No
dia 18 de agosto de 2006, era exibido um curta-metragem brasileiro postado no
site do Youtube chamado Tapa na Pantera(Brasil,
2006).
Essa
produção contou com assinatura de três diretores: Mariana Bastos, Esmir Filho e
Rafael Gomes, este último também creditado como roteirista e editor.
O
curta-metragem de três minutos de duração, teve sua postagem feita sem
autorização da produção onde mostrava o depoimento de uma senhora usuária de
maconha que foi representada pela atriz Maria Alice Vergueiro(1935-2020) que em
outras fontes a creditam como roteirista.
Ela
que já era uma atriz que acumulou longa carreira em teatro, cinema e em alguns
poucos trabalhos em televisão.
Nessa
obra, ela representou brilhantemente o papel de uma senhora usuária de maconha
que não se identifica com nome, como se tivesse prestando um depoimento numa
entrevista para televisão expressando de uma forma espontânea, com um humor
mais contido a personagem em estado de êxtase ao argumentar a sua justificativa
de fumar no cachimbo, porque o que faz mal para ela não é a droga em sim, é o papel. Sua
maneira de expressar com ar grogue, chapadona chegou ao ponto
de pensar que aquilo fosse verídico. O
seu título se referia a expressão popular do Dar um tapa na pantera*, que significava fumar maconha.
O
que levou ele a ser assistido por cerca de 235 mil internautas no site do
Youtube, que até aquele momento não era essa plataforma que virou essa
forte marca que conhecemos hoje em dia.
Digo isso porquê, quando a famosa plataforma
de compartilhamento de vídeos surgiu nos Estados Unidos em Outubro de 2004 na Califórnia,
fundada por: Chad Hurley, Steven Chen e
Jawed Karim. Nesses primeiros anos de operação, a plataforma ainda não era como
conhecemos hoje com esse nível forte de
influência, assistir a vídeos nessa plataforma ainda eram lentos e assim era
uma coisa mais broadcast(enviar por escala) nesses primeiros anos, era
simplesmente um armazenador de vídeos.
Os
primeiros vídeos que a gente costumava vê nesses primeiros anos de operações da
plataforma no Brasil não eram as produções originais de criadores de conteúdos de suas contas, eram compartilhamento de
videoclipes de artistas, eram alguns trechos de arquivos de antigos programas
de tv brasileiro, é dessa época que surgiu a conta de nome Mofo TV, do
saudoso José Marques Neto(1965-2023) que foi a grande referência em preservar o
arquivo da TV no Brasil.
Eu
tenho uma vaga recordação da primeira vez que tive contato com essa plataforma
quando na antiga rede social do Orkut, alguém numa comunidade que não
lembro qual era postou um link que levou a esse vídeo, isso lá por volta de
2006.
Com
o passar do tempo, o Youtube foi aos poucos se consolidando graças ao
surgimento de criadores de conteúdo que
foram surgindo denominados de Youtubers
expondo a cara e a coragem ao se comunicarem no estilo da
comunicação descolada sem filtro que
atraia o público jovem, expondo suas opiniões a respeito de qualquer assunto do
cotidiano tipicamente brasileiro, sem muita roteirização nem nada.
Fosse
em formato de vlogs(Termo para vídeo blogs) ou mesmo formato de tutoriais como
os de videogames.
Isso
levou ao interesse dos anunciantes e começou a abrir os olhos para o ponto de partida para o surgimento de uma forte concorrente com as corporações mais
tradicionais de mídias.
A
MTV sentiu esse peso por assim dizer,
antes uma forte marca atrelada a audiência jovem, estava perdendo sua relevância
naquele momento, primeiro na indústria fonográfica na qual ela era a grande
referência, as exibições dos videoclipes dos artistas em sua grade de programação
simbolizava bem a forte vitrine de divulgar talentos fora do mainstream e trazia
programas mais descontraídos, anárquicos, caóticos, que dialogavam no estilo mais sem filtro, despojado da linguagem jovial informal, cheia
de gírias, cujos apresentadores faziam programas que fugiam ao estilo mais engessado
de algumas emissoras, que simbolizava bem o público jovem.
Tudo
isso ela foi perdendo espaço quando as grandes corporações de gravadoras
passaram a divulgar as músicas dos seus grandes artistas rentáveis nessas
plataformas, incluindo o videoclipe. E o
público jovem vinha migrando para essas plataformas assistindo conteúdo dos
criadores chamados de youtubers como: Felipe
Netto, Cauê Moura, Izzy Nobre, P.C. Siqueira(1986-2023), Kéfera Buchmann, o
Omelete, uma importante marca de site
geek/nerd passou também a postar vídeos no Youtube e virou a referência da
comunicação jovem inspirado no próprio formato da MTV.
A
marca da MTV encerraria suas operações em solo brasileiro duas vezes. Duas vezes, como assim? Explico: Primeiro
foi em setembro de 2013, depois que o Grupo
Abril que detinha o licenciamento da marca para operar no Brasil e a lançou em
1990, resolveu devolver a marca MTV à
Viacom,
já
que naquele momento a Abril vinha passando por um colapso financeiro que se
agravou depois do falecimento de Roberto Civita(1936-2013), filho do fundador
Victor Civita(1907-1990), que sabia como gerenciar a editora e com o
falecimento dele, a situação só piorou, o que levou a editora a fazer contenção
de gastos, tendo que diminuir o seu rico
acervo de portfólios de revistas.
A
partir daí a marca continuou operando em solo brasileiro pelas mãos da Viacom,
apenas como tv por assinatura, mas sem a mesma influência e o mesmo prestigio
de antes. Onde estava exibindo os reality shows como De Férias com o Ex. E isso durou até o momento dela encerrar suas
operações definitivamente em 31 de dezembro de 2025.
O
crescimento do site de compartilhamento de vídeos fez com que alguns nomes de
pessoas que tinham trabalhado na mídia tradicional migrasse para essa
plataforma.
Como é o caso do jornalista Britto Jr. com passagens por diferentes emissoras onde fez carreira como repórter e foi apresentador do entretenimento na Record e que hoje em dia(com perdão do trocadilho com o título do antigo programa que ele comandou na Record nos anos 2000), afastado do meio televisivo produz uma crônica eletrônica em seu canal no Youtube.
Do
mesmo jeito que também é o caso de Mauricio Ricardo, um chargista, cartunista e
músico, onde este no caso como posso descrever já é um dinossauro da internet brasileira
antes de existir o Youtube.
Digo
isso porque desde de Fevereiro de 2000, ele vinha produzindo charges animadas num programa
de Adobe Flash que eram postadas
primeiro num antigo site do Zip.net, que a partir de Setembro de 2003 passou a
fazer parte do Portal UOL. Onde lá ele passou a exibir suas charges animadas,
foi nesse mesmo interim que o seu trabalho ganharia mais popularidade quando
foi contratado pela Rede Globo para animar charges dos programas Domingão do
Faustão, Mais Você e Big
Brother Brasil.
A
partir de 2010, ele resolveu investir em postar suas charges animadas no
Youtube que duraram até 2022, quando resolveu parar de postar
devido as questões envolvendo a monetização da plataforma digital e por um
tempo chegou a postar vídeos expondo suas opiniões críticas sobre temáticas
cotidiano.
E
recentemente nessa última edição da Copa do Mundo nos Estados Unidos, México e
Canadá, testemunhamos o canal do Youtube brasileiro da CazéTV mostrar o seu predomínio
nas transmissões das partidas, tirando até mesmo o embalo da concorrência da
Globo com seus patrocínios controversos de bets.
Posso
concluir que essa obra simbolizou bem um ponto de partida para introduzir o
Youtube para nós brasileiros, e fora que assim sua estrutura se mostra bem conceitual,
experimental de uma produção independente que foi apresentado no 14º Festival
de Cinema de Gramado, onde pela forma de sua duração de três minutos centrado
no monólogo de uma senhora que compartilha sua experiência com as drogas há 30
anos sem constrangimento nenhum de uma forma pitoresca e junte ao brilhante desempenho
da saudosa Maria Alice Vergueiro**, com
um ar mais autêntico e ao natural como
ela a representa completamente doidona, chapada com um jeito de uma senhora meio riponga***, faz parecer um relato de uma
pessoa verdade.
Diante
de tudo isso posso descrever que essa obra torna-se bastante referencial para se
estudar cinema, principalmente para os que estão começando na carreira de
cineastas ela é uma aula interessante de como desenvolver um roteiro simples,
limitado em um único cenário com um único personagem para fazer monólogo onde ele
pode mostrar muito cativante dependendo de como o texto e a direção podem serem
bem trabalhados. E isso, com certeza é o
grande legado que Tapa na Pantera
deixou.








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