segunda-feira, 8 de junho de 2026

FILME DE CHAPLIN NA ABERTURA DE UMA TELENOVELA BRASILEIRA

 

Há 35 anos, no dia 20 de Maio de 1991, estreava na Globo a novela O Dono do Mundo(Brasil, 1991-1992).




Essa novela das oito escrita por Gilberto Braga(1945-2021) e com direção de Dennis Carvalho(1947-2026), enfrentou um baita problema para conquistar o público.












 Essa novela compunha a sua trilogia de corrupção que deu início com Vale Tudo(1988-1989) e que foi concluída com Pátria Minha (1994-1995). Uma trama pesada que estreou no mesmo dia que o SBT lançou a trama mexicana de Carrossel (Carrussel, México, 1989-1990).

Se tem uma coisa de interessante a se comentar sobre essa novela está na sua curiosa abertura que usava um famoso trecho de uma obra de Charles Chaplin(1889-1977).

Essa obra em questão trata-se de O Grande Ditador(The Great Dictator, EUA, 1940).

Superficialmente a gente tende a achar que esse é só mais um título da extensa filmografia do genial Chaplin, a ponto de não achar nada de diferencial.

Mas, ai é que está, essa obra marca o ponto de partida na carreira de Chaplin por marcar pela primeira vez  ele aparecer sem representar o seu famoso tipo O Vagabundo, que é a  tradução fiel de como no original ele é chamado de The Tramp visto que não tem nome, que dependendo da localidade há quem se referia a ele como Carlitos aqui no Brasil e no continente europeu de Charlot, um tipo maltrapilho com bengala e chapéu de coco  que simbolizava o retrato da figura do típico mendigo da realidade americana, simbolizando a representação da classe branca inferior chamada de White Trash*, que numa tradução seria de Lixo Branco.

A razão para isso é muito simples, Chaplin vendo a tendência inovadora que a indústria de Hollywood estava adotando com a inovação do cinema falado após o lançamento do filme O Cantor de Jazz(The Jazz Singer, EUA, 1927), e como o cinema mudo estava sendo visto como  ultrapassado.

Ele era contra a ideia do Vagabundo estrelar um filme falado, porque ele via que sua essência estava mais carregada para o humor físico silencioso, mimico, pantomímico, pastelão com toques teatrais e circenses. 

Se fizesse ele falar, faria o personagem perder o sentido, então ele que começou a representar o seu famoso personagem no curta-metragem Corrida de Automóveis para Meninos(Kid Auto Races at Venices, EUA, 1914) para os Estúdios Keystone, que contou com a direção e roteiro de Henry Lehman(1886-1946) e teve a produção assinada por Mack Sennet(1880-1960) que foi o responsável por lançar sua carreira no cinema, resolveu aposentá-lo no filme Tempos Modernos(Modern Times, EUA, 1936).

O filme que veio em seguida a Tempos Modernos foi O Grande Ditador, obra que marcou de mostrar além dele não apresentar mais como O Vagabundo, mas marcou também o ponto de partida dele estrelando um filme falado e que trouxe uma ousada abordagem de satirizar o modelo das ditaduras nazifascistas na Itália e na Alemanha naquele momento em que a Segunda Guerra Mundial entrava no seu segundo ano de conflito.

Através do humor, nós vemos, no que parece racional, o irracional. No que parece importante, o que não é. O humor eleva nosso senso de sobrevivência e nossa sanidade. Por conta do humor, somos menos afetados pelas vicissitudes da vida. Ele ativa nosso senso de proporção e nos revela que num exagero de seriedade se esconde o absurdo”.

(Chaplin).

Nessa produção onde Chaplin assumiu diversas funções: Foi diretor, roteirista, produtor e narrador, ele também protagoniza nesse filme dois papeis de homens muito fisicamente semelhantes, mas que não eram irmãos gêmeos, eram apenas sósias, com personalidades bem distintas uma da outra.

Um é o Adenoid Hynkel, o Ditador da fictícia Tomânia, uma alusão a Alemanha nazista governada por Adolf Hitler(1889-1945), o famoso e mitificado Fürher pelos alemães, palavra que na língua germânica significa líder, condutor.

Já o outro é um Babeiro Judeu, que começa a história lutando na Primeira Guerra Mundial como “um cadete do exército da nação fictícia da Tomânia e tenta salvar um soldado chamado Schultz (Reginald Gardiner). O personagem de Chaplin perde a memória assim que o avião dos dois colide com uma árvore.

Schultz escapa das ferragens, e Chaplin passa seus próximos vinte anos no hospital, enquanto muitas mudanças acontecem em Tomânia: Adenoide Hynkel(também interpretado por Chaplin), agora o grande ditador  da Tomânia, perseguia judeus com a ajuda dos ministros Garbitsch (Henry Daniell) e Herring (Billy Gilbert).

Curado, mas ainda com amnésia. Chaplin retorna à sua barbearia do gueto judeu, ainda sem saber da situação política da Tomânia. O barbeiro fica chocado quando tropas de choque quebram a janela de sua loja. Encontra, depois, um amor, Hannah, uma linda moradora do gueto.”

(Wikipédia).

Ao longo do filme, acompanhamos a jornada do Barbeiro Judeu, ao ser capturado pelos nazista, mas é impedido quando aparece seu velho companheiro Schultz, até o momento em que ocorre uma troca entre ele e Hynkel e ele assume o cargo de Hynkel numa estrutura que lembra o clássico literário de O Príncipe e o Mendigo do americano Mark Twain(1835-1910).

Hynkel tem como forte aliado, o líder da fictícia Bactéria, uma sátira a Itália Fascista, que é Benzino Napaloni(Jack Oak) em alusão a Benito Mussolini(1883-1945), referenciado pelos italianos como Duce, que significa líder.

Foi desse filme de comédia dramática sobre sátira política e social ao contexto histórico da Segunda Guerra Mundial que saiu um trecho que foi usado na abertura da novela O Dono do Mundo, o trecho especificamente tratava-se da cena mostrando Hynkel fazendo uma coreografia com a bola representando o globo terrestre com aquele desejo mirabolante de querer dominar o mundo. Algo que foi bem encaixado a proposto do título que remetia ao crápula do protagonista Felipe Barreto(Antônio  Fagundes), um rico e brilhante  médico  mau-caráter com seu perfil egocêntrico de se achar o dono do mundo.

Para a abertura da novela que contou com um dedo do designer Hans Donner, um germânico-austríaco naturalizado brasileiro que àquela altura já desenvolvia seus trabalhos artísticos para a emissora fazia vinte anos, ele junto com sua equipe criaram a sobreposição de imagens de mulheres sensuais sobre um globo na famosa sequência do filme O Grande Ditador, de Charles Chaplin, em que seu personagem emulava Hitler brincando com um globo.”

(TELEDRAMATURGIA)

 

“Ao som da canção 'Querida', de Tom Jobim(1927-1994), a abertura mostrava a cena do filme O Grande Ditador em que Charles Chaplin, no papel do personagem Hynkel, dança com um globo terrestre, numa sátira a Adolf Hitler. A cena foi modificada eletronicamente com a inserção de belas mulheres no globo.”   

(MEMÓRIA GLOBO)

Essas belas mulheres que apareciam no globo terrestre eram colorizadas, enquanto que o filme mesmo era mantido em preto e branco.

Uma tarefa complicada e complexa de ser executada, principalmente ao se tratar das demoradas negociações envolvendo os direitos autorais da obra e fora o trabalhão que foi inserir diferentes mulheres fazendo poses sensuais em diferentes quadros dentro do globo, mesmo contando com os recursos tecnológicos mais avançados para a época que se tinham para isso ser realizado.

“Os direitos sobre o filme demoraram para sair. Hans Donner chegou inclusive a gravar uma abertura alternativa em que o modelo Beto Simas fazia as mesmas ações de Chaplin no filme. Porém, ao final, a versão original foi liberada com os direitos sobre as imagens cedidos diretamente a Hans Donner.
“Para usar o filme, descobri quem era o chefão da distribuidora. Por sorte, ele viu uma exposição minha em Londres e gostava do meu trabalho”, revelou Hans a Flávio Ricco e José Armando Vannucci para o livro “Biografia da Televisão Brasileira”.
Os direitos de reprodução do filme foram cedidos por sua detentora exclusiva na época, a distribuidora Filmverhuurkantoor “De Dam” B. V. (de acordo com os créditos do encerramento da novela).

Para a versão de exportação da novela, foi exibida uma terceira abertura, em que o globo, no qual apareciam as mulheres, passeava pela galáxia – sem a participação de Chaplin ou referência ao filme.”

(TELEDRAMATURGIA).

Pelo que Hans Donner comentou na matéria do jornal O Globo, escrita por Pedro Só em 22 de Maio de 1991 sobre as inserções das imagens no globo para a abertura da novela:

“Só podíamos inserir as imagens no espaço ocupado pela bola colocando-as nas 50 posições de sua trajetória em um segundo e meio. Mais do que isto seria um número muito alto de informações para a máquina. “

(Trecho extraído do blog TV Baú postado em Setembro de 2014).

Sobre essa produção, ela além de ser estrelada pelo próprio Chaplin, é também estrelada por Paulette Goddard(1910-1990), uma das atrizes com quem Chaplin foi casado representando a Hannah, o grande amor do Barbeiro Judeu, Jack Oakie(1903-1978) na pele do ditador Napaloni da Bactéria, cujo sobrenome traz uma referência histórica a Napoleão Bonaparte(1769-1821), o temido Imperador da França no século 19, Carter DeHaven(1886-1977) como o Embaixador da Bactéria, Henry Daniel(1894-1963) como Garbitsch e Billy Gilbert(1894-1971) como Herring,  que são os ministros de Hynkel que com certeza deve fazer uma sátira aos ministros nazistas de Hitler que foram os figurões do alto escalão do Governo Nazista na Alemanha que tiveram entre seus nomes: Joseph Goebbels, Hermman Göring, Heinrich Himmler, Wilhelm Frick, Albert Sper e Joseph Von Ribbentrop. 

Também mencionar a participação de Reginald Gardner(1903-1980) como o Schultz e de Maurice Moscovich(1871-1940), esse ator russo-americano, nascido em Odessa na Ucrânia quando a região pertencia ao Império Czarista da Rússia no berço de família judia asquenazes. Ele que já tinha residência fixa nos Estados Unidos desde 1897, foi em solo americano que ele construiu uma sólida carreira teatral estrelando para sua comunidade falando em iídiche, fez pouco cinema e essa produção onde ele representou o Senhor Jaeckel, um senhor judeu que era inquilino da barbearia marcou a última de sua carreira, ele faleceu aos 68 anos.

Um fato curioso, é que na obra é mencionado outro pais fictício que é Osterlich que faz referência a Áustria.

Na abertura do filme eles esclarecem com um texto que diz assim:

Qualquer semelhança entre Hynkel, o ditador, e o barbeiro judeu é mera coincidência.

Esta é a história de um período entre duas Guerras Mundiais – um interlúdio em que a insanidade se alastrou. A liberdade entrou em colapso e a humanidade foi duramente atingida.”

Essa obra de mensagem crítica foi lançada antes dos Estados Unidos mandarem suas tropas para combaterem contra os nazistas na Europa, isso só aconteceu depois do ataque a Pearl Harbor em 7 de Dezembro de 1941.

Na época em que foi lançada chegou a receber acusações de apologia ao comunismo por sua mensagem crítica ao nazismo já que os Estados Unidos até então carregavam uma postura aliada de Hitler, chegou a receber 5 indicações no Oscar de 1941, mas não ganhou nenhuma.

É curioso imaginar que na obra, o Barbeiro Judeu mais parece agir muito como O Vagabundo, a ponto de muita gente equivocadamente pensar que essa obra foi a última com o personagem.

A cena final do Barbeiro Judeu agindo como Hynkel indo em direção ao púlpito para falar ao povo com seu discurso de mensagem pacifista é o que torna a obra indispensável e sempre atualizada, ainda mais pela forma como ele quebra a quarta parede ao se dirigir ao público que esteja assistindo:

Sinto muito, mas não pretendo ser imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar ninguém. Gostaria de ajudar judeus, gentios, negros, brancos. Todos nós desejamos ajudar-nos uns aos outros. Seres humanos são assim. Queremos viver para a felicidade do próximo e não para seu infortúnio. Não desejamos odiar ou desprezar. Neste mundo há espaço para todos. A Terra é rica e pode prover a necessidade de todos. O caminho da vida pode ser livre e lindíssimo, porém perdemos o rumo. A ganância envenenou nossas almas, levantou muralhas de ódio, fez-nos chegar a miséria e ao derramamento de sangue. Desenvolvemos velocidade, mas isolamos uns dos outros. A maquinaria que nos poderia dar abundância deixou-nos na penúria. Os nossos conhecimentos tornaram-nos cépticos e cruéis. Pensamos demais e sentimos de menos. Mais do que máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que inteligência, precisamos de compaixão. Sem estas virtudes, a vida será violenta. A aviação e o rádio aproximaram-nos. A própria natureza dessas coisas apela a bondade, apela a fraternidade universal para sermos todos um. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhões em todo mundo, milhões de homens, mulheres e crianças desesperadas, vítimas de um sistema que põe homens a torturar e encarcera inocentes. Aos que me ouvem, eu digo: Não desespereis. A nossa desgraça é simplesmente o último suspiro da ganância. A amargura de homens que temem o progresso humano. O ódio dos homens desaparecerá, e os ditadores sucumbirão, e o poder que arrebentaram ao povo regressará ao povo. Enquanto morrem os homens, a liberdade nunca perecerá. Soldados! Não vos entregueis a esses desalmados. Homens que vós desprezam e escravizam, que controlam as vossas vidas! Que vos ditam o que fazer, pensar e sentir! Que vos condicionam, que vos tratam como gado e se servem de vós como carne para canhão! Não vos entregueis a esses desumanos, homens-máquinas com mentes de aço e corações de pedra! Não sois máquinas! Não sois gados! Homens é sois! E levam o amor a humanidade nas vossas almas!  Não odieis! Só odeiam os que nunca foram amados. Os mal-amados e os desumanos. Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade! São Lucas escreveu: “O Reino de Deus está dentro do homem. Não de um só homem, mas de todos os homens! Em vós! Vós, o povo, tendes o poder! De criar máquinas, de criar felicidade! Tendes o poder de tornar esta vida livre e bela, de fazer uma aventura maravilhosa! Então em nome da democracia, usemos esse poder! Unamo-nos! Lutemos por um mundo novo. Um mundo que assegure a todos a oportunidade de trabalho, que dê futuro a juventude e segurança a velhice. Com tais promessas, os desalmados subiram ao poder.  Mas eles mentem. Esses não cumprem as suas promessas! Os ditadores libertam-se mas escravizam o povo! Lutemos agora para cumprir essas promessas! Lutemos para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, pôr termo a ganância, ao ódio e a intolerância. Lutemos por um mundo de razão, um mundo no qual a ciência e o progresso conduzam a felicidade de todos nós. Soldados! Em nome da democracia, unamo-nos! 

A última frase é dele se dirigindo a Hanna:

“Hannah, está me ouvindo? Onde quer que esteja, olhe para cima! Olhe para cima, Hannah! As nuvens estão subindo, o Sol está abrindo caminho! Estamos fora das trevas, indo em direção à luz! Estamos indo para um novo mundo; um mundo mais feliz, onde os homens vencerão a ganância, o ódio e a brutalidade. Olhe, Hannah!”

A cena final é de Hanna olhando para cima com um sorriso no rosto.

Pode-se concluir diante disso tudo que essa obra ela é muito relevante para entender principalmente o mundo atual e seu medo do novo modelo de fascismo propagando com as novas tecnologias.

*Termo pejorativo de cunho socioeconômico usado nos Estados Unidos para definir pessoas brancas de baixa renda que vivem na pobreza. Que são vista pela abastada elite supremacista branca como gente inferior. Esse termo surgiu “na década de 1830 e era usado por aristocratas brancos e escravos negros para se referir aos trabalhadores brancos das plantações do Sul ou aos pequenos agricultores brancos.”(Wikipédia). São frequentemente representados de forma estereotipada beirando ao caricato como gente rude, grosseira, rústica, sem modos vivendo em moradias precárias como trailers, por exemplo. Alguns exemplos de personagens que simbolizam o tropo narrativo do lixo branco no cinema hollywoodiano são: Rocky Balboa da franquia Rocky(1976-2006), já que no primeiro filme mostra a vida pobre dele num xexelento apartamento periférico e devendo aluguel, Travis do filme Táxi Driver(1976) mostra também simbolizar esse exemplo de lixo branco já que ele  é um taxista e é o fio condutor da narrativa em ser nosso guia em  mostrar por meio de sua corrida diária de táxi uma Nova York consumida pelo caos urbano e mora num muquifo, Tony Montana do filme Scarface(1983) também simboliza essa representação ainda mais ele sendo um imigrante cubano que se enriquece com o tráfico de drogas e mesmo ostentando luxo, ainda assim carrega um mal gosto, sendo visto como brega. Principalmente pela ótica da Elvira, sua classuda amada que mostra carregar bem uma herança aristocrática.   Outros exemplos são:  Vivian Ward protagonista do filme Uma Linda Mulher(1990) também simboliza esse tropo narrativo do white trash simbolizando aqui essa figura feminina de beleza atraente de cunho sexual, ainda mais sendo ela uma prostituta. Em contraponto, outro exemplo feminino de representação do tropo narrativo do White Trash é Andrea Zuckerman uma das protagonistas da clássica série dramática juvenil dos anos 1990 Barrados no Baile (Bervely Hills, 902010, EUA, 1990-2000) onde ela com seus óculos de intelectual estudando num colégio de elite onde comandava um jornalzinho que contava com Brandon como seu colaborador, escondia que morava num bairro pobre suburbano. Por fim, outro exemplo desse tropo narrativo do White trash explorado tanto no cinema quanto na televisão é o personagem do Mark Shultz, protagonista do filme Foxcatcher(2014) ainda mais sendo inspirado na história real do lutador de luta livre, medalhista olímpico que no primeiro momento do filme mostra ele vivendo num muquifo até receber um telefonema do dono da equipe Foxcatcher, o excêntrico milionário John Du Pont(1938-2010) para treinar e morar numa das hospedagens de sua fazenda onde ele leva consigo seu irmão Dave Shultz(1959-1996). Mark sentindo a estranheza e as esquisitices de DuPont resolve deixar a equipe e seu irmão Dave permanece até o momento de sua trágica morte precoce aos 36 anos, onde foi covardemente assassinado a tiros por DuPont na gélida manhã invernal de 26 de Janeiro de 1996. DuPont foi preso logo em seguida e foi sentenciado a prisão perpetua a qual cumpriu até o seu falecimento em 2010.


segunda-feira, 25 de maio de 2026

O PRIMEIRO METAL HERO: POLICIAL DO ESPAÇO GAVAN(1982-1983)

 

Outro dia   eu conclui de assistir a série do Policial do Espaço Gavan( Uchuu Keiji Gaban, 1982-1983) no YouTube no canal Tokusato da Sato Company com os 44 episódios completos.




Em memória ao ator Kenji Ohba(1955-2026) que faleceu no último dia 6 de Maio. Eu tenho uma vaga lembrança de quando eu assisti Gavan a primeira vez passando na Globo em 1991, na época eu era moleque, devia ter uns seis anos.




Cheguei a assistir uns poucos episódios, portanto, eu não tenho essa memória afetiva tão próxima como o que eu tenho com relação a Jaspion.




Que não por acaso faz parte da mesma franquia metal hero que começou com Gavan e agora que estão produzindo uma nova série inspirada em Gavan, que é Gavan Infinity.




 Ao revisitar, pude entender bem o porquê do seu nível de importância dentro do universo do tokusatsu. E do quanto que até hoje ela é tão aclamada pelos japoneses.

Pelo que posso avaliar entre os pontos positivos e negativos sobre essa série é que assim: De positivo, a produção mostrou um ótimo trabalho na estrutura do roteiro ao modelar bem a jornada heroica do protagonista.



O seu roteiro contou com a assinatura de sete roteiristas, dentre estes sete estava Shozo Uehara(1937-2020) que foi o responsável por assinar o roteiro de Jaspion posteriormente, contou com a direção de cinco diretores, dentre esses diretores estava Yoshiaki Kobayashi que futuramente dirigiu Jaspion e outras séries do gênero tokusatsu que passaram aqui no Brasil como Kamen Rider Black.






Cuja estrutura narrativa é bem batida desse gênero, principalmente ao mostrar o herói após ser treinado pela polícia espacial vem a Terra para protege-la da ameaça da organização criminosa espacial Maku, contando com o auxílio da Mimi em um laboratório, em paralelo ele consegue um emprego no Haras da Família Fuji, e lida com a dinâmica de a cada episódio enfrentar as ameaças de Maku  enviando um monstro para dominar a humanidade e Gavan precisa impedir os destruindo com o golpe de sua espada laser, ou mesmo se o monstro fica gigante conta com o auxílio de seu mecha em forma de dragão Dolu.





Isso é algo que as produções das franquias de Kamen Rider e Super Sentai já costumavam explorar muito dessa dinâmica.

Portanto, apesar de não ser nada inovador para o gênero de série tokusatsu especificamente falando, pelo menos o roteiro conseguiu ser bem atrativo, muito disso graças ao bom desempenho de Kenji Ohba como protagonista, que é um ponto positivo importante, ainda mais que quando ele foi escalado para o papel, ele já não era tão novato no gênero apesar da pouca idade, estava só com 27 anos quando estrelou o papel principal. Ele já havia protagonizado duas séries super sentai que foram: Battle Fever J.(Japão, 1979-1980) onde fez o Battle Kenya  e Denshi Sentai Denziman(1980-1981) onde fez o Denzi Blue.






Isso fora suas participações não-creditadas por trás das fantasias de monstros como dublê.

Ele em cena conseguiu transmitir um bom carisma que esse personagem necessitava, principalmente em momentos mais descontraídos e também na habilidade coreográfica das cenas de luta.

Não só Ohba brilha em cena, como também brilham na série o saudoso Toshiaki Nishizawa(1936-2013) como o Comandante Kom com quem Gavan faz contatos por meio de um monitor para pedir um auxilio investigativo.



 Outros que brilham e que merecem menção são: Wakiko Kano que faz um brilhante desempenho como a Mimi, uma assistente de Gavan na Terra, o saudoso Jun Tatara(1917-2006) na pele do Gosuke Fuji, dono do haras onde o herói trabalha faz uma excelente representação divertida do papel com seu ar ranzinza, Masayuki Suzuki que faz um excelente desempenho como o alivio cômico do Kojiro, um abobalhado parceiro de Gavan que nutre uma obsessão por UFOs.




Assim como Michiru Iida que brilha na pele do Caçador Maligno, que é o subalterno do Don Hollar, o comandante da Maku, Ken Nishida na pele do Sandorba, o Príncipe de Maku, fora as participações de Hiroshi Miyauchi que fez o Alan nos episódios 30 e 31, que nós brasileiros o conhecemos pelo papel do Chefe Masaki em Winspector (1990) e Solbrain (1991) que passaram na extinta Rede Manchete na segunda metade dos anos 1990.




 O saudoso Sonny Chiba(1939-2021)* na pele do Voicer, o pai de Gavan, da Princesa Tenko, uma famosa ilusionista do Japão que apareceu no episódio 29 que posteriormente ganhou uma série animada produzida pela americana Saban que passou aqui no Brasil na Globo com o nome de Tenko e os Guardiões da Mágica ali por volta da segunda metade dos anos 1990.



 
A personagem desse desenho inspirado na mágica real 
fez uma participação no episódio de Gavan. 


Fora outras participações especiais que dão um bom fortalecimento como ponto positivo para Gavan, como a participação de Hiroshi Watari sendo introduzido nos últimos episódios como Den Igan que se torna o Sharivan, virando uma forma para atrair a série posterior Detetive Espacial Sharivan(Uchuu Keiji Sharivan, Japão, 1983-1984), série que passou aqui no Brasil na Bandeirantes em 1990.



  Assim como sua trilha sonora incidental que contou com a assinatura do saudoso Chumei Watanabe(1925-2022) que assinaria a trilha sonora de Jaspion e sua abertura e encerramento cantada por Akira Kushida é o que dá um charme a mais a série.

 


Já com relação aos pontos negativos sobre  a série, envolve o fato de que como ela  segue a formula típica das produções de tokusatsu dos seus episódios seguirem a dinâmica do herói encarar a nova ameaça de Maku com o monstro do dia, ele precisa eliminar essa ameaça com seus golpes de espada ou mesmo recorrendo ao seu mecha dragão Dolu. Esse segmento vai chegando uma hora que o negócio fica cansativo a ponto da série terminar por girar muito em círculos.

A coisa só vai  mudando um pouco de sair dessa estafa quando eles tiram de cena no episódio 30 o Caçador Maligno que Maku  o joga para o espaço após Don Holler descobrir sua tentativa de traição e entra em cena  Sandorba e sua mãe Bruxa Kiba onde com os seus poderes vão gerando um aumento maior no desafio para Gavan e o Caçador Maligno só retorna no episódio 42 já enfraquecido e morrendo dá a informação sobre o pai de Gavan.




Pior mesmo é quando ocorre a ausência da Mimi entre os episódios 30 a 42 que na história é explicado que ela precisou retornar ao Planeta Bird para cuidar de sua mãe doente, já quanto as razões reais que levaram a produção a tomar essa decisão são desconhecidas. A ausência da Mimi deixou um vácuo que acabou sendo preenchido quando foi colocada a Marin, vivida pela atriz Kyoko Nashiro, que era a assistente do Comandante Kom e passou a substituir a Mimi e a auxiliar Gavan aqui em sua base na Terra.




Uma decisão até certo ponto acertada, seguindo pela lógica da conveniência do roteiro ainda que gere uma estranheza, principalmente pelo fato de que como a Mimi tinha uma habilidade de se transformar num pássaro amarelo, onde ela as vezes mostrava aptidão em colaborar com Gavan nas suas missões em campo, coisa que com a Marin não dá para sentir o mesmo, ela se mostra um tanto jogada e até um tanto rasa no roteiro.

Agora o grande ponto negativo com relação a nós brasileiros está no fato de que sua dublagem feita no extinto estúdio carioca da VTI Rio** que passava na Rede Globo mostra-se de uma qualidade um tanto quanto questionável para se dizer o mínimo, principalmente quando há trechos que repentinamente aparece a voz original.




Ou mesmo quando não há sincronia da voz do locutor com a leitura do letreiro. Ou mesmo, eles terem mudado o nome do Caçador Maligno para Matador, o que ficou estranho, ou mesmo as confusões com as soletrações dos nomes ou mesmo eles demorarem a mencionar o Espaço Maku dentre outras falhas dessa dublagem.

Ainda que tenha contado com um ótimo elenco como Márcio Seixas que muita gente assimila a voz do Batman como narrador, o saudoso Orlando Prado(1928-1999) como a primeira voz do protagonista, que logo foi substituída pelo Marco Ribeiro, que captou bem melhor a essência do protagonista.

Fora Miriam Fisher dublando a Mimi, que conseguiu bem captar a sua essência dócil e mansa, assim como alguns falecidos como: Waldyr Santana(1936-2018) muito lembrado como a primeira voz do Homer Simpson dos Simpsons, dublando o Sandorba, Leonardo José(1943-2021) fez um desempenho incrível  dublando o Caçador Maligno, Sônia Ferreira(1941-2003) que dublou a Bruxa Kiba onde conseguiu captar  bem sua essência amedrontadora principalmente na maneira de falar caricatamente aguda em falsete  com uma risada sinistra   e não só essa como também dublava os disfarces femininos das assistentes dos monstros da Maku, Ionei Silva(1942-2013) que assumiu a segunda voz do Kojiro a partir do episódio 14, no lugar de Carlos Seidl, que dublou esse mesmo personagem entre os episódios 1 ao 13. Esse segundo conseguiu melhor captar a essência cômica paspalha e um tanto medíocre do Kojiro.

Assim como vale menção aos nomes também saudosos de Dário de Castro(1943-2021) na voz do Comandante Kom que conseguiu bem captar a essência empoderada que o personagem transmitia e de Cleonir dos Santos(1944-1998) que dublou o sobrinho excêntrico de Kojiro que apareceu unicamente num  episódio já na reta final.

Vale mencionar a participação de Oberdan Júnior que dublou o Den Igan/Sharivan nos episódios finais da série.

 Enfim, posso concluir que ao revisitar Gavan dá para entender o porquê de sua importância no meio do tokusatsu e do seu legado se estender até hoje passados mais de 40 anos, ainda mais quando a gente lembra que ele deu início a uma nova franquia para a Toei poder investir no ramo de brinquedos, principalmente quando analisamos que naquele contexto do começo da década de 1980 eles só tinham Super Sentai que já estava uma marca consolidada para vender brinquedos e Kamen Rider andava num hiato.

Ainda que entre nós brasileiros  ele não fez esse sucesso todo. Diversos fatores podem explicar o porquê de Gavan não figurar tanto na memória afetiva da maioria dos brasileiros: Primeiramente, quando a série chegou aqui no Brasil, já chegou tardiamente depois que Jaspion, que foi a quarta produção da franquia Metal Hero que sucedeu a Sharivan e Shaider  que compõe a trilogia dos Policiais do Espaço junto a Gavan,   havia chegado primeiro pelas mãos de Toshihiko Egashira, o dono da distribuidora Everest Video, que trouxe junto a seu pacote a série do Esquadrão Relâmpago Changeman(Degenki Sentai Changeman, Japão, 1985-1986) que exibiu na Manchete no Programa Clube da Criança em Fevereiro de 1988.

E quando Egashira trouxe as séries, começou também a trabalhar todo o esquema logístico para licenciar os produtos dos brinquedos.

Depois que Jaspion conquistou um boom comercial com a venda de brinquedos, foram vindo uma safra de outras produções em sequência, alguma dessas trazidas por concorrentes como Top Tape, Oro Filmes e a Sato Company.

A polêmica Oro Filmes foi uma distribuidora, com braços na Europa e no Brasil, que ficou famosa por trazer importantes séries e filmes de tokusatsu (produções japonesas com efeitos especiais) para a TV aberta brasileira no início dos anos 90.  Ela foi responsável por trazer três séries de tokusatsu que foram exibidas na Bandeirantes em 1990 que foram: Gigantes Guerreiros Google Five(Dai Sentai Google Five, 1982-1983), Detetive Espacial  Sharivan(1983-1984) e Machineman(1984-1985).

Dessas três, a série Google Five*** que compõe a franquia Super Sentai, foi lançada no Japão em 1982, mesma data que Gavan foi exibido originalmente.




Por ser uma produção que antecedeu a Jaspion, em comparação com as séries que a Manchete vinha exibindo depois do fenômeno de Jaspion, sua qualidade de produção era vista como inferior para nós brasileiros, parecendo um retrocesso.

 Fora que para piorar como a sua distribuição não veio diretamente do Japão, mas do material italiano trazido pela Oro Filmes, ainda mais pelo fato da distribuidora ser italiana. Por conta disso, “a dublagem brasileira foi feita por cima da dublagem italiana. Por isso, a dublagem teve problemas na sua sonorização pois as fitas utilizadas pela Itália não possuíam efeitos sonoros e músicas de fundo, já que esses haviam sido perdidos no transporte e manuseio.”(Fonte: Dublapédia)

Sharivan foi a sucessora de Gavan, mas estreou primeiro, onde veio no mesmo pacote da Oro Filmes que lançou na Bandeirantes, nessa série nós fomos apresentados ao Gavan primeiro como o comandante-mentor de Sharivan, e como sua dublagem foi feita no extinto estúdio paulista da Álamo, a mesma responsável por todas as produções de tokusatsu que passaram na Manchete e até mesmo Google Five, na dublagem paulista onde o herói dublado pelo saudoso Carlos Laranjeira(1956-1993) que mostrava ele ser referenciado como Gyaban, o que já gerou uma confusão para nós brasileiros.

Principalmente quando Gavan mesmo estreou na grade de programação da Globo a partir de Março de 1991, sendo exibido na Sessão Aventura, onde como o estúdio escolhido para dublar foi o já mencionado estúdio carioca da VTI, Rio. Por conta da falta da padronização das vozes nos acostumamos a ouvir Sharivan sendo dublado pelo Élcio Sodré, o mesmo que dublou o protagonista Issamu Minami em Kamen Rider Black e com a voz do Oberdan Júnior nessa participação sua em Gavan.

O mais doido é quando a Globo exibiu outra série tokusatsu que se conecta a Gavan, que é o Policial do Espaço Shaider(Uchuu Keiji Shaidá, Japão, 1984-1985), que é a última da trilogia dos Policiais do Espaço, onde sua dublagem ocorreu em outro estúdio de dublagem carioca, a Herbert Richers, onde tivemos outra troca de vozes de alguns personagens de Gavan que estão em Shaider. Quem dublou a voz do Comandante Kom em Shaider foi o saudoso Jomeri Pozzolli(1928-2014), o mesmo que em Gavan foi dublado por Dário de Castro e em Sharivan foi dublado por Luiz Antônio Lobue na dublagem da série produzida no estúdio paulista da Álamo e o Kojiro que em Gavan passou por duas vozes, em Sharivan foi dublado por Oswaldo Boaretto(1956-2006) e em Shaider foi dublado por Garcia Júnior.

Por conta da confusão que levou a soletração do seu nome, que não foi a primeira escolha até decidirem por Gavan, que foi inspirado no nome do ator francês Jean Gabin(1904-1976), onde por conta da complexidade que o idioma japonês tem em adequar uma palavra de origem  estrangeira a sonoridade escrita em takakaná que é o ideogramático nipônico, e como o idioma japonês não tem uma sonoridade da letra V e é confundido com a sonoridade da letra  B isso criou ainda mais  confusão, ainda mais que apesar de ser oficialmente grafado como Gavan eles pronunciam Gyaban, e para ficar ainda mais confuso esse nome também tem uma variação escrita com V Gavin. Resumindo por toda essa confusão de adaptação do nome fez com que Gavan não figurasse tanto na nossa memória, que só piora quando a gente lembra que o nome com que ele veio distribuído foi como Space Cop

Fosse porque não houve uma preocupação mercadologica, fosse porque quando a série chegou os tokusatsu já não tinham mais fôlego estavam saturados mercadologicamente falando.

Ainda assim, Gavan tem o seu nível de grande importância para a série do tokusatsu.

*Kenji Ohba e Sonny Chiba voltaram a contracenarem juntos na produção hollywoodiana Kill Bill Volume 1(2003) do cineasta Quentin Tarantino.

** A VTI Rio (Vídeo Interamericana) foi um lendário estúdio de dublagem brasileiro fundado por Victor Berbara(1928-2021). Fundada em 1960 como distribuidora de filmes, tornou-se estúdio de dublagem em 1968. Conhecida por usar um elenco mais restrito e focado em profissionais contratados, além de ter dublado grandes sucessos como Forrest Gump e Um Príncipe em Nova York. Fechou suas portas em 2008. Em 2025, o canal FREQ-Leone do Youtube sobre essa empresa de dublagem suas polêmicas relações trabalhistas com alguns dubladores no vídeo intitulado VTI Rio: um legado controverso na dublagem.

***Google Five contou em seu elenco com as participações de três atores que integraram o elenco de Jaspion, os três em questão são: Junich Haruta que co-protagonizou a série como o Kuroda/Google Black em Jaspion faria o MacGaren que não por acaso usava um uniforme preto, o falecido Noburu Nakaya (1929-2006) que em Google Five fez o mentor do grupo Professor Hongo e em Jaspion fez o mentor do herói, o Profeta Edin e Toshimichi Takaishi que em Google Five representou o Desguiler, o subalterno da Desdark que em Jaspion fez o Ikki. Outro ponto curioso que conecta Google Five a Jaspion é que sua trilha incidental conta com a assinatura de Chumei Watanabe(1925-2022), o mesmo que assinou a trilha de Gavan e Jaspion e que sua dublagem foi feita no extinto estúdio paulista da Álamo.