Em
2025, o cinema nacional celebra seus 30 anos que entrava em um movimento
chamado de Cinema da Retomada.
Para
entender o que significou esse movimento, vou explicar seus antecedentes.
O
ponto de partida para compreender o que foi esse movimento da retomada e o que
ele significou para o cinema nacional,
ocorreu quando em 1990, foi empossado Fernando Collor de Mello, o primeiro
Presidente da República do Brasil eleito democraticamente em 1989, naquela fase
de Redemocratização da política brasileira Pós-Ditadura Militar.
Ele
obteve uma vitória acirrada num segundo turno contra o líder sindical,
ex-torneiro mecânico e fundador do
Partido dos Trabalhadores(PT), Luiz Inácio Lula da Silva, que enfrentava pela
primeira vez uma campanha para o cargo de Chefe de Estado da Nação*, e sendo
nosso atual Presidente da República.
Com
seu lindo rosto jovial, que atraiu o eleitorado feminino, medindo 1,85 cm de
altura, dono de uma voz de barítono que bem
defini o perfil de sua oratória onde conseguiu persuadir com um eloquente
discurso a convencer de que era um
sujeito progressista, um tipo até então obscuro da política brasileira, cuja política
já vinha do seu histórico familiar.
Nascido
no berço de dois influentes clãs oligárquicos da política do Estado de Alagoas, seu avô materno “Lindolfo
Collor (1890-1942), era descendente dos primeiros colonos chegados
ao Brasil, em 1824. Foi eleito deputado federal pelo Rio Grande do Sul
nos anos de 1923 e 1927, tornando-se um dos líderes da Revolução e
sendo nomeado por Getúlio Vargas(1882-1954) o primeiro titular do Ministério
do Trabalho, Indústria e Comércio, do qual se afastou em 1932 ao romper com o
presidente, tendo participado da Revolução Constitucionalista daquele
ano. Bisneto do jornalista Luís Bartolomeu de Souza e Silva(1862-1932), criador da revista O Tico-Tico”. Além do
fato dele ser filho de Arnon Afonso Farias de Melo(1911-1983), influente nome
da política alagoana que já foi “deputado
federal em 1950 e governador de Alagoas de 1951 a 1956. Após deixar o
governo do estado, foi eleito senador por três mandatos consecutivos
(1962, 1970 e 1978). Em 1963, no prédio do Senado Federal, Arnon de Melo
matou seu colega José Kairala(1924-1963) quando tentava disparar à queima
roupa em Silvestre Péricles de Góis Monteiro(1896-1972), que supostamente
também estava armado. Arnon de Melo não foi jamais formalmente acusado pelo
homicídio.” (Fonte: Wikpedia).
Usando
do slogan de Caçador de Marajás, querendo adotar uma política de
privatização para dar fim a empresas estatais que eram vistas como grandes Elefantes
Brancos.
O
que atraiu a camada dos empresários, que passaram a serem grandes apoiadores de
sua campanha, que depositavam nele uma esperança de salvação para o setor econômico brasileiro que
vivia aquela alta fase da inflação.
Quando ele tomou posse, a primeira
medida que tomou foi confiscar a poupança dos brasileiros, adotou uns planos
econômicos que só aumentaram o problema da inflação e prejudicou a produção do cinema nacional mandando fechar
a Embrafilmes. E mandando retirar os incentivos fiscais pelo governo.
Foi
o começo de uma fase nebulosa do cinema nacional, que ocasionou na mudança de
carreira do cineasta Arnaldo Jabor(1940-2022) para o jornalismo e foi por
essa época ainda foram lançados alguns filmes já produzidos e estrelados por populares artistas da tv, que
tinham forte apelo com a camada infato-juvenil, ainda conseguiam atrair uma boa
bilheteria.
Dentre
esses estava a trupe dos Trapalhões formada por:
Renato Aragão (Didi), Manfred Sant´Ana (Dedé), Antônio Carlos Bernardes Gomes
vulgo Mussum(1941-1994) e Mauro Faccio Gonçalves vulgo Zacarias(1934-1990) que
faziam sucesso na TV desde os anos 1970 e os apresentadores de programas de auditório
infantil Xuxa Meneghel e Sérgio Mallandro.
Os
Trapalhões lançaram três filmes no começo dos anos 1990, que foram: Uma Escola Atrapalhada(Brasil, 1990),
dirigido por Del Rangel(1955-2019) que marcou o último a contar com a
participação de Zacarias que faleceu no dia 18 de Março de 1990, vítima de uma
insuficiência respiratória aos 56 anos. Ele já estava enfrentando problemas de
saúde quando sentindo-se “acima do peso e resolveu por conta própria
iniciar um regime macrobiótico à base de frutas e saladas, com o auxílio
de remédios. Ele acabou perdendo vinte quilos, porém como consequência,
seu organismo enfraqueceu, chegando a atingir seus pulmões e lhe deixando
com anemia. Sua magreza e palidez repentina chamaram a atenção dos
fãs e da mídia, chegando a saírem matérias nos jornais declarando que o ator
havia contraído o vírus da AIDS, doença em voga na época. Tais boatos teriam
abalado o psicológico do trapalhão, que estava preocupado com a reação dos fãs,
principalmente as crianças, em relação a tal mentira. Por conta disso, Mauro
isolou-se em sua casa, passando a não atender ligações ou receber visitas.
Devido
a sua fraqueza e estado de saúde delicado, Mauro foi impedido pelos médicos de
retornar para as gravações do programa, iniciadas em janeiro de 1990. Ele
precisou se afastar dos Trapalhões e não chegou a gravar cenas para o
quadro Trapa Hotel, onde interpretaria um maítre. Teve forças para atuar
em seu último filme, Uma Escola Atrapalhada, onde o quarteto fez somente uma
participação e onde sua magreza já estava em evidência.” (Fonte:Wikipédia).
Depois
disso, vieram os dois últimos filmes estrelados pelo grupo agora apenas como trio formado por Didi, Dedé
e Mussum que foram: O Mistério de Robin Hood(Brasil, 1990) e Os
Trapalhões e a Árvore da Juventude(Brasil, 1991), ambos dirigidos por José
Alvarenga Júnior e que depois disso, não foi mais produzido nenhum filme dos Trapalhões,
já que o grupo chegaria ao fim após o falecimento de Mussum em 1994 vítima
de uma insuficiência cardíaca aos 53 anos.
Com
o fim da trupe, Renato Aragão só voltaria a produzir filmes já na fase do
Cinema da Retomada com o filme O Noviço Rebelde(Brasil, 1997), dirigido
por Tizuka Yamazaki que marcou o primeiro de uma série de filmes solos dele
estrelando o seu famoso personagem, cujo nome completo é: Didi Mocó Sonrisal
Colesterol Novalgino Muffumbo, muito pitoresco.
Foi
também nesse período que foi lançado Lua de Cristal(Brasil, 1990) filme
estrelado pela apresentadora infantil Xuxa Meneghel** e com direção de Tizuka
Yamazaki, que já era figura presente nos filmes dos Trapalhões, uma
versão brasileira moderna de um clássico conto de fadas da Cinderela, que
contou com Sérgio Mallandro como seu Principe Encantado.
O
mesmo Sérgio Mallandro também estrelou duas produções lançadas nessa época que
foram: Sonho de Verão e Inspetor
Faustão e o Mallandro.
Em
Sonho de Verão(Brasil, 1990) obra que contou com a direção de Paulo
Sérgio de Almeida(1945-2025) tinha uma história que girava em torno de Léo,
vivido pelo Mallandro, um sujeito desengonçado e muito imperativo que passa a
viver na mansão de uma rica família que foi viajar aos Estados Unidos, onde ele
mente para a governanta Sófia(Fafy Siqueira) dizendo que era sobrinho dos
proprietários, mas que na verdade não tinha parentesco algum, era um
tremendo pilantra, um picareta e chama
para convidar um grupo de jovens para fazer zoeira na mansão.
Esse
filme ficou um tanto obscuro na história do cinema brasileiro só sendo redescoberto tempos depois, por conta do filme
sul-coreano Parasita(Gisaechung, Coreia do Sul, 2019), obra de Bong
Jong-Hoo, cujo mote do roteiro tem uma estrutura que lembra muito o que foi
trabalhado em Sonho de Verão.
Essa
obra que contou no seu elenco com as participações das Paquitas e dos Paquitos, os famosos
assistentes de palco dos programas de Xuxa Menghell, e da ex-paquita Andréa
Veiga como a Jam, par romântico do Léo e com participação do popular
apresentador Fausto Silva. Esse mesmo com quem Mallandro protagonizaria o filme
vergonhoso da história do cinema brasileiro que foi lançado no ano seguinte.
Já
em Inspetor Faustão e o Mallandro(Brasil, 1991) protagonizado por Fausto
Silva, famoso apresentador que na época comandava o Domingão do Faustão(1989-2021)
na Globo, numa produção que contou com muitos dedos da Globo, foi produzida
pela Xuxa Produções produtora da Xuxa Meneghel, teve seu roteiro escrito por
Nelson Nadotti com argumento de Fausto Silva e direção de Mário Márcio
Bandarra(1955-2021) que naquele momento já era um renomado diretor em produções
da Globo.
Só
de saber que foi Faustão o responsável
pelo argumento do texto, você já pode esperar uma qualidade minimamente
questionável desse tipo de história. Um dedo podre no meio.
E
que de fato se mostrou, o filme apresenta uma história muito sem lógica de tão cretina que se
apresenta: a começar pelo fato de
apresentar Faustão fazendo ele mesmo, mostrando que não tem o menor talento
para ator.
Fazendo
um feirante que pela intervenção divina de Deus que foi representado por Paulo
César Pereio(1940-2024) fazendo apenas a
locução, sendo que curiosamente o ator era ateu e já esteve envolvido na
polemica de mandar destruir a estátua do
Cristo Redentor no Rio de Janeiro.
Faustão é nomeado inspetor de polícia, para salvar os
animais de contrabandistas comandados por Budum(Chiquinho Brandão) que tem como
cliente um turista americano chamado Tom Crù(Claudio Mamberti).
Nessa
sua jornada para caçar os contrabandista dos animais, ele conhece o policial Mallandro,
representado pelo próprio Sérgio Mallandro, filho do seu chefe superior
Superintendente(Costinha), um sujeito de perfil bem desagradável, ainda mais
por agir muito hiperativo.
Principalmente
para lhe fazer companhia e a partir daí
tem se início sua jornada de confusões, que só aumentaram com a presença
inconveniente de seu sobrinho
Faustinho(Caique Benigno).
A
primeira vez que eu assisti a esse filme quando menino foi assistindo numa
fita VHS que meu pai havia locado e
tenho que confessar que eu até achava engraçado, ainda que sem muito senso
crítico, já que naturalmente criança não tem discernimento para isso.
Ao
revisitar décadas depois sendo exibido no Youtube, pude perceber como a obra
envelheceu mal justamente pelo roteiro se mostrar nonsense a nível pastelão,
medíocre. Há momentos no texto que
mostram eles fazendo umas piadas de cunho erótico implícito que soa muito
brega, ainda mais que eles queriam destinar ao público infanto-juvenil.
E
como tudo foi feito as presas, você nota uma qualidade questionável da produção
especialmente no som e na imagem.
Nas
cenas que mostra Faustão em seu apartamento com seus dois cachorros com os
nomes pitorescos de Inflação que é grande
e Salário Mínimo que é pequeno
onde você bem pode notar como a obra ficou datada já que ele estava
cutucando o cenário econômico do Brasil
da Era Collor.
Se
Faustão como ator peca no filme, imagine Sergio Mallandro que o tempo todo faz aquele maneirismo de humor físico
característico nos programas infantis que apresentava com aquele jeito risível
de vergonha alheia a nível infantilóide que além de soar desagradável, fica irritante.
Fora
que o elenco apesar de contar com participações de grandes estrelas globais
como as atrizes: Luiza Tomé fazendo a namorada de Faustão, Claudia Alencar como
a noiva de Mallandro, Paolla Bettega como uma comparsa do vilão Budum e Adriana
Esteves numa participação especial.
Essas
atrizes talentosas e de belezas
atraentes sofrem para representar o nível canastrão do texto desse filme.
Fora
o desperdício que o filme faz do talento de feras do calibre de Claudio Mamberti(1940-2001) que
coitado sofre para fazer uma
representação do turista americano Tom Crú, cuja
interpretação beira ao caricato
empostando a voz para fazer o sotaque
gringo que ele tenta reproduzir. E a
participação do Costinha(1923-1995)
então nem se fala, é desperdiçado numa
única cena em que faz o papel do pai do Mallandro.
Além
disso, nem as participações de talentos da música brasileira como: Sandra de Sá, Sidney Magal, Patrícia
Marx, Silvinho Blau Blau ou mesmo do
saudoso Wando(1945-2012) fazendo suas performances cantando como se tivesse
gravando para videoclipes conseguem segurar o interesse do público pela obra.
Fora
a participação do garoto Caique Benigno, fazendo o Faustinho, sobrinho do
Faustão. Que se mostra um moleque serelepe
de um nível de chateação mais inconveniente que do Mallandro.
Posteriormente esse menino se tornaria um dos protagonistas do programa
infantil do SBT Disney Club(1997-2001) como o Macarrão/Macaco.
Atualmente desenvolve o trabalho de DJ.
Vale
também mencionar a participação de Chiquinho Brandão que representou na
obra o vilão Budum, um traficante de
animais que passa o filme inteiro arrotando, chegando a nível patético.
Sobre
esse ator um fato triste a comentar é que na mesma data que a obra foi lançada
Chiquinho Brandão morreu num acidente
automobilístico ocorrido na Lagoa Rodrigo de Freitas, quando estava retornando
de mais um dia de gravação da minissérie da Rede Globo O Sorriso do Lagarto(Brasil,
1991), no dia 04 de Junho de 1991, o ator estava com 39 anos.
Esses
são só alguns exemplos, porque também houve outras pouco conhecidas produções
nacionais lançadas nessa época que não chegaram a serem lançadas comercialmente
como: A Rota do Brilho(Brasil, 1990) do diretor Deni Cavalcanti, O
Corpo de José Antônio Garcia(1955-2005), Perfume de Gardênia (Brasil,
1992) de Guilherme Almeida Prado, Alma Corsária (Brasil, 1993) de Carlos
Reichembach(1945-2012), e Lamarca(Brasil, 1994) de Sérgio Rezende,
inspirado na vida do guerrilheiro Carlos Lamarca(1937-1971).
Como
se pode ver, a situação em que a
produção cinematográfica brasileira no começo dos anos 1990 foi das mais nebulosas,
mas teve uma luz no fim do túnel que ocorreu quando o irmão do então presidente
Collor, o empresário Pedro Collor(1952-1994) veio a público aparecendo na capa
da revista semanal Veja, publicada em Maio de 1992, com a manchete Pedro
Collor Conta Tudo para denunciar todos os esquemas corruptos onde ele
estava envolvido, junto com seu tesoureiro Paulo César Farias(1945-1996).
Inicialmente
ninguém acreditava de que aquilo fosse verdade, visto seu histórico com
problemas de saúde mental, o chamaram de louco. Mas depois que se investigou e
se descobriu que era tudo verdade, a mesma camada dos empresários que os
apoiaram na Campanha de 1989, resolveram se articularem para lhe derrubar e
moveram as camadas populares com os jovens cara-pintadas que resultou no seu
processo de Impeachment.
Após
Collor ser impedido de continuar seu mandato pela decisão dos parlamentares, e
quem assumiu seu lugar foi o vice Itamar Franco(1930-2011). Dois anos após
denunciar o irmão, Pedro Collor faleceria em dezembro de 1994 de câncer com melanoma maligno da pele com
metástase no cérebro, o que agravou o problema delicado de sua saúde mental.
Pior
mesmo foi o desfecho do ex-tesoureiro Paulo César Farias que foi misteriosamente assassinado em 23 de Junho
de 1996, acompanhado de sua então namorada Suzana Marcolino. Um crime que até
hoje gera muita polêmica, e que nem mesmo os autores de romances policiais
imaginariam que isso pudesse acontecer.
Foi
no curto mandato de Itamar Franco que o Brasil começou a se reorganizar economicamente
e a produção cultural de cinema se beneficiou bastante disso.
Isso
porque após o Impeachment de Collor foram implementadas “medidas que promoveram a retomada do
cinema no país. A criação de leis de incentivo, como a Lei Rouanet (1991)
e a Lei do Audiovisual (1993), possibilitou a captação de recursos por
meio de renúncia fiscal, estimulando o investimento privado em projetos
culturais. Além disso, o Prêmio Resgate do Cinema Brasileiro, realizado entre
1993 e 1994, financiou a conclusão de diversas obras, dando início ao
renascimento da produção cinematográfica”.
Algo
que foi concretizado no primeiro mandato do governo de outro Fernando, no caso, o
sociólogo Fernando Henrique Cardoso, que surgiu na pasta de Ministro da Fazenda
no Governo Itamar Franco, ajudou a implantar a moeda do Plano Real em Julho de
1994 que ajudou a estabilizar o cenário econômico do Brasil como mostrado no
filme Real-O Plano Por Trás da História(Brasil, 2017) dirigido por
Rodrigo Bittencourt. E aproveitando o momento onde a Seleção Brasileira de
Futebol estava fazendo uma boa campanha pela conquista do Tetracampeonato na
Copa do Mundo realizada nos Estados Unidos.
Isso
se tornou um ponto favorável para que no
mesmo ano de 1994, ele vencesse no
primeiro turno a Campanha Presidencial, derrotando o líder sindical Lula que
disputava pela segunda vez ficando em segundo lugar.
Foi
portanto, nesse contexto que a partir de
1995,o cinema nacional voltou com tudo e deu início a esse ciclo que justamente
por isso, esse período é rotulado de
Cinema da Retomada.
FILMES
DESSA FASE QUE RECOMENDO ASSISTIREM:
Selecionei
algum dos filmes que são essenciais para se conhecer essa fase da Retomada do Cinema Nacional. Essa
lista não é rankeada, mostrando do melhor ao pior, não. São apenas recomendações que seguem a linha cronológica
do período estabelecido que foram
lançados esses filmes brasileiros entre
1995 a 2002. Que para quem ainda não teve a oportunidade de assistir, procurar assistir,
conhecer e apreciar as estéticas de cada um.
CARLOTA
JOAQUINA-A PRINCESA DO BRASIL(1995)
Começo
mencionando com Carlota Joaquina-A Princesa do Brasil que é o ponto de
partida essencial para se conhecer esse período do cinema da retomada. Contando
com a direção da ex-atriz Carla Camuratti, que também assina o roteiro ao lado
de Melanie Dimantas e Angus Mitchell e
também contou com o envolvimento do cineasta Breno Silveira(1964-2022)
assinando como diretor de fotografia, o mesmo que dez anos depois foi
responsável por dirigir 2 Filhos de Francisco(Brasil, 2005), a
cinebiografia da popular dupla sertaneja Zezé Di Camargo & Luciano.
Ele
é essencial pelo fato dele abordar uma interessante dramatização histórica
sobre uma polêmica figura política que
já governou o Brasil, no caso a Rainha Carlota Joaquina(1775-1830).
Apesar
da polêmica ocasionada entre os
historiadores por conta de sua representação cômica um tanto exagerada, beirando
ao caricato não ser muito verosímil com os fatos, principalmente na maneira
como Carlota Joaquina protagonizada por Marieta Severo foi representada como uma lasciva que vivia
traindo o marido e Dom João IV(1767-1826) protagonizado por Marco Nanini um bobalhão frouxo e comilão, ainda assim a
obra tem seu grau de importância.
Sua
estética cômica apresenta muitos elementos satíricos com toques teatrais, e até um tanto
carnavalescos se utilizando de
referência a pornochanchada, que servia de uma certa forma a trazer com toque de escapismo fabular, uma crítica a aquele momento específico do
cenário político e econômico do Brasil da segunda metade da década de 1990, se
reorganizando economicamente após enfrentar a caótica situação que já vinha acompanhando desde sua Redemocratização.
A
produção mostrou um bom apuro técnico ao reconstituir toda a cenografia de
época, os figurinos impecáveis e o elenco de primeira categoria que além de
contar com os já mencionados Marieta Severo e Marco Nanini, também contou com
Marcos Palmeiras representando o Imperador Dom Pedro I(1798-1834) com seu jeito boêmio, Beth Goulart como a
Princesa Maria Teresa de Bragança(1793-1874), Vera Holtz como a Rainha de
Espanha Maria Luísa de Parma(1751-1819), mãe de Carlota Joaquina. Fora também
as participações saudosas de Antônio Abujamra(1932-2015) na pele do Conde
de Mata-Porcos, um personagem ficcional
que foi criado para simbolizar o descontentamento da camada da população
“brasileira” com a Corte. Ney Latorraca(1944-2024) que representou bem no filme
o pintor francês Jean-Baptiste Debret(1768-1848) que esteve de passagem no
Brasil durante a Missão Artística Francesa. Outras participações saudosas a
serem mencionadas são de Norton Nascimento(1962-2007) como o Fernando
Leão que vem a ser amante de Carlota Joaquina aqui no Brasil, com quem chega a
encenar uma picante cena sexy. E de
Thales Pan Chacon(1956-1997) na pele do médico da Corte.
Lembro
da primeira vez que eu assisti a esse filme foi vendo numa VHS locada numa
videolocadora quando eu era bem moleque e me divertir muito e revisitando na
Netflix pude bem observar como o filme envelheceu bem.
O
MENINO MALUQUINHO(1995)
Outro
também ponto de partida essencial para se conhecer o movimento do Cinema da
Retomada é o filme O Menino
Maluquinho, inspirado num famoso personagem cartunesco do
Ziraldo(1932-2024). Um filme infanto-juvenil brasileiro que me lembro vagamente
de ter ido assistir, eu estava com 10 anos acompanhado da minha família no
antigo prédio da sala de cinema do Rio Verde aqui em Natal/RN, localizado em
frente à Catedral Nova na Avenida Floriano Peixoto em Tirol, no centro da
cidade, onde hoje é o prédio de uma Igreja Evangélica. O filme contou com a
direção de Helvecio Ratton e produção de Tarcísio Vidigal com roteiro adaptado
pelo próprio criador.
O
filme apesar de apresentar entre suas falhas técnicas, uma qualidade meio
sofrível da imagem com alguns chuviscos que criam uma sensação de ter
envelhecido mal com o tempo, dando uma sensação de produção amadora por causa
da retomada tímida e a captação do áudio também não estava lá essas coisas. Mas que de todo jeito
ainda é uma produção que mesmo com recursos bem limitados e com um orçamento
até modesto se formos comparar aos padrões hollywoodianos.
Apresenta
um belo primor no roteiro que foi bem fielmente adaptado como eu bem
pude verificar algum tempo depois de ganhei uma edição em livro presenteado por
meus pais que era uma maravilha todo ilustrado e com poucos textos. Mas mesmo
assim muito empolgante, história incrível.
Cujo
elenco contou com a participação saudosa de Luís Carlos Arutin(1933-1996) que representou
no filme o papel do Vovó Passarinho, papel esse que foi o último de sua carreira***, já que ele tragicamente
morreria pouco tempo depois, vítima de
um incêndio em seu apartamento no seu Rio de Janeiro na madrugada do dia 8 de
Janeiro de 1996.
Que
também conta com Patrícia Pillar e Roberto Bontempo nos papeis do pai do
protagonista, muito bem defendido por Samuel Costa e com a ótima trilha musical
assinada por Antônio Pinto, filho de Ziraldo com a canção-tema de
Milton Nascimento e Rita Lee(1947-2023) cujo trecho é:
Vida
de moleque é vida boa
Vida
de menino é maluquinha
É
bente altas, rouba bandeira
Tudo
que é bom é brincadeira
É
bente altas, rouba bandeira.
O
QUATRILHO(1995)
Outro
lançamento de 1995, O Quatrilho trata-se também de um filme lançado nessa fase do Cinema da
Retomada como essencial. Uma produção que contou com o envolvimento de uma
importante família ligada a cinema, no caso dos Barretos.
Com produção executiva do casal Lucy e Luiz
Carlos Barreto, dirigido pelo filho do casal Fábio Barreto(1957-2019). Inspirado
no romance de José Clemente Pozenato(1938-2024) cujo roteiro foi adaptado por Leopoldo Serran(1942-2008) e por Antônio
Calmon que na ocasião já era um renomado roteirista na tv escrevendo novelas na
Rede Globo. O filme traz uma abordagem a
respeito da visão do sistema econômico agropastoril no sul do pais, mais
precisamente na serra gaúcha no começo do século 20 representado na figura de
dois casais de imigrantes italianos: De um lado temos Angelo(Alexandre
Paternost) e Teresa(Patrícia Pilar) e do outro Massimo(Bruno Campos) e Pierina(Glória
Pires), casal que vão fazer ao longo do enredo
uma troca de pares, com Teresa ficando com Mássimo e Pierina com Angelo
como bem sugere o título que é um termo para um jogo de cartas que utiliza um
baralho especial de 40 cartas, existe uma cena no filme no bar mostrando o
pessoal jogando cartas que mencionam o nome Quatrilho.
Figura
na minha lista como essencial pelo fato de ser o primeiro dessa leva de filmes
que representou o Brasil na disputa do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro que
agora é intitulado de Internacional em 1996, onde perdeu para a produção
holandesa A excêntrica família de Antônia(Antonia, Países Baixos,
1995) da diretora Marleen Gorris. A única vez até então que um filme brasileiro disputou essa
categoria no Oscar foi em 1963, com o filme O Pagador de Promessas(1962)
dirigido por Anselmo Duarte(1920-2009) inspirado na peça teatral de Dias
Gomes(1922-1999). Isso tirando o exemplo de Orfeu Negro(Brasil, França, Itália,
1959) que quando ganhou nessa mesma categoria em 1960, não foi representando o
Brasil apesar de se passar no Brasil e ser falado em português. Foi
representando a França, ainda mais que seu diretor foi ninguém mais, ninguém
menos do que o francês Marcel Camus(1912-1982).
No
elenco de O Quatrilho conta com Patrícia Pilar, Glória Pires, Bruno Campos
e Alexandre Pasternost como os quatro protagonistas, o saudoso Gianfrancesco
Guarnieri(1934-2006) na pele do Padre Giotto, o também saudoso Cecil
Thiré(1943-2020) como o Padre Gentille, José Lewgoy(1920-2003) como o Rocco,
Claudio Mamberti como Batistton e Antônio Carlos Pires(1927-2005), pai da atriz
Glória Pires como Aurelio.
O
GUARANI(1996)
Apesar da má fama que ele carregou pelo prejuízo financeiro que sua realizadora teve de carregar O Guarani, ainda assim figura na minha lista como um filme essencial para se conhecer dessa fase da Retomada do Cinema Nacional. Baseado no clássico romance indianista de José de Alencar(1829-1877), que já teve outras adaptações para cinema, sendo que o primeiro registro é de 1912, ainda da fase do cinema mudo e em preto e branco, mas que figura como uma obra perdida. Em 1916, foi lançada outra adaptação dirigida pelo ítalo-brasileiro Vittorio Capellaro(1877-1943) que também figura como uma obra perdida. Em 1979, foi lançada a primeira versão falada e em cores de O Guarani, que foi dirigido por Fauzi Mansur(1941-2019) com roteiro adaptado por Ody Fraga(1927-1987), que contou com o popular astro da pornochanchada David Cardoso como o protagonista Peri. Isso sem contar na minissérie produzida pela Rede Manchete em 1991, cujo roteiro foi adaptado por Walcyr Carrasco e dirigido por Marcos Schechtman que futuramente integrariam a equipe de roteiristas e diretores da Rede Globo. Onde o Peri foi protagonizado por Leonardo Brício e a sua amada Ceci foi representada por Angélica Ksyvickis, a popular apresentadora infantil que comandava na Manchete o Clube da Criança.
Até
chegar a essa versão especifica de 1996, que contou com a direção da Norma
Bengell(1935-2013), uma atriz que já figurou uma grande musa do cinema
brasileiro, cujo papel mais marcante foi fazendo a Leda em Os Cafajestes(Brasil,
1962) do diretor Ruy Guerra, onde protagonizou a memorável primeira cena de nudez frontal da história
do cinema brasileiro dela correndo na praia nos minutos finais do filme.
O
Guarani não foi sua primeira experiência de diretora, antes ela já
teve a experiência dirigindo Eternamente Pagú(Brasil, 1988),
cinebiografia da escritora modernista Patrícia Galvão(1910-1962) dentre outros.
Nessa
sua versão dirigindo O Guarani, cuja adaptação do roteiro foi assinado
por José Joffily nos apresenta uma interessante história que expõe a visão
crítica ao Brasil colonialista do século 16, simbolizada na figura da
Ceci(Tatiana Issa) como uma jovem branca colonizadora vivendo sua paixão
proibida pelo guerreiro indígena guarani Peri(Márcio Garcia) no momento onde
estava ocorrendo uma guerra colonial.
Dentre
as menções do elenco que contam com feras vão para os protagonistas Márcio
Garcia e Tatiana Issa como Peri e Ceci que mostram um bom entrosamento em cena,
ambos figuravam como os jovens talentos que estavam despontando na televisão. Márcio Garcia como Peri se
mostra excelente principalmente ao expor o porte físico atlético para
representar sua essência guerreira, ele que
figurava como o jovem galã símbolo sexual da preferência do público
feminino que na ocasião era bastante requisito nas novelas da Globo e Tatiana
Issa na pele da Ceci, mostra um excelente desempenho ao imprimir um toque
dócil, calmo e sereno a personagem.
Com
seu lindo rosto angelical que a tornou uma símbolo sexual masculina chegando a
posar nua para a capa da antiga Playboy em 1998, que também era bastante
requisitada em novelas da Globo, mas que nos últimos anos deixou o oficio de
atriz de lado e se dedicou a função de cineasta. Um dos interessantes trabalhos
dirigidos pela atriz que tive o privilégio de conferir foi em Pacto Brutal-O
Assassinato de Daniela Perez(Brasil, 2022), série documental em cinco
episódios sobre o assassinato da atriz Daniela Perez pelo casal Guilherme de
Pádua(1969-2022) e Paula Thomaz ocorrido em dezembro de 1992.
Apesar
do filme ter gerado um prejuízo para a cineasta que lhe rendeu uma má fama a
ponto de fazê-la devolver aos cofres públicos o investimento do que foi gasto.
Ainda assim, a trama tem seu nível de importância para entender o que foi o
cinema da retomada.
O
QUE É ISSO, COMPANHEIRO(1997)
Com
uma abordagem muito cara sobre como o Brasil lida com essa herança
violenta da Ditadura Militar, o filme O
que é Isso, Companheiro trata-se de uma produção que também contou com o
envolvimento da família Barreto na produção e foi dirigida por outro filho do
casal que é o Bruno Barreto.
Baseado no livro homônimo de Fernando Gabeira,
que também assina o roteiro ao lado de Leopoldo Serran e que no filme é
representado por Pedro Cardoso que foi um dos responsáveis pelo sequestro do
embaixador americano Charles Burke Elbrick(1908-1983) em
1969 junto aos guerrilheiros do MR-8, grupo armado que combatia a
Ditadura Militar.
A
obra retrata bem como foi sua participação no sequestro
ao embaixador americano Elbrick(Alan Arkin), onde acompanhamos Fernando antes
de participar do grupo armado participando de uma manifestação ao
lado de Artur(Eduardo Moscovis), um aspirante a ator e de Oswaldo(Selton Mello)
que o acompanha na luta armada quando ele é apresentado por meio de Marcão(Luíz
Fernando Guimarães) ao local secreto do bando que é comandado por
Maria(Fernanda Torres) e recebem os codinomes para preservarem suas reais
identidades, Fernando passa ser chamado de Paulo.No grupo onde ele ingressa,
também integram: Renée(Claudia Abreu), Júlio(Caio Junqueira), Jonas(Matheus
Nachtergaele) e Toledo(Nélson Dantas).
No
decorrer da história, vamos acompanhando Fernando agora como Paulo sendo
treinado para disparar armas e eles arquitetando o sequestro ao
embaixador e até chegar de fato a execução do sequestro que acompanhamos a
rotina tensa deles até a sua libertação que ocorre no dia 7 de
Setembro de 1969, feriado do dia da Independência do Brasil, após quatro dias
de sequestro.
O
filme aborda bem pela ótica de mostrar
as consequências das violências brutais, principalmente pela ótica do
guerrilheiro Fernando Gabeira que participou de assaltos e organizou o
sequestro de um embaixador.
Ele
foi outro lançado nessa fase do Cinema da Retomada a representar o Brasil no Oscar em 1998,
disputando na categoria de melhor filme estrangeiro, que agora é denominada de
melhor filme internacional para o belga-holandês Karakter de Mark Van
Diem.
P.S.
A edição do Oscar de 1998 ficou marcada pela vitória de Titanic de James
Cameron ganhando 11 Estatuetas das quais foi indicado. O único filme a
conseguir esse foi Ben-Hur(1959) na edição do Oscar de 1960.
CENTRAL
DO BRASIL(1998)
Outro
filme importante lançado nessa fase do Cinema da Retomada que merece ser
assistido. Essa obra contou com a direção do Walter Salles****, o diretor do
premiado no Oscar 2025 Ainda Estou
Aqui, nos traz uma excelente abordagem sobre a realidade do Brasil
analfabeto, principalmente quando acompanhamos a jornada da protagonista
Dora(Fernanda Montenegro), uma mulher que trabalha na Estação Central do
Brasil, daí o título se oferece a
escrever as cartas de pobres pessoas
analfabetas para seus parentes distantes que residem em outras cidades.
Até
ela se deparar com um garoto chamado Josué(Vinicius de Oliveira), com quem
constrói uma amizade e resolve acompanha-lo em sua jornada para retornar a sua
terra natal numa estética road movie
para ir ao interior do Nordeste indo em procura do seu pai.
Essa
obra cujo roteiro foi escrito por Marcos Bernstein e João Emanuel Carneiro que
fariam carreira na televisão escrevendo novelas para a Globo.
Ele
também é outro essencial para se conhecer essa fase do Cinema da Retomada,
principalmente por abordar a realidade brasileira com o analfabetismo.
Ele
também foi outro dessa fase a
representar o Brasil no Oscar de 1999, onde competiu não só na categoria de
Melhor Filme Estrangeiro, mas também de Melhor Atriz para Fernanda Montenegro. Na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, ele
perdeu para o italiano A Vida é Bela(1997) dirigida por Roberto Benigni
e para a categoria de atriz Fernanda Montenegro perdeu para a americana Gwyneth
Paltrow que estrelou o filme anglo-americano Shakespeare Apaixonado(Shakespeare
in Love, Reino Unido, EUA, 1998).
Justamente
por esse motivo é que esse figura na minha lista como essencial.
MAUÁ-O
IMPERADOR E O REI(1999)
A
cinebiografia do empresário Irineu
Evangelista de Sousa(1813-1889), o Barão de Mauá. Que no século 19, foi um empresário
que tentou trazer a indústria ferroviária para o Brasil, mesmo
enfrentando a resistência do Imperador Dom Pedro II(1825-1891).
Dirigida
por Sérgio Rezende, que também assina o roteiro junto com Paulo Halm e Joaquim
Vaz de Carvalho, a obra explora ao longo de suas 2 horas e 15 minutos de
duração toda a sua trajetória mostrando
de sua humilde infância no interior do Rio Grande do Sul quando se depara com o
pai morto montado num cavalo, quando vai acompanhado de seu tio Rio de Janeiro,
então capital do Império e de como foi
conseguindo mostrar aptidão para os negócios que o fez prosperar, mas
enfrentando uma resistência dos conservadores do Império.
Essa
obra foi premiada em dois festivais de cinema ocorridos no ano 2000, venceu na
categoria melhor filme no Festival de Cinema Hispânico de Miami e nas
categorias de melhor figurino e melhor direção de arte no Prêmio Guarani de
Cinema Brasileiro.
Conta
em seu elenco com feras como Paulo Betti como protagonista Mauá, Malu Mader
representando o papel de Maria Joaquina de Sousa a quem Mauá a chama de May,
sua sobrinha/esposa. O que pode parecer estranho essa relação incestuosa, mas
temos que lembrar que no Brasil do século 19, esse tipo de costume era muito
comum de casamentos arranjados entre parentes. Antônio Pitanga como Valentim,
um escravo que ele conheceu quando criança foi trabalhar numa venda e o
libertou antes da Lei Aurea. Rodrigo Penna na pele do Imperador Dom Pedro
II(1825-1891). Mencionar as saudosas participações de Hugo Carvana(1937-2014)
como Queiros e Claudio Correa e Castro(1928-2005) como o Visconde do Uruguai
que o batiza em sua entrada na maçonaria.
Por
esses fatores o tornam essencial de se conhecer sobre essa fase do Cinema da
Retomada.
BICHO
DE SETE CABEÇAS(2000)
Esse
drama barra pesada abordando sobre a importância da saúde mental é outro que
também figura na minha lista dos filmes brasileiros essenciais dessa fase do Cinema da Retomada. Porque ele
representa bem um reflexo da realidade nua e crua da podridão que existe nos
locais que eram para serem de acolhimento, terminam sendo um pesadelo e da
realidade destrutiva de quem é um usuário de drogas.
Nesse
filme acompanhamos a jornada de Neto(Rodrigo Santoro), um jovem de classe média
introvertido, que mora com seus país e não sabe o que quer da vida.
Se
aventura com umas más companhias que o levam a experimentar aquele pó branco o
tornando um usuário, e seus pais ao descobrirem o levam para dois manicômios
onde lá ele vai enfrentar tratamentos de choques dos mais abusivos e desumanos.
Nessa
obra dirigida por Laís Bodanzky, teve seu roteiro assinado por Luiz Bolognesi
inspirado na história real de Austregésilo Carrano Bueno(1957-2008) que ele
escreveu no seu livro O Canto dos Malditos, cujo nome foi alterado,
assim como os personagens reais da clínica que ele frequentou quando era jovem
e enfrentou problemas com drogas. Principalmente que pelo que pude pesquisar sobre o livro, ele chegou a sofrer
uma ameaça de censura da partes dos mencionados no livro que ameaçaram recolher
a obra das prateleiras.
Ele
virou um ativista do movimento anti-manicomunal e o retrata sem maquiagem nenhuma como o nosso
governo faz vista grossa para o problema.
Um
dos principais destaques do filme vai para o desempenho de Rodrigo Santoro na
pele do Neto, a entrega com que ele demonstra em cena é impressionante.
Pode-se
dizer que com esse desafiador papel se mostrou um ponto de virada na sua
carreira, digo isso porque até então ele tinha consolidado sua carreira
despontando na televisão durante a década de 1990 fazendo novelas, onde fez uns
papeis bons e outros medíocres. O que gerou uma certa subestimação da crítica a
respeito do seu potencial de atuação.
Com
o brilhante desempenho nesse papel, Rodrigo Santoro a concentrar mais sua
carreira no cinema.
Onde
aqui ele contracena com duas feras como Othon Bastos e Cassia Kiss que
representam os seus país no filme, também participam do filme Caco Ciocler na
pele do Interno Rogério sujeito totalmente afetado pelo tratamento desumano,
Luís Miranda como o Enfermeiro Marcelo que apesar do jeito gentil e amigável
que ele interage com o protagonista, isso não deixa de trazer um desconforto
com o fato da sua postura passiva e omissa com o tratamento desumano que se dão
ao protagonista. Também mencionar a participação do saudoso Altair Lima(1936-2002)
na pele do Doutor Cintra Araújo, o diretor do manicômio, um sujeito que se
mostra ser bem apessoado, no entanto, ele é muito omisso com as práticas de
violência dentro da instituição, tem
uma cena dele experimentando dentro de sua clínica o pozinho branca de
medicamento e ao se direcionar para uma
janela para observar a movimentação do pátio da clínica, a câmera faz uma
brilhante edição tresloucada
representando o seu olhar distorcido ao
som de uma canção delirante de Arnaldo
Antunes intitulada de Carnaval que assina trilha junto com André Abujamra e
Pena Schmidt.
E
por fim, mencionar a participação de Jairo Mattos como o Enfermeiro Ivan, que
trabalha em outra clinica onde Neto é mandado, um sujeito bem truculento que
apresenta um violência brutal e desumana.
Um
filme difícil de digerir, mas mesmo assim muito relevante.
CARAMURU-A
INVENÇÃO DO BRASIL(2001)
Inicialmente
produzido como uma minissérie que a Globo exibiu em Abril de 2000 para celebrar
os 500 anos do descobrimento do Brasil. Caramuru-A Invenção do Brasil
traz uma interessante abordagem de forma humorística e com toques escapistas sobre como ocorreu a chegada dos navegadores
portugueses em território brasileiro.
Centrado
na chegada do navegador português Diogo Álvares
Correia(Selton Mello) em território e vive um triangulo amoroso entre duas
irmãs indígenas Paraguaçu(Camila Pitanga) e Moema(Débora Secco). Que é chamado pela
tribo local de Caramuru.
Com
direção de Guel Arraes que assina o roteiro junto de Jorge Furtado, o filme
figura na minha lista do essenciais da fase do Cinema da Retomada, justamente
pelo fato de sua estética apresentar de uma forma cômica a origem da nossa
identidade como nação.
Com
um elenco primoroso que conta com Selton Mello, Camila Pitanga, Déborah Secco,
Débora Bloch, Luís Melo e o saudoso Pedro Paulo Rangel(1948-2022).
CIDADE DE DEUS(2002)
Encerrando
a lista com chave de ouro menciono aqui Cidade de Deus como o filme
essencial para se conhecer sobre esse ciclo do Cinema da Retomada.
Nesse
filme dirigido por Fernando Meirelles, com roteiro de Bráulio Mantovani adaptado
de um romance homônimo de Paulo Lins.
O
enredo mostra uma abordagem escancarada sobre o problema social do narcotráfico
nas comunidades carentes do Brasil, aqui no caso focalizado na Cidade de Deus, como o sugere o
título.
O
enredo é estruturado em apresentar duas diferentes linhas temporais sobre a
Cidade de Deus narrado pela ótica do Buscapé(Alexandre Rodrigues) entre as
décadas de 1960 e 1970.
Na
introdução somos apresentados a ele na linha de frente em cima do muro no
conflito decisivo entre a quadrilha de
Zé Pequeno(Leandro Firmino da Hora) e a quadrilha do Cenoura(Matheus Nachtergaele),
os dois que vivem em pé de guerra pelo
espaço dos seus pontos de venda naquela
localização.
É
nesse mesmo local que num ótimo trabalho de edição que naquela mesma posição
que o Buscapé se encontra, a gente é transposto a ele na infância brincando de
jogar bola como goleiro, apresentando
como era a Cidade de Deus nos anos 1960 como uma rua sem urbanização com estrada de
barro, onde o tipo de moradia por lá carregava um aspecto rústico de parecer
uma zona rural dentro da capital, onde o povo até criava galinhas.
Parecendo
um cenário de faroeste, ainda mais que ali somos ao local lidando com o terror
do Trio Ternura, que agem como se fossem Robin Hood distribuindo o roubo para
as pessoas carentes do bairro. Um trio formado por Alicate( Jefchander
Suplino), Cabeleira(Jonathan Haagensen) e Marreco(Renato de Souza), sendo esse
o irmão mais velho de Buscapé.
Buscapé
também é contemporâneo de infância de uma perigosa dupla de garotos formada por
Bené(Michel Gomes moleque) e Dadinho(Douglas Silva moleque).
Bené
que era irmão caçula do Cabeleira, cresceria junto com Dadinho que passaria a
se chamar pela alcunha de Zé Pequeno.
Um
fato curioso é que o Bené crescido foi representado por Phelipe Haagensen que
é irmão de Jonathan Haagensen que fez o Cabeleira.
É
no reinado de Zé Pequeno na Cidade de Deus, na década de 1970 já mais crescido
e urbanizado e com as ruas asfaltadas
que nessa passagem somos apresentados ao nosso fio condutor o Buscapé crescido
fazendo bicos trabalhando como fotojornalista onde registra os acontecimentos e
vai transitando com diferentes núcleos do filme, onde interações com o grupo de jovens da
classe média carioca que ele costuma se reunir na praia para experimentar uma
boa maconha e dentre esses está uma jovem chamada Angélica(Alice Braga)
com quem ele não tira o olho e sonha em
perder a virgindade.
Do
mesmo modo que vai interagindo com Zé Pequeno, Cenoura e outros moradores até
chegar ao momento derradeiro da obra que mostra ele no fogo cruzado entre as
facções de Zé Pequeno e Cenoura até terminar com a morte de ambos.
A sua
montagem contou com o envolvimento de
Daniel Rezende, que anos depois faria carreira no oficio de diretor
titular ao dirigir: Bingo-O Rei das Manhãs(Brasil, 2017), Turma da
Mônica-Laços(Brasil, 2019), Turma da Mônica-Lições(Brasil, 2021) e
mais recentemente com O Filho de Mil Homens(Brasil,2025).
Ele foi o último dessa fase do Cinema da
Retomada que representou o Brasil no Oscar. Era para ter disputado o Oscar em
2003, segundo pelo que o critico de cinema Waldemar Dalenogare Neto divulgou em
uma pesquisa feita em Abril de 2019: “Cidade
de Deus foi esnobado no Oscar 2003 após alguns dos membros utilizarem
uma brecha no regulamento para dar nota baixa ao filme. Um número minoritário
de membros da comissão de filme estrangeiro se retirou da sessão interna da
academia onde estava sendo exibido o filme, antes do final, e imediatamente a
nota da produção caiu de 10 para 6. Na época, isso era permitido pelo
regulamento interno, e foi a primeira vez aconteceu o esvaziamento de uma
sessão. Um dos pontos apontados na pesquisa, é o perfil da época dos membros
que faziam parte da comissão, composto por homens de perfil conservador, e que
não gostava de cenas de sexo e violência nos filmes, a não ser que tenha uma
justificativa de acordo com o ponto de vista deles. Devido a reação negativa, a
Miramax desistiu de fazer campanha para o filme e adiou para o ano seguinte.
Quando Cidade de Deus recebeu quatro indicações no Oscar 2004,
a reação negativa voltou-se para o Oscar de melhor filme estrangeiro. Em 2005 a
academia encomendou um estudo para evitar tais injustiças, o que levou a
criação da short list (pré-lista), para diversificar a
seleção. Posteriormente, devido a uma nova polêmica no perfil do comitê nos
anos 2010, foram adicionados mais membros.”
Quando disputou Oscar de 2004, concorreu em quatro categorias nas quais perdeu: Melhor
Diretor para Fernando Meirelles que perdeu para o neozelandês Peter Jackson que
concorreu pelo filme O Senhor dos Anéis-O Retorno do Rei(2003), concorreu
para Melhor Roteiro Adaptado onde perdeu também para O Senhor dos Anéis-O
Retorno do Rei, disputou também em Melhor Fotografia onde perdeu para Mestres
dos Mares-O Lado Mais Distante do Mundo(2003) e concorreu para Melhor
Edição onde perdeu também para O Senhor dos Anéis-O Retorno do Rei.
Uma produção de qualidade incrível, cujo
roteiro estruturou bem uma figura de um herói que mata o vilão sem
necessariamente precisar disparar uma arma.
Como assim? Explico: A primeira impressão
que fica no filme quando vemos o Buscapé
como narrador, agindo como fio condutor com a narrativa em off, é que ele foi
moldado para ser o herói, principalmente quando na introdução somos
apresentados a ele no fogo cruzado entre as duas facções que disputam o poder
na Cidade de Deus.
Em alguns momentos mostra ele tentando
flertar para virar bandido ao se
apoderar de uma arma para promover um assalto numa situação bem fodida em que
se encontrava, nesse linha tênue entre o
explicar dando a entender que ele seria o responsável pela morte do Zé Pequeno,
o que poderia gerar uma nociva representação romantizada do crime.
Porém, não é isso que acontece, já que
Buscapé acaba desistindo de querer promover o assalto, porque ele se mostra
bonzinho demais para isso. Ainda assim, ele é moldado como herói, já que ele
ajudou a derrotar o reinado de Zé Pequeno por meio das lentes de sua câmera fotográfica que ele tirava e eram publicadas num jornal
onde ele fazia a distribuição e atuava como um freelancer. Esse era portanto
sua verdadeiro arma para combater os traficantes.
O Zé Pequeno acabou sendo morto foi
pelos garotos que ele ameaçava matar se não trabalhassem para ele.
Pode-se dizer que a maneira como o
Buscapé foi moldado dentro da narrativa foi para ele representar a ótica da camada dos
populares da Cidade de Deus, simbolizando os cidadãos honestos, onde ele como
fio condutor transita entre as diferentes camadas de moradores da comunidade. E é uma testemunha ocular em explicar as diferentes camadas da mesma Cidade de Deus como era na sua
infância para a Cidade de Deus que ele cresceu oprimida pelas facções do
narcotráfico.
O livro foi inspirado num romance de
Paulo Lins, que de fato se inspirou na história onde boa parte dos criminosos
representados no filme realmente existiram como: Zé Pequeno que foi a alcunha
de José Eduardo Barreto da Conceição(1957-1985), Mané Galinha que foi o alcunha
de Manoel Machado Rocha(1952-1979), Bené é outro que também, o Trio Ternura e o
Cenoura.
Sendo que muita coisa retratada no filme foi
muito ficcionalizada usando de uns
toques de licenças poéticas para tornar a obra mais palatável.
Boa parte do elenco que compõe esse
filme são de atores até então desconhecidos do grande público, boa parte vinda
das comunidades o que dá uma verossimilhança que com o sucesso do filme foram
despontando em produções tanto no cinema quanto na televisão.
Dentre esses há de mencionar Alexandre
Rodrigues na pele do Buscapé, o personagem central na história. Ele consegue
sustentar bem as pontas narrando em
primeiro pessoa mostrando as duas facetas da Cidade de Deus de forma não-linear, começando pelo final
mostrando ele na linha de frente do confronto entre as facções de Zé Pequeno e
do Cenoura. E vai construindo de nos guiar pela Cidade de Deus em duas linhas
temporais diferentes de como foi mudando estruturalmente, mas lidando com o
mesmo problema de caos urbano.
É curioso ver a maneira como ele foi desenhado com um perfil
heroico de conseguir derrotar o Zé
Pequeno sem necessariamente se utilizar de uma pistola para mata-lo, o que
poderia extrapolar a linha tênue entre o
explicar para o justificar, mas apenas
se utilizando de uma câmera fotográfica que por meio das suas lentes que ele
registrava se tornava a testemunhava ocular dos acontecimentos na Cidade de
Deus, pela sua ótica de morador comum da comunidade, pessoa honesta que
simbolizava a camada dos populares que viviam a opressão das facções, ainda
mais pela maneira como ele transitava pela diferentes camadas de moradores da
Cidade de Deus e fora dela.
Também contou entre os novos talentos
revelados no filme com: Thiago Martins
ainda menino com 13 anos, representando Lampião, que se junta ao bando de Zé
Pequeno, Roberta Rodrigues como Berenice, a esposa do Cabeleira, Alice Braga em
começo de carreira, no filme a sobrinha da atriz Sonia Braga representa a
Angélica, uma jovem de classe média que desperta o interesse amoroso de
Buscapé, mas acaba se envolvendo amorosamente e perigosamente pelo bandidão
Bené.
O cantor Seu Jorge fazendo um brilhante
desempenho como Mané Galinha, um sujeito que inconformado com o fato de ver Zé
Pequeno estuprar sua mulher passa a organizar uma gang para acabar com ele.
O filme também revelou o talento de
Douglas Silva, na ocasião um menino de 13 anos que representou bem o vilão
Dadinho criança já mostrando o seu nível de crueldade e que ao crescer passando
a se chamar de Zé Pequeno bem
representado por Leandro Firmino da Hora, na primeira cena onde ele aparece
numa boca e o povo o chama por Dadinho ele solta seu memorável e icônico
bordão: “Dadinho é o caralho, meu nome é Zé Pequeno, Porra”.
Já mostrando o seu perfil de
empoderamento, sua autoridade e nível de crueldade de sociopatia.
Outro jovem talento revelado no
filme é Daniel Zettel, que no filme representa Tiago um jovem de classe média
do grupo de Angélica que é usuário de drogas e vira um membro da facção de Zé
Pequeno, após o filme ele despontou em muitos trabalhos na televisão e
cinema ao longo dos anos 2000.
Assim como destacar a participação
fera de Matheus Nachtergaele, na ocasião
já um ator consagrado no cinema e televisão que faz um brilhante desempenho na
pele do Cenoura. Era famoso pelo João Grilo no filme O Auto da Compadecida(Brasil,2000).
Um sujeito que também demonstra carregar
um nível de tamanha crueldade quanto o Zé Pequeno.
Outras feras presentes no filme são: Charles Paraventi, um americano naturalizado
brasileiro que já era uma figura ilustre em estrelar comerciais para televisão
que no filme representa o Tio Sam, um fornecedor de armamentos ilegais por meio
da policia corrupta que distribui para Zé Pequeno e é a policia corrupta que
lhe tira a vida.
E por fim mencionar a participação de
Graziela Moretto que representa no filme a jornalista Marina Cintra, que é
responsável por contratar Buscapé para trabalhar no Jornal do Brasil.
É ela quem o acolhe em seu apartamento se compadecendo do
seu drama de viver num lugar que é cheio de tiroteio. É com ela que ao experimentar
relaxar tragando uma verdinha que Buscapé apesar de não ser mostrado, mas ficou subentendido que ele teve
a sua primeira transa. Coisa que não ocorreu com a Angélica como ele tanto
desejava.
Ou seja, ele perdeu a virgindade com a
jornalista Marina Cintra.
Até hoje o legado desse filme foi tão
importante, cuja estética inspirou o
surgimento da onda das favelas movies que inspirou artistas internacionais e
recentemente a HBO Max produziu cuja história dá continuidade aos eventos
apresentados nesse filme.
Justamente por isso é o que torna
essencial de se conhecer dessa fase do Cinema da Retomada e apreciar o nível da
qualidade estética de cada um.
P.S. No Oscar de 2004, O Senhor dos
Anéis-O Retorno do Rei, o capitulo final da trilogia dirigida por Peter
Jackson que começou com A Sociedade do Anel(2001) e As Duas Torres(2002)
inspirado na trilogia de fantasia de J.R.R.Tolkien(1892-1973) marcava por entra
na história da edição por ter sido o terceiro a levar as 11 Estatuetas, um
recorde que até apenas o épico histórico monumental Ben-Hur(1959)
conquistou no Oscar de 1960 e o épico de catástrofe náutica Titanic(1997)
conquistou no Oscar de 1998.









