival de Cinema de Gramado, onde pela forma de sua duração de três minutos centrado no monólogo de uma senhora que compartilha sua experiência com as drogas há 30 anos sem constrangimento nenhum de uma forma pitoresca e junte ao brilhante desempenho da saudosa Maria Alice Vergueiro**,  com um ar mais autêntico e ao  natural como ela a representa completamente doidona, chapada  com um jeito de uma senhora meio  riponga***, faz parecer um relato de uma pessoa verdade.

Diante de tudo isso posso descrever que essa obra torna-se bastante referencial para se estudar cinema, principalmente para os que estão começando na carreira de cineastas ela é uma aula interessante de como desenvolver um roteiro simples, limitado em um único cenário com um único personagem para fazer monólogo onde ele pode mostrar muito cativante dependendo de como o texto e a direção podem serem bem trabalhados.  E isso, com certeza é o grande legado que Tapa na Pantera deixou.

*O nome referente ao animal da espécie dos felinos, também já foi uma gíria usada no Brasil entre os anos 1960 a 1970 para descrever uma mulher de beleza atraente com ar de sexy appeall. Tanto que por exemplo: a famosa socialite brasileira Ângela Diniz(1944-1976) foi referida como a Pantera de Minas, o seu estado natal. E a famosa série americana estrelada por três espiãs que no original é Charles Angels, no Brasil virou As Panteras.

**A atriz Maria Alice Vergueiro faleceu em 3 de Julho de 2020, vítima de pneumonia após ficar internada na UTI do Hospital das Clinicas de São Paulo com suspeita de Covid-19. Lembrando que seu falecimento se deu bem no pico da pandemia.

*** Gíria de tom jocoso ou pejorativo usada no Brasil para se referir a uma pessoa hippie ou adepta da contracultura das décadas de 1960 e 1970. A palavra mistura o termo em inglês rip (de hippie) com o sufixo expressivo -onga. Costuma ser empregado de forma zombeteira por quem critica ou acha engraçado o visual, os hábitos ou o jeito despojado dessas pessoas.


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