segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

30 ANOS DO CINEMA DA RETOMADA.

 

Em 2025, o cinema nacional celebra seus 30 anos que entrava em um movimento chamado de Cinema da Retomada.

Para entender o que significou esse movimento, vou explicar seus antecedentes.

O ponto de partida para compreender o que foi esse movimento da retomada e o que ele significou para o  cinema nacional, ocorreu quando em 1990, foi empossado Fernando Collor de Mello, o primeiro Presidente da República do Brasil eleito democraticamente em 1989, naquela fase de Redemocratização da política brasileira Pós-Ditadura Militar.

Ele obteve uma vitória acirrada num segundo turno contra o líder sindical, ex-torneiro mecânico  e fundador do Partido dos Trabalhadores(PT), Luiz Inácio Lula da Silva, que enfrentava pela primeira vez uma campanha para o cargo de Chefe de Estado da Nação*, e sendo nosso atual Presidente da República.

Com seu lindo rosto jovial, que atraiu o eleitorado feminino, medindo 1,85 cm de altura, dono de uma voz de barítono  que bem defini o perfil de sua oratória onde conseguiu persuadir com um eloquente discurso a  convencer de que era um sujeito progressista, um tipo até então  obscuro da política brasileira, cuja política já vinha do seu histórico familiar.

Nascido no berço  de dois  influentes clãs  oligárquicos da  política do Estado de Alagoas,  seu avô materno “Lindolfo Collor (1890-1942), era descendente dos primeiros colonos   chegados ao Brasil, em 1824. Foi eleito deputado federal pelo Rio Grande do Sul  nos anos de 1923 e 1927, tornando-se um dos líderes da  Revolução e sendo nomeado por Getúlio Vargas(1882-1954) o primeiro titular do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, do qual se afastou em 1932 ao romper com o presidente, tendo participado da  Revolução Constitucionalista daquele ano. Bisneto do jornalista Luís Bartolomeu de Souza e Silva(1862-1932),  criador da revista O Tico-Tico”. Além do fato dele ser filho de Arnon Afonso Farias de Melo(1911-1983), influente nome da política alagoana  que já foi “deputado federal em 1950 e governador de  Alagoas de 1951 a 1956. Após deixar o governo do estado, foi eleito  senador por três mandatos consecutivos (1962, 1970 e 1978). Em 1963, no prédio do Senado Federal, Arnon de Melo matou seu colega José Kairala(1924-1963)  quando tentava disparar à queima roupa em  Silvestre Péricles de Góis Monteiro(1896-1972), que supostamente também estava armado. Arnon de Melo não foi jamais formalmente acusado pelo homicídio.” (Fonte: Wikpedia).

Usando do slogan de Caçador de Marajás, querendo adotar uma política de privatização para dar fim a empresas estatais que eram vistas como grandes Elefantes Brancos.

O que atraiu a camada dos empresários, que passaram a serem grandes apoiadores de sua campanha, que depositavam nele uma esperança de  salvação para o setor econômico brasileiro que vivia aquela alta fase da inflação.

       Quando ele tomou posse, a primeira medida que tomou foi confiscar a poupança dos brasileiros, adotou uns planos econômicos que só aumentaram o problema da inflação e prejudicou  a produção do cinema nacional mandando fechar a Embrafilmes. E mandando retirar  os  incentivos fiscais pelo governo.  

 

Foi o começo de uma fase nebulosa do cinema nacional, que ocasionou na mudança de carreira do cineasta Arnaldo Jabor(1940-2022) para o jornalismo e foi   por essa época ainda foram lançados alguns filmes já produzidos e  estrelados por populares artistas da tv, que tinham forte apelo com a camada infato-juvenil, ainda conseguiam atrair uma boa bilheteria.

Dentre esses estava a   trupe dos Trapalhões formada por: Renato Aragão (Didi), Manfred Sant´Ana (Dedé), Antônio Carlos Bernardes Gomes vulgo Mussum(1941-1994) e Mauro Faccio Gonçalves vulgo Zacarias(1934-1990) que faziam sucesso na TV desde os anos 1970  e os apresentadores de programas de auditório infantil Xuxa Meneghel e Sérgio Mallandro.

Os Trapalhões lançaram três filmes no começo dos anos 1990, que foram:  Uma Escola Atrapalhada(Brasil, 1990), dirigido por Del Rangel(1955-2019) que marcou o último a contar com a participação de Zacarias que faleceu no dia 18 de Março de 1990, vítima de uma insuficiência respiratória aos 56 anos. Ele já estava enfrentando problemas de saúde quando sentindo-se “acima do peso e resolveu por conta própria iniciar um regime macrobiótico à base de frutas e saladas, com o auxílio de remédios. Ele acabou perdendo vinte quilos, porém como consequência, seu organismo enfraqueceu, chegando a atingir seus pulmões e lhe deixando com anemia. Sua magreza e palidez repentina chamaram a atenção dos fãs e da mídia, chegando a saírem matérias nos jornais declarando que o ator havia contraído o vírus da AIDS, doença em voga na época. Tais boatos teriam abalado o psicológico do trapalhão, que estava preocupado com a reação dos fãs, principalmente as crianças, em relação a tal mentira. Por conta disso, Mauro isolou-se em sua casa, passando a não atender ligações ou receber visitas.

Devido a sua fraqueza e estado de saúde delicado, Mauro foi impedido pelos médicos de retornar para as gravações do programa, iniciadas em janeiro de 1990. Ele precisou se afastar dos Trapalhões e não chegou a gravar cenas para o quadro Trapa Hotel, onde interpretaria um maítre. Teve forças para atuar em seu último filme, Uma Escola Atrapalhada, onde o quarteto fez somente uma participação e onde sua magreza já estava em evidência.” (Fonte:Wikipédia).

Depois disso, vieram os dois últimos filmes estrelados pelo grupo  agora apenas como trio formado por Didi, Dedé e Mussum que foram: O Mistério de Robin Hood(Brasil, 1990) e Os Trapalhões e a Árvore da Juventude(Brasil, 1991), ambos dirigidos por José Alvarenga Júnior e que depois disso, não foi mais produzido nenhum filme dos Trapalhões, já que o grupo chegaria ao fim após o falecimento de Mussum em 1994 vítima de uma insuficiência cardíaca aos 53 anos.

Com o fim da trupe, Renato Aragão só voltaria a produzir filmes já na fase do Cinema da Retomada com o filme O Noviço Rebelde(Brasil, 1997), dirigido por Tizuka Yamazaki que marcou o primeiro de uma série de filmes solos dele estrelando o seu famoso personagem, cujo nome completo é: Didi Mocó Sonrisal Colesterol Novalgino Muffumbo, muito pitoresco.

Foi também nesse período que foi lançado Lua de Cristal(Brasil, 1990) filme estrelado pela apresentadora infantil  Xuxa Meneghel** e com direção de Tizuka Yamazaki, que já era figura presente nos filmes dos Trapalhões, uma versão brasileira moderna de um clássico conto de fadas da Cinderela, que contou com Sérgio Mallandro como seu Principe Encantado.

O mesmo Sérgio Mallandro também estrelou duas produções lançadas nessa época que foram: Sonho de Verão  e Inspetor Faustão e o Mallandro.

Em Sonho de Verão(Brasil, 1990) obra que contou com a direção de Paulo Sérgio de Almeida(1945-2025) tinha uma história que girava em torno de Léo, vivido pelo Mallandro, um sujeito desengonçado e muito imperativo que passa a viver na mansão de uma rica família que foi viajar aos Estados Unidos, onde ele mente para a governanta Sófia(Fafy Siqueira) dizendo que era sobrinho dos proprietários, mas que na verdade não tinha parentesco algum, era um tremendo  pilantra, um picareta   e chama para convidar um grupo de jovens para fazer  zoeira na mansão.

Esse filme ficou um tanto obscuro na história do cinema brasileiro só sendo  redescoberto tempos depois, por conta do filme sul-coreano Parasita(Gisaechung, Coreia do Sul, 2019), obra de Bong Jong-Hoo, cujo mote do roteiro tem uma estrutura que lembra muito o que foi trabalhado em Sonho de Verão.

Essa obra que contou no seu elenco com as participações  das Paquitas e dos Paquitos, os famosos assistentes de palco dos programas de Xuxa Menghell, e da ex-paquita Andréa Veiga como a Jam, par romântico do Léo e com participação do popular apresentador Fausto Silva. Esse mesmo com quem Mallandro protagonizaria o filme vergonhoso da história do cinema brasileiro que foi lançado no ano seguinte.

Já em Inspetor Faustão e o Mallandro(Brasil, 1991) protagonizado por Fausto Silva, famoso apresentador que na época comandava o Domingão do Faustão(1989-2021) na Globo, numa produção que contou com muitos dedos da Globo, foi produzida pela Xuxa Produções produtora da Xuxa Meneghel, teve seu roteiro escrito por Nelson Nadotti com argumento de Fausto Silva e direção de Mário Márcio Bandarra(1955-2021) que naquele momento já era um renomado diretor em produções da Globo.

Só de saber  que foi Faustão o responsável pelo argumento do texto, você já pode esperar uma qualidade minimamente questionável desse tipo de história. Um dedo podre no meio.

E que de fato se mostrou, o filme apresenta uma história  muito sem lógica de tão cretina que se apresenta: a começar pelo fato  de apresentar Faustão fazendo ele mesmo, mostrando que não tem o menor talento para ator.

Fazendo um feirante que pela intervenção divina de Deus que foi representado por Paulo César Pereio(1940-2024) fazendo  apenas a locução, sendo que curiosamente o ator era ateu e já esteve envolvido na polemica de mandar destruir  a estátua do Cristo Redentor no Rio de Janeiro.

Faustão  é nomeado inspetor de polícia, para salvar os animais de contrabandistas comandados por Budum(Chiquinho Brandão) que tem como cliente um turista americano chamado Tom Crù(Claudio Mamberti).

Nessa sua jornada para caçar os contrabandista dos animais,  ele conhece o policial Mallandro, representado pelo próprio Sérgio Mallandro, filho do seu chefe superior Superintendente(Costinha), um sujeito de perfil bem desagradável, ainda mais por agir muito hiperativo.

Principalmente para lhe fazer companhia e a partir daí  tem se início sua jornada de confusões, que só aumentaram com a presença inconveniente  de seu sobrinho Faustinho(Caique Benigno).

A primeira vez que eu assisti a esse filme quando menino foi assistindo numa fita  VHS que meu pai havia locado e tenho que confessar que eu até achava engraçado, ainda que sem muito senso crítico, já que naturalmente criança não tem discernimento para isso.

Ao revisitar décadas depois sendo exibido no Youtube, pude perceber como a obra envelheceu mal justamente pelo roteiro se mostrar nonsense a nível pastelão, medíocre. Há momentos no texto  que mostram eles fazendo umas piadas de cunho erótico implícito que soa muito brega, ainda mais que eles queriam destinar ao público infanto-juvenil.

E como tudo foi feito as presas, você nota uma qualidade questionável da produção especialmente no som e na imagem.

Nas cenas que mostra Faustão em seu apartamento com seus dois cachorros com os nomes pitorescos de Inflação que é grande  e Salário Mínimo que é pequeno  onde você bem pode notar como a obra ficou datada já que ele estava cutucando o cenário econômico  do Brasil da Era Collor. 

Se Faustão como ator peca no filme, imagine Sergio Mallandro que o tempo todo  faz aquele maneirismo de humor físico característico nos programas infantis que apresentava com aquele jeito risível de vergonha alheia a nível infantilóide que além de  soar desagradável, fica irritante.

Fora que o elenco apesar de contar com participações de grandes estrelas globais como as atrizes: Luiza Tomé fazendo a namorada de Faustão, Claudia Alencar como a noiva de Mallandro, Paolla Bettega como uma comparsa do vilão Budum e Adriana Esteves numa participação especial.

Essas atrizes  talentosas e de belezas atraentes sofrem para representar o nível canastrão do texto desse filme.

Fora o desperdício que o filme faz do talento de feras  do calibre de Claudio Mamberti(1940-2001) que coitado sofre para fazer  uma representação  do  turista americano Tom Crú, cuja interpretação  beira ao caricato empostando a voz para fazer  o sotaque gringo que ele  tenta reproduzir. E a participação do  Costinha(1923-1995) então nem se fala,  é desperdiçado numa única cena em que faz o papel do pai do Mallandro.

Além disso, nem as participações de talentos da música brasileira  como: Sandra de Sá, Sidney Magal, Patrícia Marx, Silvinho Blau Blau   ou mesmo do saudoso Wando(1945-2012) fazendo suas performances cantando como se tivesse gravando para videoclipes conseguem segurar o interesse do público  pela obra.

Fora a participação do garoto Caique Benigno, fazendo o Faustinho, sobrinho do Faustão. Que se mostra um moleque serelepe  de um nível de chateação mais inconveniente que do Mallandro. Posteriormente esse menino se tornaria um dos protagonistas do programa infantil do SBT Disney Club(1997-2001) como o Macarrão/Macaco. Atualmente desenvolve o trabalho de DJ.

Vale também mencionar a participação de Chiquinho Brandão que representou na obra  o vilão Budum, um traficante de animais que passa o filme inteiro arrotando, chegando a nível patético.

Sobre esse ator um fato triste a comentar é que   na mesma data que a obra foi lançada Chiquinho Brandão  morreu num acidente automobilístico ocorrido na Lagoa Rodrigo de Freitas, quando estava retornando de mais um dia de gravação da minissérie da Rede Globo O Sorriso do Lagarto(Brasil, 1991), no dia 04 de Junho de 1991, o ator estava com 39 anos.

Esses são só alguns exemplos, porque também houve outras pouco conhecidas produções nacionais lançadas nessa época que não chegaram a serem lançadas comercialmente como: A Rota do Brilho(Brasil, 1990) do diretor Deni Cavalcanti, O Corpo de José Antônio Garcia(1955-2005), Perfume de Gardênia (Brasil, 1992) de Guilherme Almeida Prado, Alma Corsária (Brasil, 1993) de Carlos Reichembach(1945-2012), e Lamarca(Brasil, 1994) de Sérgio Rezende, inspirado na vida do guerrilheiro Carlos Lamarca(1937-1971).

Como se pode ver,  a situação em que a produção cinematográfica brasileira no começo dos anos 1990 foi das mais nebulosas, mas teve uma luz no fim do túnel que ocorreu quando o irmão do então presidente Collor, o empresário Pedro Collor(1952-1994) veio a público aparecendo na capa da revista semanal Veja, publicada em Maio de 1992, com a manchete Pedro Collor Conta Tudo para denunciar todos os esquemas corruptos onde ele estava envolvido, junto com seu tesoureiro Paulo César Farias(1945-1996).

Inicialmente ninguém acreditava de que aquilo fosse verdade, visto seu histórico com problemas de saúde mental, o chamaram de louco. Mas depois que se investigou e se descobriu que era tudo verdade, a mesma camada dos empresários que os apoiaram na Campanha de 1989, resolveram se articularem para lhe derrubar e moveram as camadas populares com os jovens cara-pintadas que resultou no seu processo de Impeachment.

Após Collor ser impedido de continuar seu mandato pela decisão dos parlamentares, e quem assumiu seu lugar foi o vice Itamar Franco(1930-2011). Dois anos após denunciar o irmão, Pedro Collor faleceria em dezembro de 1994  de câncer com melanoma maligno da pele com metástase no cérebro, o que agravou o problema delicado de sua saúde mental.

Pior mesmo foi o desfecho do ex-tesoureiro Paulo César Farias que  foi misteriosamente assassinado em 23 de Junho de 1996, acompanhado de sua então namorada Suzana Marcolino. Um crime que até hoje gera muita polêmica, e que nem mesmo os autores de romances policiais imaginariam que isso pudesse acontecer.

Foi no curto mandato de Itamar Franco que o Brasil começou a se reorganizar economicamente e a produção cultural de cinema se beneficiou bastante disso.

Isso porque após o Impeachment de Collor foram implementadas  medidas que promoveram a retomada do cinema no país. A criação de leis de incentivo, como a Lei Rouanet (1991) e a Lei do Audiovisual (1993), possibilitou a captação de recursos por meio de renúncia fiscal, estimulando o investimento privado em projetos culturais. Além disso, o Prêmio Resgate do Cinema Brasileiro, realizado entre 1993 e 1994, financiou a conclusão de diversas obras, dando início ao renascimento da produção cinematográfica”.

Algo que foi concretizado no primeiro mandato do  governo de outro Fernando, no caso, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, que surgiu na pasta de Ministro da Fazenda no Governo Itamar Franco, ajudou a implantar a moeda do Plano Real em Julho de 1994 que ajudou a estabilizar o cenário econômico do Brasil como mostrado no filme Real-O Plano Por Trás da História(Brasil, 2017) dirigido por Rodrigo Bittencourt. E aproveitando o momento onde a Seleção Brasileira de Futebol estava fazendo uma boa campanha pela conquista do Tetracampeonato na Copa do Mundo realizada nos Estados Unidos.

Isso se tornou um ponto  favorável para que no mesmo ano de 1994, ele  vencesse no primeiro turno a Campanha Presidencial, derrotando o líder sindical Lula que disputava pela segunda vez ficando em segundo lugar.

Foi portanto,  nesse contexto que a partir de 1995,o cinema nacional voltou com tudo e deu início a esse ciclo que justamente por isso,  esse período é rotulado de Cinema da Retomada.

 

 

 

FILMES DESSA FASE QUE RECOMENDO ASSISTIREM:

Selecionei algum dos filmes que são essenciais para se conhecer essa fase  da Retomada do Cinema Nacional. Essa lista não é rankeada, mostrando do melhor ao pior, não.  São apenas  recomendações que seguem a linha cronológica do período estabelecido que  foram lançados esses filmes brasileiros  entre 1995 a 2002. Que para quem ainda não teve a oportunidade de assistir, procurar assistir, conhecer e apreciar as estéticas de cada um.

 

CARLOTA JOAQUINA-A PRINCESA DO BRASIL(1995)



Começo mencionando com Carlota Joaquina-A Princesa do Brasil que é o ponto de partida essencial para se conhecer esse período do cinema da retomada. Contando com a direção da ex-atriz Carla Camuratti, que também assina o roteiro ao lado de Melanie Dimantas  e Angus Mitchell e também contou com o envolvimento do cineasta Breno Silveira(1964-2022) assinando como diretor de fotografia, o mesmo que dez anos depois foi responsável por dirigir 2 Filhos de Francisco(Brasil, 2005), a cinebiografia da popular dupla sertaneja Zezé Di Camargo & Luciano.

Ele é essencial pelo fato dele abordar uma interessante dramatização histórica sobre uma polêmica figura política  que já governou o Brasil, no caso a Rainha Carlota Joaquina(1775-1830).

Apesar da polêmica  ocasionada entre os historiadores por conta de sua representação cômica um tanto exagerada, beirando ao caricato não ser muito verosímil com os fatos, principalmente na maneira como Carlota Joaquina protagonizada por Marieta Severo  foi representada como uma lasciva que vivia traindo o marido e Dom João IV(1767-1826) protagonizado por Marco Nanini  um bobalhão frouxo e comilão, ainda assim a obra tem seu grau de importância.

Sua estética cômica apresenta muitos elementos satíricos  com toques teatrais, e até um tanto carnavalescos  se utilizando de referência a pornochanchada, que servia de uma certa forma  a trazer com toque de escapismo fabular,  uma crítica a aquele momento específico do cenário político e econômico do Brasil da segunda metade da década de 1990, se reorganizando economicamente após enfrentar a caótica situação que já vinha  acompanhando desde sua Redemocratização.

A produção mostrou um bom apuro técnico ao reconstituir toda a cenografia de época, os figurinos impecáveis e o elenco de primeira categoria que além de contar com os já mencionados Marieta Severo e Marco Nanini, também contou com Marcos Palmeiras representando o Imperador Dom Pedro I(1798-1834) com  seu jeito boêmio, Beth Goulart como a Princesa Maria Teresa de Bragança(1793-1874), Vera Holtz como a Rainha de Espanha Maria Luísa de Parma(1751-1819), mãe de Carlota Joaquina. Fora também as participações saudosas de Antônio Abujamra(1932-2015) na pele do Conde de  Mata-Porcos, um personagem ficcional que foi criado para simbolizar o descontentamento da camada da população “brasileira” com a Corte. Ney Latorraca(1944-2024) que representou bem no filme o pintor francês Jean-Baptiste Debret(1768-1848) que esteve de passagem no Brasil durante a Missão Artística Francesa. Outras participações saudosas a serem  mencionadas são de  Norton Nascimento(1962-2007) como o Fernando Leão que vem a ser amante de Carlota Joaquina aqui no Brasil, com quem chega a encenar uma picante cena sexy.  E de Thales Pan Chacon(1956-1997) na pele do médico da Corte.

Lembro da primeira vez que eu assisti a esse filme foi vendo numa VHS locada numa videolocadora quando eu era bem moleque e me divertir muito e revisitando na Netflix pude bem observar como o filme envelheceu bem.

 

 

 

O MENINO MALUQUINHO(1995)



Outro também ponto de partida essencial para se conhecer o movimento do Cinema da Retomada  é o filme O Menino Maluquinho, inspirado num famoso personagem cartunesco do Ziraldo(1932-2024). Um filme infanto-juvenil brasileiro que me lembro vagamente de ter ido assistir, eu estava com 10 anos acompanhado da minha família no antigo prédio da sala de cinema do Rio Verde aqui em Natal/RN, localizado em frente à Catedral Nova na Avenida Floriano Peixoto em Tirol, no centro da cidade, onde hoje é o prédio de uma Igreja Evangélica. O filme contou com a direção de Helvecio Ratton e produção de Tarcísio Vidigal com roteiro adaptado pelo próprio criador.

O filme apesar de apresentar entre suas falhas técnicas, uma qualidade meio sofrível da imagem com alguns chuviscos que criam uma sensação de ter envelhecido mal com o tempo, dando uma sensação de produção amadora por causa da retomada tímida e a captação do áudio também não estava lá essas coisas. Mas que de todo jeito ainda é uma produção que mesmo com recursos bem limitados e com um orçamento até modesto se formos comparar aos padrões hollywoodianos.

Apresenta um belo primor no roteiro  que foi bem fielmente adaptado como eu bem pude verificar algum tempo depois de ganhei uma edição em livro presenteado por meus pais que era uma maravilha todo ilustrado e com poucos textos. Mas mesmo assim muito empolgante, história incrível.

Cujo elenco contou com a participação saudosa de  Luís Carlos Arutin(1933-1996) que representou no filme o papel do Vovó Passarinho, papel esse que foi o último  de sua carreira***, já que ele tragicamente morreria pouco tempo depois,  vítima de um incêndio em seu apartamento no seu Rio de Janeiro na madrugada do dia 8 de Janeiro de 1996.

Que também conta com Patrícia Pillar e Roberto Bontempo nos papeis do pai do protagonista, muito bem defendido por Samuel Costa e com a ótima trilha musical assinada por Antônio Pinto, filho de Ziraldo com a canção-tema  de  Milton Nascimento e Rita Lee(1947-2023) cujo trecho é:

Vida de moleque é vida boa

Vida de menino é maluquinha

É bente altas, rouba bandeira

Tudo que é bom é brincadeira

É bente altas, rouba bandeira.

 

 

 

O QUATRILHO(1995)










Outro lançamento de 1995, O Quatrilho trata-se também  de um filme lançado nessa fase do Cinema da Retomada como essencial. Uma produção que contou com o envolvimento de uma importante família ligada a cinema, no caso dos Barretos.

 Com produção executiva do casal Lucy e Luiz Carlos Barreto, dirigido pelo filho do casal Fábio Barreto(1957-2019). Inspirado no romance de José Clemente Pozenato(1938-2024) cujo roteiro foi adaptado por  Leopoldo Serran(1942-2008) e por Antônio Calmon que na ocasião já era um renomado roteirista na tv escrevendo novelas na Rede Globo.  O filme traz uma abordagem a respeito da visão do sistema econômico agropastoril no sul do pais, mais precisamente na serra gaúcha no começo do século 20 representado na figura de dois casais de imigrantes italianos: De um lado temos Angelo(Alexandre Paternost)  e Teresa(Patrícia Pilar)  e do outro Massimo(Bruno Campos) e Pierina(Glória Pires), casal que vão fazer ao longo do enredo  uma troca de pares, com Teresa ficando com Mássimo e Pierina com Angelo como bem sugere o título que é um termo para um jogo de cartas que utiliza um baralho especial de 40 cartas, existe uma cena no filme no bar mostrando o pessoal jogando cartas que mencionam o nome Quatrilho.

Figura na minha lista como essencial pelo fato de ser o primeiro dessa leva de filmes que representou o Brasil na disputa do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro que agora é intitulado de Internacional em 1996, onde perdeu para a produção holandesa  A excêntrica família de Antônia(Antonia, Países Baixos, 1995) da diretora Marleen Gorris. A única vez até então  que um filme brasileiro disputou essa categoria no Oscar foi em 1963, com o filme O Pagador de Promessas(1962) dirigido por Anselmo Duarte(1920-2009) inspirado na peça teatral de Dias Gomes(1922-1999). Isso tirando o exemplo de  Orfeu Negro(Brasil, França, Itália, 1959) que quando ganhou nessa mesma categoria em 1960, não foi representando o Brasil apesar de se passar no Brasil e ser falado em português. Foi representando a França, ainda mais que seu diretor foi ninguém mais, ninguém menos do que o francês Marcel Camus(1912-1982).

No elenco de O Quatrilho conta com Patrícia Pilar, Glória Pires, Bruno Campos e Alexandre Pasternost como os quatro protagonistas, o saudoso Gianfrancesco Guarnieri(1934-2006) na pele do Padre Giotto, o também saudoso Cecil Thiré(1943-2020) como o Padre Gentille, José Lewgoy(1920-2003) como o Rocco, Claudio Mamberti como Batistton e Antônio Carlos Pires(1927-2005), pai da atriz Glória Pires como Aurelio.


O GUARANI(1996)

Apesar da má fama que ele carregou pelo prejuízo financeiro que sua realizadora teve de carregar O Guarani, ainda assim figura na minha lista como um filme essencial  para se conhecer dessa fase da Retomada do Cinema Nacional. Baseado no clássico romance indianista de José de Alencar(1829-1877), que já teve outras adaptações para cinema, sendo que o primeiro registro  é de 1912, ainda da fase do cinema mudo e em preto e branco, mas que figura como uma obra perdida. Em 1916, foi lançada outra adaptação dirigida pelo ítalo-brasileiro Vittorio Capellaro(1877-1943) que também figura como uma obra perdida. Em 1979, foi lançada  a primeira versão falada e em cores de O Guarani, que foi dirigido por Fauzi Mansur(1941-2019) com roteiro adaptado por Ody Fraga(1927-1987), que contou com o popular astro da pornochanchada David Cardoso como o protagonista Peri. Isso sem contar na minissérie produzida pela Rede Manchete em 1991, cujo roteiro foi adaptado por Walcyr Carrasco e dirigido por Marcos Schechtman que futuramente integrariam a equipe de roteiristas e diretores da Rede Globo. Onde o Peri foi protagonizado por Leonardo Brício e a sua amada Ceci foi representada por Angélica Ksyvickis,  a popular apresentadora infantil que comandava na Manchete o Clube da Criança.

Até chegar a essa versão especifica de 1996, que contou com a direção da Norma Bengell(1935-2013), uma atriz que já figurou uma grande musa do cinema brasileiro, cujo papel mais marcante foi fazendo a Leda em Os Cafajestes(Brasil, 1962) do diretor Ruy Guerra, onde protagonizou a  memorável primeira cena de nudez frontal da história do cinema brasileiro dela correndo na praia nos minutos finais do filme.

O Guarani não foi sua primeira experiência de diretora, antes ela já teve a experiência dirigindo Eternamente Pagú(Brasil, 1988), cinebiografia da escritora modernista Patrícia Galvão(1910-1962) dentre outros.

Nessa sua versão dirigindo O Guarani, cuja adaptação do roteiro foi assinado por José Joffily nos apresenta uma interessante história que expõe a visão crítica ao Brasil colonialista do século 16, simbolizada na figura da Ceci(Tatiana Issa) como uma jovem branca colonizadora vivendo sua paixão proibida pelo guerreiro indígena guarani Peri(Márcio Garcia) no momento onde estava ocorrendo uma guerra colonial.

Dentre as menções do elenco que contam com feras vão para os protagonistas Márcio Garcia e Tatiana Issa como Peri e Ceci que mostram um bom entrosamento em cena, ambos figuravam como os jovens talentos que estavam despontando  na televisão. Márcio Garcia como Peri se mostra excelente principalmente ao expor o porte físico atlético para representar sua essência guerreira, ele que   figurava como o jovem galã símbolo sexual da preferência do público feminino que na ocasião era bastante requisito nas novelas da Globo e Tatiana Issa na pele da Ceci, mostra um excelente desempenho ao imprimir um toque dócil, calmo e sereno a personagem.

Com seu lindo rosto angelical que a tornou uma símbolo sexual masculina chegando a posar nua para a capa da antiga Playboy em 1998, que também era bastante requisitada em novelas da Globo, mas que nos últimos anos deixou o oficio de atriz de lado e se dedicou a função de cineasta. Um dos interessantes trabalhos dirigidos pela atriz que tive o privilégio de conferir foi em Pacto Brutal-O Assassinato de Daniela Perez(Brasil, 2022), série documental em cinco episódios sobre o assassinato da atriz Daniela Perez pelo casal Guilherme de Pádua(1969-2022) e Paula Thomaz ocorrido em dezembro de 1992.

Apesar do filme ter gerado um prejuízo para a cineasta que lhe rendeu uma má fama a ponto de fazê-la devolver aos cofres públicos o investimento do que foi gasto. Ainda assim, a trama tem seu nível de importância para entender o que foi o cinema da retomada.

 

O QUE É ISSO, COMPANHEIRO(1997)

Com uma abordagem muito cara sobre como o Brasil lida com essa herança violenta  da Ditadura Militar, o filme O que é Isso, Companheiro trata-se de uma produção que também contou com o envolvimento da família Barreto na produção e foi dirigida por outro filho do casal que é o Bruno Barreto.

 Baseado no livro homônimo de Fernando Gabeira, que também assina o roteiro ao lado de Leopoldo Serran e que no filme é representado por Pedro Cardoso que foi um dos responsáveis pelo sequestro do embaixador americano  Charles Burke Elbrick(1908-1983) em 1969  junto aos guerrilheiros do MR-8, grupo armado que combatia a Ditadura Militar.

A obra  retrata bem como foi  sua participação no sequestro ao embaixador americano Elbrick(Alan Arkin), onde acompanhamos Fernando antes de participar do grupo armado participando  de uma manifestação ao lado de Artur(Eduardo Moscovis), um aspirante a ator e de Oswaldo(Selton Mello) que o acompanha na luta armada quando ele é apresentado por meio de Marcão(Luíz Fernando Guimarães) ao local secreto do bando que é comandado por Maria(Fernanda Torres) e recebem os codinomes para preservarem suas reais identidades, Fernando passa ser chamado de Paulo.No grupo onde ele ingressa, também integram: Renée(Claudia Abreu), Júlio(Caio Junqueira), Jonas(Matheus Nachtergaele) e Toledo(Nélson Dantas).

No decorrer da história, vamos acompanhando Fernando agora como Paulo sendo treinado para disparar armas  e eles arquitetando o sequestro ao embaixador e até chegar de fato a execução do sequestro que acompanhamos a rotina tensa deles até a sua libertação que ocorre  no dia 7 de Setembro de 1969, feriado do dia da Independência do Brasil, após quatro dias de sequestro.

O filme aborda bem  pela ótica de mostrar as consequências das violências brutais, principalmente pela ótica do guerrilheiro Fernando Gabeira que participou de assaltos e organizou o sequestro de um embaixador.

Ele foi outro lançado nessa fase do Cinema da Retomada  a representar o Brasil no Oscar em 1998, disputando na categoria de melhor filme estrangeiro, que agora é denominada de melhor filme internacional para o belga-holandês Karakter de Mark Van Diem.

P.S. A edição do Oscar de 1998 ficou marcada pela vitória de Titanic de James Cameron ganhando 11 Estatuetas das quais foi indicado. O único filme a conseguir esse foi Ben-Hur(1959) na edição do Oscar de 1960.

 

 

CENTRAL DO BRASIL(1998)

Outro filme importante lançado nessa fase do Cinema da Retomada que merece ser assistido. Essa obra contou com a direção do Walter Salles****, o diretor do premiado no Oscar 2025  Ainda Estou Aqui, nos traz uma excelente abordagem sobre a realidade do Brasil analfabeto, principalmente quando acompanhamos a jornada da protagonista Dora(Fernanda Montenegro), uma mulher que trabalha na Estação Central do Brasil, daí o título  se oferece a escrever as cartas de pobres  pessoas analfabetas para seus parentes distantes que residem em outras cidades.

Até ela se deparar com um garoto chamado Josué(Vinicius de Oliveira), com quem constrói uma amizade e resolve acompanha-lo em sua jornada para retornar a sua terra natal  numa estética road movie para ir ao interior do Nordeste indo em procura do seu pai.

Essa obra cujo roteiro foi escrito por Marcos Bernstein e João Emanuel Carneiro que fariam carreira na televisão escrevendo novelas para a Globo.

Ele também é outro essencial para se conhecer essa fase do Cinema da Retomada, principalmente por abordar a realidade brasileira com o analfabetismo.

Ele também foi outro dessa fase  a representar o Brasil no Oscar de 1999, onde competiu não só na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, mas também de Melhor Atriz para Fernanda Montenegro.  Na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, ele perdeu para o italiano A Vida é Bela(1997) dirigida por Roberto Benigni e para a categoria de atriz Fernanda Montenegro perdeu para a americana Gwyneth Paltrow que estrelou o filme anglo-americano Shakespeare Apaixonado(Shakespeare in Love, Reino Unido, EUA, 1998).

Justamente por esse motivo é que esse figura na minha lista como essencial.


 

MAUÁ-O IMPERADOR E O REI(1999)

A cinebiografia do empresário  Irineu Evangelista de Sousa(1813-1889), o Barão de Mauá. Que no século 19, foi um empresário que tentou  trazer a  indústria ferroviária para o Brasil, mesmo enfrentando a resistência do Imperador Dom Pedro II(1825-1891).

Dirigida por Sérgio Rezende, que também assina o roteiro junto com Paulo Halm e Joaquim Vaz de Carvalho, a obra explora ao longo de suas 2 horas e 15 minutos de duração toda a sua  trajetória mostrando de sua humilde infância no interior do Rio Grande do Sul quando se depara com o pai morto montado num cavalo, quando vai acompanhado de seu tio Rio de Janeiro, então capital do Império  e de como foi conseguindo mostrar aptidão para os negócios que o fez prosperar, mas enfrentando uma resistência dos conservadores do Império.

Essa obra foi premiada em dois festivais de cinema ocorridos no ano 2000, venceu na categoria melhor filme no Festival de Cinema Hispânico de Miami e nas categorias de melhor figurino e melhor direção de arte no Prêmio Guarani de Cinema Brasileiro.

Conta em seu elenco com feras como Paulo Betti como protagonista Mauá, Malu Mader representando o papel de Maria Joaquina de Sousa a quem Mauá a chama de May, sua sobrinha/esposa. O que pode parecer estranho essa relação incestuosa, mas temos que lembrar que no Brasil do século 19, esse tipo de costume era muito comum de casamentos arranjados entre parentes. Antônio Pitanga como Valentim, um escravo que ele conheceu quando criança foi trabalhar numa venda e o libertou antes da Lei Aurea. Rodrigo Penna na pele do Imperador Dom Pedro II(1825-1891). Mencionar as saudosas participações de Hugo Carvana(1937-2014) como Queiros e Claudio Correa e Castro(1928-2005) como o Visconde do Uruguai que o batiza em sua entrada na maçonaria.

Por esses fatores o tornam essencial de se conhecer sobre essa fase do Cinema da Retomada.



BICHO DE SETE CABEÇAS(2000)

Esse drama barra pesada abordando sobre a importância da saúde mental é outro que também figura na minha lista dos filmes brasileiros essenciais  dessa fase do Cinema da Retomada. Porque ele representa bem um reflexo da realidade nua e crua da podridão que existe nos locais que eram para serem de acolhimento, terminam sendo um pesadelo e da realidade destrutiva de quem é um usuário de drogas.

Nesse filme acompanhamos a jornada de Neto(Rodrigo Santoro), um jovem de classe média introvertido, que mora com seus país e não sabe o que quer da vida.

Se aventura com umas más companhias que o levam a experimentar aquele pó branco o tornando um usuário, e seus pais ao descobrirem o levam para dois manicômios onde lá ele vai enfrentar tratamentos de choques dos mais abusivos e desumanos.

Nessa obra dirigida por Laís Bodanzky, teve seu roteiro assinado por Luiz Bolognesi inspirado na história real de Austregésilo Carrano Bueno(1957-2008) que ele escreveu no seu livro O Canto dos Malditos, cujo nome foi alterado, assim como os personagens reais da clínica que ele frequentou quando era jovem e enfrentou problemas com drogas. Principalmente que pelo que pude  pesquisar sobre o livro, ele chegou a sofrer uma ameaça de censura da partes dos mencionados no livro que ameaçaram recolher a obra das prateleiras.

Ele virou um ativista do movimento anti-manicomunal e o  retrata sem maquiagem nenhuma como o nosso governo faz vista grossa para o problema.

Um dos principais destaques do filme vai para o desempenho de Rodrigo Santoro na pele do Neto, a entrega com que ele demonstra em cena é impressionante.

Pode-se dizer que com esse desafiador papel se mostrou um ponto de virada na sua carreira, digo isso porque até então ele tinha consolidado sua carreira despontando na televisão durante a década de 1990 fazendo novelas, onde fez uns papeis bons e outros medíocres. O que gerou uma certa subestimação da crítica a respeito do seu potencial de atuação.

Com o brilhante desempenho nesse papel, Rodrigo Santoro a concentrar mais sua carreira no cinema.

Onde aqui ele contracena com duas feras como Othon Bastos e Cassia Kiss que representam os seus país no filme, também participam do filme Caco Ciocler na pele do Interno Rogério sujeito totalmente afetado pelo tratamento desumano, Luís Miranda como o Enfermeiro Marcelo que apesar do jeito gentil e amigável que ele interage com o protagonista, isso não deixa de trazer um desconforto com o fato da sua postura passiva e omissa com o tratamento desumano que se dão ao protagonista. Também mencionar a participação do saudoso Altair Lima(1936-2002) na pele do Doutor Cintra Araújo, o diretor do manicômio, um sujeito que se mostra ser bem apessoado, no entanto, ele é muito omisso com as práticas de violência dentro da instituição,   tem uma cena dele experimentando dentro de sua clínica o pozinho branca de medicamento  e ao se direcionar para uma janela para observar a movimentação do pátio da clínica, a câmera faz uma brilhante  edição tresloucada representando o seu  olhar distorcido ao som de uma  canção delirante de Arnaldo Antunes intitulada de Carnaval  que assina trilha junto com André Abujamra e Pena Schmidt.

E por fim, mencionar a participação de Jairo Mattos como o Enfermeiro Ivan, que trabalha em outra clinica onde Neto é mandado, um sujeito bem truculento que apresenta um violência brutal e desumana.

Um filme difícil de digerir, mas mesmo assim muito relevante.

 

 

 

 

 

 

CARAMURU-A INVENÇÃO DO BRASIL(2001)

Inicialmente produzido como uma minissérie que a Globo exibiu em Abril de 2000 para celebrar os 500 anos do descobrimento do Brasil. Caramuru-A Invenção do Brasil traz uma interessante abordagem de forma humorística e com toques escapistas  sobre como ocorreu a chegada dos navegadores portugueses em território brasileiro.  

Centrado na chegada do navegador português  Diogo Álvares Correia(Selton Mello) em território e vive um triangulo amoroso entre duas irmãs indígenas Paraguaçu(Camila Pitanga)  e Moema(Débora Secco). Que é chamado pela tribo local de Caramuru.

Com direção de Guel Arraes que assina o roteiro junto de Jorge Furtado, o filme figura na minha lista do essenciais da fase do Cinema da Retomada, justamente pelo fato de sua estética apresentar de uma forma cômica a origem da nossa identidade como nação.

Com um elenco primoroso que conta com Selton Mello, Camila Pitanga, Déborah Secco, Débora Bloch, Luís Melo e o saudoso Pedro Paulo Rangel(1948-2022).

       CIDADE DE DEUS(2002)

Encerrando a lista com chave de ouro menciono aqui Cidade de Deus como o filme essencial para se conhecer sobre esse ciclo do Cinema da Retomada.

Nesse filme dirigido por Fernando Meirelles, com roteiro de Bráulio Mantovani adaptado de um romance homônimo de Paulo Lins.    

O enredo mostra uma abordagem escancarada sobre o problema social do narcotráfico nas comunidades carentes do Brasil, aqui no caso focalizado  na Cidade de Deus, como o sugere o título.

O enredo é estruturado em apresentar duas diferentes linhas temporais sobre a Cidade de Deus narrado pela ótica do Buscapé(Alexandre Rodrigues) entre as décadas de 1960 e 1970.

Na introdução somos apresentados a ele na linha de frente em cima do muro no conflito decisivo  entre a quadrilha de Zé Pequeno(Leandro Firmino da Hora) e a quadrilha do Cenoura(Matheus Nachtergaele), os dois que vivem em pé de guerra  pelo espaço dos seus  pontos de venda naquela localização.

É nesse mesmo local  que num ótimo  trabalho de edição que naquela mesma posição que o Buscapé se encontra, a gente é transposto a ele na infância brincando de jogar bola como goleiro,  apresentando como era a Cidade de Deus nos anos 1960  como uma rua sem urbanização com estrada de barro, onde o tipo de moradia por lá carregava um aspecto rústico de parecer uma zona rural dentro da capital, onde o povo até criava galinhas.

Parecendo um cenário de faroeste, ainda mais que ali somos ao local lidando com o terror do Trio Ternura, que agem como se fossem Robin Hood distribuindo o roubo para as pessoas carentes do bairro. Um trio formado por Alicate( Jefchander Suplino), Cabeleira(Jonathan Haagensen) e Marreco(Renato de Souza), sendo esse o irmão mais velho de Buscapé.

Buscapé também é contemporâneo de infância de uma perigosa dupla de garotos formada por Bené(Michel Gomes moleque) e Dadinho(Douglas Silva moleque).

Bené que era irmão caçula do Cabeleira, cresceria junto com Dadinho que passaria a se chamar pela  alcunha de  Zé Pequeno.

Um fato curioso é que o Bené crescido foi representado por Phelipe Haagensen que é irmão de Jonathan Haagensen que fez o Cabeleira.

É no reinado de Zé Pequeno na Cidade de Deus, na década de 1970 já mais crescido e urbanizado e  com as ruas asfaltadas que nessa passagem somos apresentados ao nosso fio condutor o Buscapé crescido fazendo bicos trabalhando como fotojornalista onde registra os acontecimentos e vai transitando com diferentes núcleos do filme,  onde interações com o grupo de jovens da classe média carioca que ele costuma se reunir na praia para experimentar uma boa maconha e dentre esses está uma jovem chamada Angélica(Alice Braga) com  quem ele não tira o olho e sonha em perder a virgindade.

Do mesmo modo que vai interagindo com Zé Pequeno, Cenoura e outros moradores até chegar ao momento derradeiro da obra que mostra ele no fogo cruzado entre as facções de Zé Pequeno e Cenoura até terminar com a morte de ambos.

       A sua  montagem contou com o envolvimento de  Daniel Rezende, que anos depois faria carreira no oficio de diretor titular ao dirigir: Bingo-O Rei das Manhãs(Brasil, 2017), Turma da Mônica-Laços(Brasil, 2019), Turma da Mônica-Lições(Brasil, 2021) e mais recentemente com O Filho de Mil Homens(Brasil,2025).

      Ele foi o último dessa fase do Cinema da Retomada que representou o Brasil no Oscar. Era para ter disputado o Oscar em 2003, segundo pelo que o critico de cinema Waldemar Dalenogare Neto divulgou em uma pesquisa feita  em Abril de 2019: “Cidade de Deus foi esnobado no Oscar 2003 após alguns dos membros utilizarem uma brecha no regulamento para dar nota baixa ao filme. Um número minoritário de membros da comissão de filme estrangeiro se retirou da sessão interna da academia onde estava sendo exibido o filme, antes do final, e imediatamente a nota da produção caiu de 10 para 6. Na época, isso era permitido pelo regulamento interno, e foi a primeira vez aconteceu o esvaziamento de uma sessão. Um dos pontos apontados na pesquisa, é o perfil da época dos membros que faziam parte da comissão, composto por homens de perfil conservador, e que não gostava de cenas de sexo e violência nos filmes, a não ser que tenha uma justificativa de acordo com o ponto de vista deles. Devido a reação negativa, a Miramax desistiu de fazer campanha para o filme e adiou para o ano seguinte. Quando Cidade de Deus recebeu quatro indicações no Oscar 2004, a reação negativa voltou-se para o Oscar de melhor filme estrangeiro. Em 2005 a academia encomendou um estudo para evitar tais injustiças, o que levou a criação da short list (pré-lista), para diversificar a seleção. Posteriormente, devido a uma nova polêmica no perfil do comitê nos anos 2010, foram adicionados mais membros.”

     Quando disputou Oscar de 2004, concorreu  em quatro categorias nas quais perdeu: Melhor Diretor para Fernando Meirelles que perdeu para o neozelandês Peter Jackson que concorreu pelo filme O Senhor dos Anéis-O Retorno do Rei(2003), concorreu para Melhor Roteiro Adaptado onde perdeu também para O Senhor dos Anéis-O Retorno do Rei, disputou também em Melhor Fotografia onde perdeu para Mestres dos Mares-O Lado Mais Distante do Mundo(2003) e concorreu para Melhor Edição onde perdeu também para O Senhor dos Anéis-O Retorno do Rei.

      Uma produção de qualidade incrível, cujo roteiro estruturou bem uma figura de um herói que mata o vilão sem necessariamente precisar disparar uma arma.

      Como assim? Explico: A primeira impressão  que fica no filme quando vemos o Buscapé como narrador, agindo como fio condutor com a narrativa em off, é que ele foi moldado para ser o herói, principalmente quando na introdução somos apresentados a ele no fogo cruzado entre as duas facções que disputam o poder na Cidade de Deus.

      Em alguns momentos mostra ele tentando flertar para virar bandido  ao se apoderar de uma arma para promover um assalto numa situação bem fodida em que se encontrava,  nesse linha tênue entre o explicar dando a entender que ele seria o responsável pela morte do Zé Pequeno, o que poderia gerar uma nociva representação romantizada do crime.

       Porém, não é isso que acontece, já que Buscapé acaba desistindo de querer promover o assalto, porque ele se mostra bonzinho demais para isso. Ainda assim, ele é moldado como herói, já que ele ajudou a derrotar o reinado de Zé Pequeno por meio das lentes de sua câmera  fotográfica  que ele tirava e eram publicadas num jornal onde ele fazia a distribuição e atuava como um freelancer. Esse era portanto sua verdadeiro arma para combater os traficantes.

         O Zé Pequeno acabou sendo morto foi pelos garotos que ele ameaçava matar se não trabalhassem para ele.

         Pode-se dizer que a maneira como o Buscapé foi moldado dentro da narrativa foi para  ele representar a ótica da camada dos populares da Cidade de Deus, simbolizando os cidadãos honestos, onde ele como fio condutor transita entre as diferentes camadas de moradores da comunidade.  E é uma testemunha ocular em  explicar as diferentes camadas  da mesma Cidade de Deus como era na sua infância para a Cidade de Deus que ele cresceu oprimida pelas facções do narcotráfico.

      O livro foi inspirado num romance de Paulo Lins, que de fato se inspirou na história onde boa parte dos criminosos representados no filme realmente existiram como: Zé Pequeno que foi a alcunha de José Eduardo Barreto da Conceição(1957-1985), Mané Galinha que foi o alcunha de Manoel Machado Rocha(1952-1979), Bené é outro que também, o Trio Ternura e o Cenoura.

    Sendo que muita coisa retratada no filme foi muito ficcionalizada usando de  uns toques de licenças poéticas para tornar a obra mais palatável.

         Boa parte do elenco que compõe esse filme são de atores até então desconhecidos do grande público, boa parte vinda das comunidades o que dá uma verossimilhança que com o sucesso do filme foram despontando em produções tanto no cinema quanto na televisão.

       Dentre esses há de mencionar Alexandre Rodrigues na pele do Buscapé, o personagem central na história. Ele consegue sustentar  bem as pontas narrando em primeiro pessoa mostrando as duas facetas da Cidade de Deus  de forma não-linear, começando pelo final mostrando ele na linha de frente do confronto entre as facções de Zé Pequeno e do Cenoura. E vai construindo de nos guiar pela Cidade de Deus em duas linhas temporais diferentes de como foi mudando estruturalmente, mas lidando com o mesmo problema de caos urbano.  

      É curioso ver a  maneira como ele foi desenhado com um perfil heroico de conseguir derrotar  o Zé Pequeno sem necessariamente se utilizar de uma pistola para mata-lo, o que poderia extrapolar a linha tênue  entre o  explicar para o justificar, mas apenas se utilizando de uma câmera fotográfica que por meio das suas lentes que ele registrava se tornava a testemunhava ocular dos acontecimentos na Cidade de Deus, pela sua ótica de morador comum da comunidade, pessoa honesta que simbolizava a camada dos populares que viviam a opressão das facções, ainda mais pela maneira como ele transitava pela diferentes camadas de moradores da Cidade de Deus e fora dela.

       Também contou entre os novos talentos revelados no filme  com: Thiago Martins ainda menino com 13 anos, representando Lampião, que se junta ao bando de Zé Pequeno, Roberta Rodrigues como Berenice, a esposa do Cabeleira, Alice Braga em começo de carreira, no filme a sobrinha da atriz Sonia Braga representa a Angélica, uma jovem de classe média que desperta o interesse amoroso de Buscapé, mas acaba se envolvendo amorosamente e perigosamente pelo bandidão Bené.

       O cantor Seu Jorge fazendo um brilhante desempenho como Mané Galinha, um sujeito que inconformado com o fato de ver Zé Pequeno estuprar sua mulher passa a organizar uma gang para acabar com ele.

          O filme também revelou o talento de Douglas Silva, na ocasião um menino de 13 anos que representou bem o vilão Dadinho criança já mostrando o seu nível de crueldade e que ao crescer passando  a se chamar de Zé Pequeno bem representado por Leandro Firmino da Hora, na primeira cena onde ele aparece numa boca e o povo o chama por Dadinho ele solta seu memorável e icônico bordão: “Dadinho é o caralho, meu nome é Zé Pequeno, Porra”.

          Já mostrando o seu perfil de empoderamento, sua autoridade e nível de crueldade de sociopatia.  

           Outro jovem talento revelado no filme é Daniel Zettel, que no filme representa Tiago um jovem de classe média do grupo de Angélica que é usuário de drogas e vira um membro da facção de Zé Pequeno, após o filme ele despontou em muitos trabalhos na televisão e cinema  ao longo dos anos 2000.

          Assim como destacar a participação fera  de Matheus Nachtergaele, na ocasião já um ator consagrado no cinema e televisão que faz um brilhante desempenho na pele do Cenoura. Era famoso pelo João Grilo no filme  O Auto da Compadecida(Brasil,2000).  Um sujeito que também demonstra carregar um nível de tamanha crueldade quanto o Zé Pequeno.

     Outras feras  presentes no filme são:  Charles Paraventi, um americano naturalizado brasileiro que já era uma figura ilustre em estrelar comerciais para televisão que no filme representa o Tio Sam, um fornecedor de armamentos ilegais por meio da policia corrupta que distribui para Zé Pequeno e é a policia corrupta que lhe tira a vida.

     E por fim mencionar a participação de Graziela Moretto que representa no filme a jornalista Marina Cintra, que é responsável por contratar Buscapé para trabalhar no Jornal do Brasil.

       É ela quem  o acolhe em seu apartamento se compadecendo do seu drama de viver num lugar que é cheio de  tiroteio. É com ela que ao experimentar relaxar tragando uma verdinha que Buscapé apesar de não ser  mostrado, mas ficou subentendido que ele teve a sua primeira transa. Coisa que não ocorreu com a Angélica como ele tanto desejava.

      Ou seja, ele perdeu a virgindade com a jornalista Marina Cintra.

      Até hoje o legado desse filme foi tão importante, cuja estética  inspirou o surgimento da onda das favelas movies que inspirou artistas internacionais e recentemente a HBO Max produziu cuja história dá continuidade aos eventos apresentados nesse filme.

            Justamente por isso é o que torna essencial de se conhecer dessa fase do Cinema da Retomada e apreciar o nível da qualidade estética de cada um.

 

 

        

     

         

 

      P.S. No Oscar de 2004, O Senhor dos Anéis-O Retorno do Rei, o capitulo final da trilogia dirigida por Peter Jackson que começou com A Sociedade do Anel(2001) e As Duas Torres(2002) inspirado na trilogia de fantasia de J.R.R.Tolkien(1892-1973) marcava por entra na história da edição por ter sido o terceiro a levar as 11 Estatuetas, um recorde que até apenas o épico histórico monumental Ben-Hur(1959) conquistou no Oscar de 1960 e o épico de catástrofe náutica Titanic(1997) conquistou no Oscar de 1998.


*O atual Presidente da República Lula ainda disputou cinco vezes o cargo, perdeu em 1994 e em 1998 para o sociólogo Fernando Henrique Cardoso. Venceu em 2002, 2006 e em 2022.

**A apresentadora Xuxa só retornaria a  produzir e estrelar filmes  após a fase da Retomada com o filme Xuxa Requebra(Brasil, 1999), que novamente contou com a direção da Tizuka Yamazaki.

***Quando Arutin morreu ainda estava no ar a novela A Idade da Loba(1995-1996) na Bandeirantes onde ele participou  representando o papel do Doutor João Semana. Quando o último capitulo foi ao ar no dia 19 de Janeiro de 1996, ele já tinha concluído sua participação na novela.

****O cineasta Walter Salles, diretor de Ainda Estou Aqui, é filho do banqueiro Walter Moreira Salles(1912-2001),  fundador do Itaú Unibanco. Ele junto de seus três irmãos formados por Pedro, Fernando e João Moreira Salles são herdeiros de uma fortuna  estimada em 4,5 bilhões de dólares. Desses seus três irmãos, João Moreira Salles também é cineasta, sendo no caso documentarista.  Dentre os documentários dirigidos por João que  recomendo verem  estão: Entreatos(Brasil, 2004) onde ele registrou a vida rotineira de Lula durante a corrida presidencial de 2002 e Santiago(Brasil, 2007) que traz a entrevista dele  com seu ex-mordomo Santiago Badariotti Merlo(1912-1994) que demorou 15 anos para ele concluir, nesse meio tempo Santiago já havia falecido.