segunda-feira, 25 de maio de 2026

O PRIMEIRO METAL HERO: POLICIAL DO ESPAÇO GAVAN(1982-1983)

 

Outro dia   eu conclui de assistir a série do Policial do Espaço Gavan( Uchuu Keiji Gaban, 1982-1983) no YouTube no canal Tokusato da Sato Company com os 44 episódios completos.




Em memória ao ator Kenji Ohba(1955-2026) que faleceu no último dia 6 de Maio. Eu tenho uma vaga lembrança de quando eu assisti Gavan a primeira vez passando na Globo em 1991, na época eu era moleque, devia ter uns seis anos.




Cheguei a assistir uns poucos episódios, portanto, eu não tenho essa memória afetiva tão próxima como o que eu tenho com relação a Jaspion.




Que não por acaso faz parte da mesma franquia metal hero que começou com Gavan e agora que estão produzindo uma nova série inspirada em Gavan, que é Gavan Infinity.




 Ao revisitar, pude entender bem o porquê do seu nível de importância dentro do universo do tokusatsu. E do quanto que até hoje ela é tão aclamada pelos japoneses.

Pelo que posso avaliar entre os pontos positivos e negativos sobre essa série é que assim: De positivo, a produção mostrou um ótimo trabalho na estrutura do roteiro ao modelar bem a jornada heroica do protagonista.



O seu roteiro contou com a assinatura de sete roteiristas, dentre estes sete estava Shozo Uehara(1937-2020) que foi o responsável por assinar o roteiro de Jaspion posteriormente, contou com a direção de cinco diretores, dentre esses diretores estava Yoshiaki Kobayashi que futuramente dirigiu Jaspion e outras séries do gênero tokusatsu que passaram aqui no Brasil como Kamen Rider Black.






Cuja estrutura narrativa é bem batida desse gênero, principalmente ao mostrar o herói após ser treinado pela polícia espacial vem a Terra para protege-la da ameaça da organização criminosa espacial Maku, contando com o auxílio da Mimi em um laboratório, em paralelo ele consegue um emprego no Haras da Família Fuji, e lida com a dinâmica de a cada episódio enfrentar as ameaças de Maku  enviando um monstro para dominar a humanidade e Gavan precisa impedir os destruindo com o golpe de sua espada laser, ou mesmo se o monstro fica gigante conta com o auxílio de seu mecha em forma de dragão Dolu.





Isso é algo que as produções das franquias de Kamen Rider e Super Sentai já costumavam explorar muito dessa dinâmica.

Portanto, apesar de não ser nada inovador para o gênero de série tokusatsu especificamente falando, pelo menos o roteiro conseguiu ser bem atrativo, muito disso graças ao bom desempenho de Kenji Ohba como protagonista, que é um ponto positivo importante, ainda mais que quando ele foi escalado para o papel, ele já não era tão novato no gênero apesar da pouca idade, estava só com 27 anos quando estrelou o papel principal. Ele já havia protagonizado duas séries super sentai que foram: Battle Fever J.(Japão, 1979-1980) onde fez o Battle Kenya  e Denshi Sentai Denziman(1980-1981) onde fez o Denzi Blue.






Isso fora suas participações não-creditadas por trás das fantasias de monstros como dublê.

Ele em cena conseguiu transmitir um bom carisma que esse personagem necessitava, principalmente em momentos mais descontraídos e também na habilidade coreográfica das cenas de luta.

Não só Ohba brilha em cena, como também brilham na série o saudoso Toshiaki Nishizawa(1936-2013) como o Comandante Kom com quem Gavan faz contatos por meio de um monitor para pedir um auxilio investigativo.



 Outros que brilham e que merecem menção são: Wakiko Kano que faz um brilhante desempenho como a Mimi, uma assistente de Gavan na Terra, o saudoso Jun Tatara(1917-2006) na pele do Gosuke Fuji, dono do haras onde o herói trabalha faz uma excelente representação divertida do papel com seu ar ranzinza, Masayuki Suzuki que faz um excelente desempenho como o alivio cômico do Kojiro, um abobalhado parceiro de Gavan que nutre uma obsessão por UFOs.




Assim como Michiru Iida que brilha na pele do Caçador Maligno, que é o subalterno do Don Hollar, o comandante da Maku, Ken Nishida na pele do Sandorba, o Príncipe de Maku, fora as participações de Hiroshi Miyauchi que fez o Alan nos episódios 30 e 31, que nós brasileiros o conhecemos pelo papel do Chefe Masaki em Winspector (1990) e Solbrain (1991) que passaram na extinta Rede Manchete na segunda metade dos anos 1990.




 O saudoso Sonny Chiba(1939-2021)* na pele do Voicer, o pai de Gavan, da Princesa Tenko, uma famosa ilusionista do Japão que apareceu no episódio 29 que posteriormente ganhou uma série animada produzida pela americana Saban que passou aqui no Brasil na Globo com o nome de Tenko e os Guardiões da Mágica ali por volta da segunda metade dos anos 1990.



 
A personagem desse desenho inspirado na mágica real 
fez uma participação no episódio de Gavan. 


Fora outras participações especiais que dão um bom fortalecimento como ponto positivo para Gavan, como a participação de Hiroshi Watari sendo introduzido nos últimos episódios como Den Igan que se torna o Sharivan, virando uma forma para atrair a série posterior Detetive Espacial Sharivan(Uchuu Keiji Sharivan, Japão, 1983-1984), série que passou aqui no Brasil na Bandeirantes em 1990.



  Assim como sua trilha sonora incidental que contou com a assinatura do saudoso Chumei Watanabe(1925-2022) que assinaria a trilha sonora de Jaspion e sua abertura e encerramento cantada por Akira Kushida é o que dá um charme a mais a série.

 


Já com relação aos pontos negativos sobre  a série, envolve o fato de que como ela  segue a formula típica das produções de tokusatsu dos seus episódios seguirem a dinâmica do herói encarar a nova ameaça de Maku com o monstro do dia, ele precisa eliminar essa ameaça com seus golpes de espada ou mesmo recorrendo ao seu mecha dragão Dolu. Esse segmento vai chegando uma hora que o negócio fica cansativo a ponto da série terminar por girar muito em círculos.

A coisa só vai  mudando um pouco de sair dessa estafa quando eles tiram de cena no episódio 30 o Caçador Maligno que Maku  o joga para o espaço após Don Holler descobrir sua tentativa de traição e entra em cena  Sandorba e sua mãe Bruxa Kiba onde com os seus poderes vão gerando um aumento maior no desafio para Gavan e o Caçador Maligno só retorna no episódio 42 já enfraquecido e morrendo dá a informação sobre o pai de Gavan.




Pior mesmo é quando ocorre a ausência da Mimi entre os episódios 30 a 42 que na história é explicado que ela precisou retornar ao Planeta Bird para cuidar de sua mãe doente, já quanto as razões reais que levaram a produção a tomar essa decisão são desconhecidas. A ausência da Mimi deixou um vácuo que acabou sendo preenchido quando foi colocada a Marin, vivida pela atriz Kyoko Nashiro, que era a assistente do Comandante Kom e passou a substituir a Mimi e a auxiliar Gavan aqui em sua base na Terra.




Uma decisão até certo ponto acertada, seguindo pela lógica da conveniência do roteiro ainda que gere uma estranheza, principalmente pelo fato de que como a Mimi tinha uma habilidade de se transformar num pássaro amarelo, onde ela as vezes mostrava aptidão em colaborar com Gavan nas suas missões em campo, coisa que com a Marin não dá para sentir o mesmo, ela se mostra um tanto jogada e até um tanto rasa no roteiro.

Agora o grande ponto negativo com relação a nós brasileiros está no fato de que sua dublagem feita no extinto estúdio carioca da VTI Rio** que passava na Rede Globo mostra-se de uma qualidade um tanto quanto questionável para se dizer o mínimo, principalmente quando há trechos que repentinamente aparece a voz original.




Ou mesmo quando não há sincronia da voz do locutor com a leitura do letreiro. Ou mesmo, eles terem mudado o nome do Caçador Maligno para Matador, o que ficou estranho, ou mesmo as confusões com as soletrações dos nomes ou mesmo eles demorarem a mencionar o Espaço Maku dentre outras falhas dessa dublagem.

Ainda que tenha contado com um ótimo elenco como Márcio Seixas que muita gente assimila a voz do Batman como narrador, o saudoso Orlando Prado(1928-1999) como a primeira voz do protagonista, que logo foi substituída pelo Marco Ribeiro, que captou bem melhor a essência do protagonista.

Fora Miriam Fisher dublando a Mimi, que conseguiu bem captar a sua essência dócil e mansa, assim como alguns falecidos como: Waldyr Santana(1936-2018) muito lembrado como a primeira voz do Homer Simpson dos Simpsons, dublando o Sandorba, Leonardo José(1943-2021) fez um desempenho incrível  dublando o Caçador Maligno, Sônia Ferreira(1941-2003) que dublou a Bruxa Kiba onde conseguiu captar  bem sua essência amedrontadora principalmente na maneira de falar caricatamente aguda em falsete  com uma risada sinistra   e não só essa como também dublava os disfarces femininos das assistentes dos monstros da Maku, Ionei Silva(1942-2013) que assumiu a segunda voz do Kojiro a partir do episódio 14, no lugar de Carlos Seidl, que dublou esse mesmo personagem entre os episódios 1 ao 13. Esse segundo conseguiu melhor captar a essência cômica paspalha e um tanto medíocre do Kojiro.

Assim como vale menção aos nomes também saudosos de Dário de Castro(1943-2021) na voz do Comandante Kom que conseguiu bem captar a essência empoderada que o personagem transmitia e de Cleonir dos Santos(1944-1998) que dublou o sobrinho excêntrico de Kojiro que apareceu unicamente num  episódio já na reta final.

Vale mencionar a participação de Oberdan Júnior que dublou o Den Igan/Sharivan nos episódios finais da série.

 Enfim, posso concluir que ao revisitar Gavan dá para entender o porquê de sua importância no meio do tokusatsu e do seu legado se estender até hoje passados mais de 40 anos, ainda mais quando a gente lembra que ele deu início a uma nova franquia para a Toei poder investir no ramo de brinquedos, principalmente quando analisamos que naquele contexto do começo da década de 1980 eles só tinham Super Sentai que já estava uma marca consolidada para vender brinquedos e Kamen Rider andava num hiato.

Ainda que entre nós brasileiros  ele não fez esse sucesso todo. Diversos fatores podem explicar o porquê de Gavan não figurar tanto na memória afetiva da maioria dos brasileiros: Primeiramente, quando a série chegou aqui no Brasil, já chegou tardiamente depois que Jaspion, que foi a quarta produção da franquia Metal Hero que sucedeu a Sharivan e Shaider  que compõe a trilogia dos Policiais do Espaço junto a Gavan,   havia chegado primeiro pelas mãos de Toshihiko Egashira, o dono da distribuidora Everest Video, que trouxe junto a seu pacote a série do Esquadrão Relâmpago Changeman(Degenki Sentai Changeman, Japão, 1985-1986) que exibiu na Manchete no Programa Clube da Criança em Fevereiro de 1988.

E quando Egashira trouxe as séries, começou também a trabalhar todo o esquema logístico para licenciar os produtos dos brinquedos.

Depois que Jaspion conquistou um boom comercial com a venda de brinquedos, foram vindo uma safra de outras produções em sequência, alguma dessas trazidas por concorrentes como Top Tape, Oro Filmes e a Sato Company.

A polêmica Oro Filmes foi uma distribuidora, com braços na Europa e no Brasil, que ficou famosa por trazer importantes séries e filmes de tokusatsu (produções japonesas com efeitos especiais) para a TV aberta brasileira no início dos anos 90.  Ela foi responsável por trazer três séries de tokusatsu que foram exibidas na Bandeirantes em 1990 que foram: Gigantes Guerreiros Google Five(Dai Sentai Google Five, 1982-1983), Detetive Espacial  Sharivan(1983-1984) e Machineman(1984-1985).

Dessas três, a série Google Five*** que compõe a franquia Super Sentai, foi lançada no Japão em 1982, mesma data que Gavan foi exibido originalmente.




Por ser uma produção que antecedeu a Jaspion, em comparação com as séries que a Manchete vinha exibindo depois do fenômeno de Jaspion, sua qualidade de produção era vista como inferior para nós brasileiros, parecendo um retrocesso.

 Fora que para piorar como a sua distribuição não veio diretamente do Japão, mas do material italiano trazido pela Oro Filmes, ainda mais pelo fato da distribuidora ser italiana. Por conta disso, “a dublagem brasileira foi feita por cima da dublagem italiana. Por isso, a dublagem teve problemas na sua sonorização pois as fitas utilizadas pela Itália não possuíam efeitos sonoros e músicas de fundo, já que esses haviam sido perdidos no transporte e manuseio.”(Fonte: Dublapédia)

Sharivan foi a sucessora de Gavan, mas estreou primeiro, onde veio no mesmo pacote da Oro Filmes que lançou na Bandeirantes, nessa série nós fomos apresentados ao Gavan primeiro como o comandante-mentor de Sharivan, e como sua dublagem foi feita no extinto estúdio paulista da Álamo, a mesma responsável por todas as produções de tokusatsu que passaram na Manchete e até mesmo Google Five, na dublagem paulista onde o herói dublado pelo saudoso Carlos Laranjeira(1956-1993) que mostrava ele ser referenciado como Gyaban, o que já gerou uma confusão para nós brasileiros.

Principalmente quando Gavan mesmo estreou na grade de programação da Globo a partir de Março de 1991, sendo exibido na Sessão Aventura, onde como o estúdio escolhido para dublar foi o já mencionado estúdio carioca da VTI, Rio. Por conta da falta da padronização das vozes nos acostumamos a ouvir Sharivan sendo dublado pelo Élcio Sodré, o mesmo que dublou o protagonista Issamu Minami em Kamen Rider Black e com a voz do Oberdan Júnior nessa participação sua em Gavan.

O mais doido é quando a Globo exibiu outra série tokusatsu que se conecta a Gavan, que é o Policial do Espaço Shaider(Uchuu Keiji Shaidá, Japão, 1984-1985), que é a última da trilogia dos Policiais do Espaço, onde sua dublagem ocorreu em outro estúdio de dublagem carioca, a Herbert Richers, onde tivemos outra troca de vozes de alguns personagens de Gavan que estão em Shaider. Quem dublou a voz do Comandante Kom em Shaider foi o saudoso Jomeri Pozzolli(1928-2014), o mesmo que em Gavan foi dublado por Dário de Castro e em Sharivan foi dublado por Luiz Antônio Lobue na dublagem da série produzida no estúdio paulista da Álamo e o Kojiro que em Gavan passou por duas vozes, em Sharivan foi dublado por Oswaldo Boaretto(1956-2006) e em Shaider foi dublado por Garcia Júnior.

Por conta da confusão que levou a soletração do seu nome, que não foi a primeira escolha até decidirem por Gavan, que foi inspirado no nome do ator francês Jean Gabin(1904-1976), onde por conta da complexidade que o idioma japonês tem em adequar uma palavra de origem  estrangeira a sonoridade escrita em takakaná que é o ideogramático nipônico, e como o idioma japonês não tem uma sonoridade da letra V e é confundido com a sonoridade da letra  B isso criou ainda mais  confusão, ainda mais que apesar de ser oficialmente grafado como Gavan eles pronunciam Gyaban, e para ficar ainda mais confuso esse nome também tem uma variação escrita com V Gavin. Resumindo por toda essa confusão de adaptação do nome fez com que Gavan não figurasse tanto na nossa memória, que só piora quando a gente lembra que o nome com que ele veio distribuído foi como Space Cop

Fosse porque não houve uma preocupação mercadologica, fosse porque quando a série chegou os tokusatsu já não tinham mais fôlego estavam saturados mercadologicamente falando.

Ainda assim, Gavan tem o seu nível de grande importância para a série do tokusatsu.

*Kenji Ohba e Sonny Chiba voltaram a contracenarem juntos na produção hollywoodiana Kill Bill Volume 1(2003) do cineasta Quentin Tarantino.

** A VTI Rio (Vídeo Interamericana) foi um lendário estúdio de dublagem brasileiro fundado por Victor Berbara(1928-2021). Fundada em 1960 como distribuidora de filmes, tornou-se estúdio de dublagem em 1968. Conhecida por usar um elenco mais restrito e focado em profissionais contratados, além de ter dublado grandes sucessos como Forrest Gump e Um Príncipe em Nova York. Fechou suas portas em 2008. Em 2025, o canal FREQ-Leone do Youtube sobre essa empresa de dublagem suas polêmicas relações trabalhistas com alguns dubladores no vídeo intitulado VTI Rio: um legado controverso na dublagem.

***Google Five contou em seu elenco com as participações de três atores que integraram o elenco de Jaspion, os três em questão são: Junich Haruta que co-protagonizou a série como o Kuroda/Google Black em Jaspion faria o MacGaren que não por acaso usava um uniforme preto, o falecido Noburu Nakaya (1929-2006) que em Google Five fez o mentor do grupo Professor Hongo e em Jaspion fez o mentor do herói, o Profeta Edin e Toshimichi Takaishi que em Google Five representou o Desguiler, o subalterno da Desdark que em Jaspion fez o Ikki. Outro ponto curioso que conecta Google Five a Jaspion é que sua trilha incidental conta com a assinatura de Chumei Watanabe(1925-2022), o mesmo que assinou a trilha de Gavan e Jaspion e que sua dublagem foi feita no extinto estúdio paulista da Álamo.


terça-feira, 31 de março de 2026

30 ANOS DA ESTREIA DA TELESSÉRIE A VIDA COMO ELA É....

 

No dia 31 de março de 1996, estreava dentro do dominical Fantástico a telessérie A Vida Como Ela é...(Brasil, 1996).



Contando com 40 episódios,  A Vida Como Ela é..., foi uma produção inspirada nos contos do polêmico  escritor Nelson Rodrigues(1912-1980), que ele publicava em sua coluna diária no jornal Última Hora (1951-1961), explorando adultério, pecado e moralidade.





Essa foi a segunda obra do controverso escritor que a Globo adaptava para o formato de teledramaturgia, no ano anterior a Globo adaptou outra obra de Nelson Rodrigues que foi Engraçadinha(1995). Uma adaptação de Leopoldo Serran(1942-2008) do folhetim “Asfalto Selvagem: Engraçadinha, Seus Amores e Seus Pecados”, publicado no jornal Última Hora entre agosto de 1959 e fevereiro de 1960.” (Site Teledramaturgia).

Com direção geral de Denise Saraceni, uma minissérie que foi dividida em duas fases,  marcou a estreia de Alessandra Negrini na televisão protagonizando a Engraçadinha na fase jovem, pecadora sem muito pudor e Claudia Raia na pele da Engraçadinha na fase madura, casada com Zózimo, vivido pelo saudoso Pedro Paulo Rangel(1948-2022) e mãe de três filhos crescidos*, uma típica mulher recalcada, recatada e do lar  que se converteu evangélica.








Fora que também outras obras  de Nelson Rodrigues já haviam ganhado adaptações para cinema, uma em especial que compõe o conto de A Vida Como Ela é..., trata-se no caso de  A Dama do Lotação (1978) filme dirigido por Neville D´Almeida onde contou com Sônia Braga protagonizando a Solange que nessa versão televisiva foi representada por Maitê Proença que vivia traindo seu marido Carlos com os caras que pegava numa lotação de ônibus, daí o porquê do título. Carlos que na versão para cinema foi papel de Nuno Leal Maia que nessa versão para televisão em A Vida Como Ela É.... foi papel de Guilherme Fontes.

Cujo elenco dessa obra contou com a participação de muitos atores feras, um elenco primoroso formado por em ordem alfabética: Antônio Caloni, Cassio Gabus Mendes, Claudia Abreu, Débora Bloch, Giulia Gam, Guilherme Fontes, Isabela Garcia, José Mayer, Leon Góes, Maitê Proença, Malu Mader, Marcos Palmeira e Tony Ramos que eram atores fixos que representavam um personagem diferente em cada história que contava participações especiais.

Os 40 episódios da telessérie de A Vida Como Ela É.... contou com o envolvimento criativo da equipe de roteiristas formadas por: Euclydes Marinho, Denise Bandeira, Carlos Gregório e do teatrólogo  Nelson Rodrigues Filho, filho do autor que se encarregaram para trabalharem na adaptação dos textos rodrigueanos.

Nelsinho  como é referenciado o filho do autor, faleceu recentemente aos 79 anos, no dia 25 de Fevereiro de 2026, vitimado pelo Acidente Vascular Cerebral(AVC).


 *Dentre os atores que representaram os papeis dos filhos da protagonista Engraçadinha, vivida por Claudia Raia na segunda fase estava Carmo Dalla Vechia que fez o Durval. Anos depois ele voltaria a contracenar com Claudia Raia, desta vez fazendo par romântico como Zé Bob e ela como  Donatella Fontini na novela A Favorita(2008-2009). Pouco antes dessa minissérie a obra de Engraçadinha foi adaptada para cinema em 1981 que contou com Lucélia Santos como a protagonista titulo nessa obra que contou com a direção de Haroldo Marinho Barbosa(1944-2013) que também foi o responsável por assinar a adaptação do roteiro como roteirista. 

 

segunda-feira, 2 de março de 2026

30 ANOS SEM OS MAMONAS ASSASSINAS

 

Em 02 de Março de 1996, o Brasil acompanhou a triste notícia do acidente aéreo que tirou a vida de todos os integrantes do irreverente  conjunto musical Mamonas Assassinas, e para lembrar essa data vou aqui comentar sobre duas obras que abordam sobre a importância cultural desse conjunto que surgiu bem fora da curva.



As duas obras em questão tratam-se de Mamonas Pra Sempre(Brasil,2009) e Mamon
as Assassinas-O Filme
(Brasil, 2023).



No documentário Mamonas Pra Sempre, obra que tem a direção e produção de Claudio Kahns e com roteiro assinado por Diana Zatz Muss com produção da Tatu Filmes, aborda a trajetória  do conjunto musical daquela forma bem descontraída com os depoimentos dos familiares, o depoimento de Rick Bonadio, o depoimento da noiva de Dinho, as imagens de arquivos pessoais mostrando as primeiras apresentações do conjunto com o nome de Utopia, ocorrido no programa de Savério Zacaninni, algo que torna bastante enriquecedor para a obra, servindo bem para explicar como se deu o contexto do surgimento do grupo cuja curta carreira marcou gerações que vale a pena assistir, principalmente para as gerações mais novas entenderem o que eles simbolizaram para a minha geração daquela segunda metade dos anos 1990 que era visto como improvável.




Já quanto a cinebiografia Mamonas Assassinas-O Filme, já não posso dizer a mesma coisa. Com roteiro de Carlos Lombardi e direção de Edson Spinello, ambos nomes que construíram suas carreiras na televisão dirigindo e escrevendo  novelas. Com produção da Total Entermainemnt em coprodução com a Mamonas Produções que é a detentora da marca e com a Claro.





A produção dessa cinebiografia levou anos para sair do papel, a começar pelo fato de que inicialmente o cérebro por trás  do projeto, Carlos Lombardi havia apresentado para ser uma minissérie para a Rede Record  prevista para ser lançada em 2016, ano que lembrou os vinte anos  da trágica morte do quinteto.




Acontece que, no percurso houveram muitos empecilhos que resultou no cancelamento do projeto como bem descreve esse trecho sobre o filme tirado da Wikipédia:

Em março de 2016, a Record anunciou que estava produzindo uma minissérie   televisiva sobre a banda de rock Mamonas Assassinas   intitulada Mamonas Assassinas - A Série, com produção da empresa "OSS Produções", e que sua estreia estava prevista para julho do mesmo ano. O ano de 2016 foi escolhido por marcar os 20 anos do trágico acidente que vitimou a banda. Meses depois de anunciar a série, contudo, a emissora cancelou as gravações, alegando não ter verba para dar continuidade ao projeto, uma vez que a produção não foi aprovada pela Ancine e, com isso, não conseguiu captar os recursos necessários para realizar a minissérie. 

Porém, conforme relatou o jornal O Globo, o motivo teria sido outro. A reportagem diz que, por pressão das famílias dos músicos, várias cenas que não aconteceram na vida real e incomodaram muito as famílias tiveram que ser cortadas do roteiro.

Uma delas mostraria os integrantes da banda assaltando um posto de gasolina para conseguir dinheiro para lançar um CD. Em outra, o pai do vocalista Dinho trairia a esposa com a mulher do prefeito de São Paulo.

 Por conta disso, a Fox, que planejava exibir a série de cinco capítulos tão logo a Record concluísse a veiculação, abandonou o projeto. Elenco e equipe técnica também acabaram dispensados.

Até 2018, nada mais se falou a respeito da minissérie, quando finalmente a Record  se pronunciou informando que o projeto havia sido retomado. Por conta do imbróglio com as famílias, passagens da vida pessoal dos músicos, sem comprovação ou irrelevantes para o enredo, acabaram suprimidas. Em maio, segundo a coluna do Flávio Ricco no UOL, o novo enredo do autor Carlos Lombardi  foi aprovado pela emissora paulista e pela Total Filmes (a nova produtora e parceira do projeto).

Inicialmente, será uma série em cinco capítulos que, depois, compactada, dará origem a um filme. Um novo elenco terá que ser escolhido, uma vez que parte dos autores anteriormente escalados já assumiu novos compromissos. Em 30 de janeiro de 2023 a Record   iniciou as gravações em Guarulhos, município na Região Metropolitana de São Paulo.”




O que isso terminou resultando em algumas mudanças na formação do elenco principal, que quando foram  anunciados em abril de 2016 para compor a minissérie.  Três atores que já os representavam no teatro na peça Mamonas Assassinas-O Musical como Ruy Brissac para virar o Dinho(1971-1996), Elcion Bozanni para ser Samuel Reoli(1973-1996) e Adriano Tunes para ser Júlio Rasec(1968-1996), fora que também eles chegaram a escalar Vinicius de Oliveira para o papel de Sérgio Reoli(1969-1996) e Beto Hinoto para viver Bento Hinoto(1970-1996).

Dessa escalação inicial para a minissérie foram mantidos os nomes de Ruy Brissac que foi mantido no papel de Dinho, Beto Hinoto foi mantido para viver Bento Hinoto, Adriano Tunes que primeiramente era para ser Júlio Rasec ficou com o papel de Samuel  Reoli e quem assumiu os papeis de Julio Rasec foi Robson Lima e Sérgio Reoli foi de Rhener Freitas.

O fato curioso é que Beto Hinoto é sobrinho  do guitarrista Bento Hinoto que o representa no filme.

Ele não chegou a conviver com o tio famoso, já que Beto nasceu dois anos após a trágica morte do tio no acidente aéreo na Serra da Cantareira-SP que também tirou a vida dos seus colegas de banda.

“— Sinto uma energia muito forte do meu tio. Sempre antes de entrar no palco, tento canalizar isso. Peço proteção, rezo e agradeço pelas oportunidades. Até porque, se não fosse ele, eu não estaria fazendo esse papel — destaca Beto.”

(Retirado da postagem É Extraordinário do Facebook de 30 de Outubro de 2025).

Diversos fatores fazem com que na época quando foi lançado tenha recebido uma  recepção negativa da crítica e pelo que pude constatar com meus próprios olhos ao conferir no ano passado chegando na Netflix.

Um deles é o fato do roteiro se mostrar um tanto corrido, apressado, sem dar tempo de desenvolver a narrativa.

Junte isso ao fato da qualidade da produção se mostrar minimamente questionável, ainda mais  com o roteiro escrito por Lombardi que na sua longa carreira de roteirista na televisão quando escreveu novelas na Rede Globo ao longo dos 30 anos em que foi contratado tais como: Vereda Tropical(1984-1985), Bebê a Bordo(1988-1989), Perigosas Peruas(1992), Quatro por Quatro(1994-1995), Vira-Lata(1996), Uga Uga(2000-2001), a minissérie O Quinto dos Infernos(2002), Kubanacan(2003) e Pé na Jaca(2006-2007). Ele também roteirizou alguns trabalhos para cinema entre estes segundo consta em seu currículo no IMDB são: Um Trem para as Estrelas(Brasil, 1987) do diretor Cacá Diegues(1940-2025) e também consta que ele foi o colaborador nos roteiros dos filmes Zoando na TV(Brasil, 1999) uma produção de comédia paródica a tv,  estrelada pela popular apresentadora infanto-juvenil Angélica Ksyvickis e contou com a direção de José Alvarenga Júnior e a comédia romântica Mais uma vez Amor(Brasil, 2005) que contou com a direção da americana naturalizada brasileira Rosane Svartman que posteriormente faria carreira na televisão escrevendo novelas na Globo.

Quem assim como eu cresceu assistindo algumas novelas mencionadas de Carlos Lombardi, deve bem saber que o seu estilo de estética é um tanto quanto peculiar que fugia ao modelo folhetinesco tradicional de escrever novela por assim dizer, que dividiu muito as opiniões, agradava a uns e desagradava a outros.

O seu humor era caracterizado pelo estilo caótico e anárquico, que na descrição do seu perfil no site Teledramaturgia do jornalista Nilson Xavier, o  seu estilo peculiar de escrita se caracterizava “em uma linguagem cheia de ação, humor e diálogos sarcásticos.”

Ele costumava trabalhar em seus enredos  num ritmo  acelerado  e frenético principalmente ao trabalhar com cenas que envolviam pancadaria, tiroteio e correria.

Esse tipo de adrenalina em suas novelas as  que faziam  se aproximarem de uma linguagem cinematográfica dos filmes de ação mesclado a linguagem das histórias em quadrinhos de super-heróis.

Do mesmo modo, o seu texto se caracterizava pelo estilo irreverente e porquê não dizer excêntrico  dos diálogos sarcásticos dos personagens quando se envolviam  situações corriqueiras pelo tom do deboche  cínico  do moralismo hipócrita da sociedade brasileira bem escancarado. Ainda mais  quando apelava para erotismo masculino com seus protagonistas sem camisa mostrando os corpos sarados e peitorais.

Por toda essa descrição sobre o roteirista do filme, dá para se compreender o que levou em muitos aspectos o filme a desagradar tanto a crítica, fora que não ajuda o fato de que como a direção de Edson Spinello que sempre acumulou mais trabalhos na televisão dirigindo, a coisa só piora, ainda mais por sua inexperiência em dirigir cinema.

Além do que, o filme também apresenta os mesmos vícios que eu destaquei que é bem característico do estilo lombardiano, principalmente nos diálogos sarcásticos, nos momentos que mostram os protagonistas sem camisa, e fora que tentando seguir algumas convenções narrativas, a obra explora um conflito dos irmãos Sérgio e Samuel quando este se envolve com uma interesseira dentre outros problemas.

Posso concluir que entre a cinebiografia e o documentário, vale mais  a pena assistir ao documentário. Se quem não assistiu a cinebiografia, mas mesmo depois de tudo o que descreve de defeitos que ele apresenta, mesmo assim por curiosidade você vai querer conferir, posso recomendar que assista e tire você mesmo suas próprias conclusões.

No passar desses 30 anos após a trágica morte do conjunto musical, seus familiares pais e irmãos passaram a cuidarem da memória e da marca Mamonas Assassinas, para manter preservado a memória deles.

Alguns deles partiram recentemente como a mãe do baterista Sérgio Reoli e do guitarrista Samuel Reoli, Dirice Reis de Oliveira(Dona Nena) que faleceu em fevereiro de 2024 após  conferir ao lançamento do filme. E no ano  passado partiu Toshiko Hinoto, mãe do baixista Bento Hinoto, ela já tinha 100 anos.

COMO COMPLEMENTO:

Além desses também citar outras obras audiovisuais interessantes sobre o conjunto que valem dar uma conferida.



 Um desses é  no episódio da série da Globo Por Toda Minha Vida(2006-2011), que começou como um especial de final de ano em 2006 se dedicando a Elis Regina(1945-1982) e em 2007 passou a ser um programa fixo na emissora que de mês em mês dedicava um programa focado num artista musical, sempre com apresentação e narração de Fernanda Lima, que trazia uma estética de docudrama onde os depoimentos das pessoas que ela entrevistava  eram intercalados  com as dramatizações que são creditados a diferentes diretores importantes da casa  encarregados de dirigir cada episódio como: João Jardim, Rogério Gomes, Ricardo Waddington, Paulo Silvestrini, Pedro Vasconcelos, Alexandre Ishikawa, José Luiz Villamarim, Fabricio Mamberti, Luiz Henrique Rios dentre outros, do mesmo modo como os roteiros de cada episódio conta com crédito de diferentes roteiristas  e no episódio especifico dedicado aos Mamonas Assassinas que foi originalmente exibido no dia 10 de Julho de 2008, o roteiro do episódio é creditado a Maria Camargo e a direção é de José Luiz Villamarim. Aqui pelo menos o trabalho de dramatização em comparação a cinebiografia  foi bem melhor trabalhado e com uma qualidade técnica  melhor apurada.

Outro complemento a ser citado é o documentário da extinta MTV Brasil(1990-2013) MTV na Estrada: Mamonas Assassinas(Brasil, 1996) registrando e  acompanhando a jornada irreverente conjunto musical do deboche Mamonas Assassinas cujas “gravações acompanhariam os Mamonas em alguns shows realizados no Rio Grande do Sul. O programa mostrou trechos dos shows, além de mostrar os Mamonas fora dos palcos e também entrevistou cada integrante(dessa vez com eles falando sério rs).”

(Trecho retirado da fanpage do Mamonas Assassinas do Facebook).

É nesse documentário o curioso  momento do vocalista Dinho se dirigindo ao cinegrafista debochando do   jato particular: “O avião quase caiu na Floresta Amazônica devido a um radar quebrado e que o dia a seguir seria “uma aventura.” .

Em seguida, ele diz ao cinegrafista em forma de deboche que é típico dele:

“Eu tenho uma boa e uma má noticia pra você que vai voar com a gente cameraman qual que você quer primeiro?”

A fala é interrompida repentinamente  pela aparição surpresa do  tecladista Júlio Rasec perguntando: “Você não é o Dinho dos Mamonas” e Dinho responde: “Eu era”. E Júlio olha para a câmera e diz: “Oi”.

Então Dinho volta a se dirigir para a câmera respondendo sobre o estado do jato:

“A boa é que eles consertaram o radar”. E dando uma risada diz assim: “Quebrou de novo”.

E Dinho ainda acrescenta que o combustível não estava passando do reservatório para o tanque com aquele ar todo debochado. E Júlio entra na situação dizendo: “Quebrou de novo?”.




 

Esse registro e a exibição desse documentário  ocorreu em Fevereiro de 1996,  pouco antes do fatídico acidente aéreo na Serra da Cantareira em Santos-SP que tirou a vida dos cinco componentes do conjunto musical no dia 2 de Março de 1996 depois que eles estavam retornando  da última apresentação em Brasília e se  preparando para a turnê internacional em Portugal.

No fatídico dia do acidente, esse momento pitoresco de Dinho  foi bastante replicado pelas outras emissoras, principalmente durante a cobertura da tragédia onde houve muita comoção nacional e  foi quando se criou até alguma teoria conspiratória ligada a premonição, principalmente quando entrevistaram a famosa vidente Mãe Dináh(1930-2014) que dizia pressentir sobre a tragédia, ainda mais quando foi divulgado o vídeo caseiro do  tecladista Júlio Rasec, filmado horas antes dele ir se preparar para a última apresentação da turnê brasileira em Brasília.

Júlio estava saindo do salão do qual era um cliente assíduo onde lá revelou para a câmera do cabelereiro dono do salão  em um tom sério de preocupação do seu sonho premonitório: "parecia que o avião caía". A trágica coincidência ocorreu na volta de Brasília para São Paulo. Cerca de 12 horas após o relato, o avião Learjet 25D colidiu na Serra da Cantareira, vitimando todos os integrantes da banda, incluindo Júlio.

Jamais houve um conjunto musical brasileiro igual aos Mamonas Assassinas, nem antes, nem depois.