segunda-feira, 2 de março de 2026

30 ANOS SEM OS MAMONAS ASSASSINAS

 

Em 02 de Março de 1996, o Brasil acompanhou a triste notícia do acidente aéreo que tirou a vida de todos os integrantes do irreverente  conjunto musical Mamonas Assassinas, e para lembrar essa data vou aqui comentar sobre duas obras que abordam sobre a importância cultural desse conjunto que surgiu bem fora da curva.



As duas obras em questão tratam-se de Mamonas Pra Sempre(Brasil,2009) e Mamon
as Assassinas-O Filme
(Brasil, 2023).



No documentário Mamonas Pra Sempre, obra que tem a direção e produção de Claudio Kahns e com roteiro assinado por Diana Zatz Muss com produção da Tatu Filmes, aborda a trajetória  do conjunto musical daquela forma bem descontraída com os depoimentos dos familiares, o depoimento de Rick Bonadio, o depoimento da noiva de Dinho, as imagens de arquivos pessoais mostrando as primeiras apresentações do conjunto com o nome de Utopia, ocorrido no programa de Savério Zacaninni, algo que torna bastante enriquecedor para a obra, servindo bem para explicar como se deu o contexto do surgimento do grupo cuja curta carreira marcou gerações que vale a pena assistir, principalmente para as gerações mais novas entenderem o que eles simbolizaram para a minha geração daquela segunda metade dos anos 1990 que era visto como improvável.




Já quanto a cinebiografia Mamonas Assassinas-O Filme, já não posso dizer a mesma coisa. Com roteiro de Carlos Lombardi e direção de Edson Spinello, ambos nomes que construíram suas carreiras na televisão dirigindo e escrevendo  novelas. Com produção da Total Entermainemnt em coprodução com a Mamonas Produções que é a detentora da marca e com a Claro.





A produção dessa cinebiografia levou anos para sair do papel, a começar pelo fato de que inicialmente o cérebro por trás  do projeto, Carlos Lombardi havia apresentado para ser uma minissérie para a Rede Record  prevista para ser lançada em 2016, ano que lembrou os vinte anos  da trágica morte do quinteto.




Acontece que, no percurso houveram muitos empecilhos que resultou no cancelamento do projeto como bem descreve esse trecho sobre o filme tirado da Wikipédia:

Em março de 2016, a Record anunciou que estava produzindo uma minissérie   televisiva sobre a banda de rock Mamonas Assassinas   intitulada Mamonas Assassinas - A Série, com produção da empresa "OSS Produções", e que sua estreia estava prevista para julho do mesmo ano. O ano de 2016 foi escolhido por marcar os 20 anos do trágico acidente que vitimou a banda. Meses depois de anunciar a série, contudo, a emissora cancelou as gravações, alegando não ter verba para dar continuidade ao projeto, uma vez que a produção não foi aprovada pela Ancine e, com isso, não conseguiu captar os recursos necessários para realizar a minissérie. 

Porém, conforme relatou o jornal O Globo, o motivo teria sido outro. A reportagem diz que, por pressão das famílias dos músicos, várias cenas que não aconteceram na vida real e incomodaram muito as famílias tiveram que ser cortadas do roteiro.

Uma delas mostraria os integrantes da banda assaltando um posto de gasolina para conseguir dinheiro para lançar um CD. Em outra, o pai do vocalista Dinho trairia a esposa com a mulher do prefeito de São Paulo.

 Por conta disso, a Fox, que planejava exibir a série de cinco capítulos tão logo a Record concluísse a veiculação, abandonou o projeto. Elenco e equipe técnica também acabaram dispensados.

Até 2018, nada mais se falou a respeito da minissérie, quando finalmente a Record  se pronunciou informando que o projeto havia sido retomado. Por conta do imbróglio com as famílias, passagens da vida pessoal dos músicos, sem comprovação ou irrelevantes para o enredo, acabaram suprimidas. Em maio, segundo a coluna do Flávio Ricco no UOL, o novo enredo do autor Carlos Lombardi  foi aprovado pela emissora paulista e pela Total Filmes (a nova produtora e parceira do projeto).

Inicialmente, será uma série em cinco capítulos que, depois, compactada, dará origem a um filme. Um novo elenco terá que ser escolhido, uma vez que parte dos autores anteriormente escalados já assumiu novos compromissos. Em 30 de janeiro de 2023 a Record   iniciou as gravações em Guarulhos, município na Região Metropolitana de São Paulo.”




O que isso terminou resultando em algumas mudanças na formação do elenco principal, que quando foram  anunciados em abril de 2016 para compor a minissérie.  Três atores que já os representavam no teatro na peça Mamonas Assassinas-O Musical como Ruy Brissac para virar o Dinho(1971-1996), Elcion Bozanni para ser Samuel Reoli(1973-1996) e Adriano Tunes para ser Júlio Rasec(1968-1996), fora que também eles chegaram a escalar Vinicius de Oliveira para o papel de Sérgio Reoli(1969-1996) e Beto Hinoto para viver Bento Hinoto(1970-1996).

Dessa escalação inicial para a minissérie foram mantidos os nomes de Ruy Brissac que foi mantido no papel de Dinho, Beto Hinoto foi mantido para viver Bento Hinoto, Adriano Tunes que primeiramente era para ser Júlio Rasec ficou com o papel de Samuel  Reoli e quem assumiu os papeis de Julio Rasec foi Robson Lima e Sérgio Reoli foi de Rhener Freitas.

O fato curioso é que Beto Hinoto é sobrinho  do guitarrista Bento Hinoto que o representa no filme.

Ele não chegou a conviver com o tio famoso, já que Beto nasceu dois anos após a trágica morte do tio no acidente aéreo na Serra da Cantareira-SP que também tirou a vida dos seus colegas de banda.

“— Sinto uma energia muito forte do meu tio. Sempre antes de entrar no palco, tento canalizar isso. Peço proteção, rezo e agradeço pelas oportunidades. Até porque, se não fosse ele, eu não estaria fazendo esse papel — destaca Beto.”

(Retirado da postagem É Extraordinário do Facebook de 30 de Outubro de 2025).

Diversos fatores fazem com que na época quando foi lançado tenha recebido uma  recepção negativa da crítica e pelo que pude constatar com meus próprios olhos ao conferir no ano passado chegando na Netflix.

Um deles é o fato do roteiro se mostrar um tanto corrido, apressado, sem dar tempo de desenvolver a narrativa.

Junte isso ao fato da qualidade da produção se mostrar minimamente questionável, ainda mais  com o roteiro escrito por Lombardi que na sua longa carreira de roteirista na televisão quando escreveu novelas na Rede Globo ao longo dos 30 anos em que foi contratado tais como: Vereda Tropical(1984-1985), Bebê a Bordo(1988-1989), Perigosas Peruas(1992), Quatro por Quatro(1994-1995), Vira-Lata(1996), Uga Uga(2000-2001), a minissérie O Quinto dos Infernos(2002), Kubanacan(2003) e Pé na Jaca(2006-2007). Ele também roteirizou alguns trabalhos para cinema entre estes segundo consta em seu currículo no IMDB são: Um Trem para as Estrelas(Brasil, 1987) do diretor Cacá Diegues(1940-2025) e também consta que ele foi o colaborador nos roteiros dos filmes Zoando na TV(Brasil, 1999) uma produção de comédia paródica a tv,  estrelada pela popular apresentadora infanto-juvenil Angélica Ksyvickis e contou com a direção de José Alvarenga Júnior e a comédia romântica Mais uma vez Amor(Brasil, 2005) que contou com a direção da americana naturalizada brasileira Rosane Svartman que posteriormente faria carreira na televisão escrevendo novelas na Globo.

Quem assim como eu cresceu assistindo algumas novelas mencionadas de Carlos Lombardi, deve bem saber que o seu estilo de estética é um tanto quanto peculiar que fugia ao modelo folhetinesco tradicional de escrever novela por assim dizer, que dividiu muito as opiniões, agradava a uns e desagradava a outros.

O seu humor era caracterizado pelo estilo caótico e anárquico, que na descrição do seu perfil no site Teledramaturgia do jornalista Nilson Xavier, o  seu estilo peculiar de escrita se caracterizava “em uma linguagem cheia de ação, humor e diálogos sarcásticos.”

Ele costumava trabalhar em seus enredos  num ritmo  acelerado  e frenético principalmente ao trabalhar com cenas que envolviam pancadaria, tiroteio e correria.

Esse tipo de adrenalina em suas novelas as  que faziam  se aproximarem de uma linguagem cinematográfica dos filmes de ação mesclado a linguagem das histórias em quadrinhos de super-heróis.

Do mesmo modo, o seu texto se caracterizava pelo estilo irreverente e porquê não dizer excêntrico  dos diálogos sarcásticos dos personagens quando se envolviam  situações corriqueiras pelo tom do deboche  cínico  do moralismo hipócrita da sociedade brasileira bem escancarado. Ainda mais  quando apelava para erotismo masculino com seus protagonistas sem camisa mostrando os corpos sarados e peitorais.

Por toda essa descrição sobre o roteirista do filme, dá para se compreender o que levou em muitos aspectos o filme a desagradar tanto a crítica, fora que não ajuda o fato de que como a direção de Edson Spinello que sempre acumulou mais trabalhos na televisão dirigindo, a coisa só piora, ainda mais por sua inexperiência em dirigir cinema.

Além do que, o filme também apresenta os mesmos vícios que eu destaquei que é bem característico do estilo lombardiano, principalmente nos diálogos sarcásticos, nos momentos que mostram os protagonistas sem camisa, e fora que tentando seguir algumas convenções narrativas, a obra explora um conflito dos irmãos Sérgio e Samuel quando este se envolve com uma interesseira dentre outros problemas.

Posso concluir que entre a cinebiografia e o documentário, vale mais  a pena assistir ao documentário. Se quem não assistiu a cinebiografia, mas mesmo depois de tudo o que descreve de defeitos que ele apresenta, mesmo assim por curiosidade você vai querer conferir, posso recomendar que assista e tire você mesmo suas próprias conclusões.

No passar desses 30 anos após a trágica morte do conjunto musical, seus familiares pais e irmãos passaram a cuidarem da memória e da marca Mamonas Assassinas, para manter preservado a memória deles.

Alguns deles partiram recentemente como a mãe do baterista Sérgio Reoli e do guitarrista Samuel Reoli, Dirice Reis de Oliveira(Dona Nena) que faleceu em fevereiro de 2024 após  conferir ao lançamento do filme. E no ano  passado partiu Toshiko Hinoto, mãe do baixista Bento Hinoto, ela já tinha 100 anos.

COMO COMPLEMENTO:

Além desses também citar outras obras audiovisuais interessantes sobre o conjunto que valem dar uma conferida.



 Um desses é  no episódio da série da Globo Por Toda Minha Vida(2006-2011), que começou como um especial de final de ano em 2006 se dedicando a Elis Regina(1945-1982) e em 2007 passou a ser um programa fixo na emissora que de mês em mês dedicava um programa focado num artista musical, sempre com apresentação e narração de Fernanda Lima, que trazia uma estética de docudrama onde os depoimentos das pessoas que ela entrevistava  eram intercalados  com as dramatizações que são creditados a diferentes diretores importantes da casa  encarregados de dirigir cada episódio como: João Jardim, Rogério Gomes, Ricardo Waddington, Paulo Silvestrini, Pedro Vasconcelos, Alexandre Ishikawa, José Luiz Villamarim, Fabricio Mamberti, Luiz Henrique Rios dentre outros, do mesmo modo como os roteiros de cada episódio conta com crédito de diferentes roteiristas  e no episódio especifico dedicado aos Mamonas Assassinas que foi originalmente exibido no dia 10 de Julho de 2008, o roteiro do episódio é creditado a Maria Camargo e a direção é de José Luiz Villamarim. Aqui pelo menos o trabalho de dramatização em comparação a cinebiografia  foi bem melhor trabalhado e com uma qualidade técnica  melhor apurada.

Outro complemento a ser citado é o documentário da extinta MTV Brasil(1990-2013) MTV na Estrada: Mamonas Assassinas(Brasil, 1996) registrando e  acompanhando a jornada irreverente conjunto musical do deboche Mamonas Assassinas cujas “gravações acompanhariam os Mamonas em alguns shows realizados no Rio Grande do Sul. O programa mostrou trechos dos shows, além de mostrar os Mamonas fora dos palcos e também entrevistou cada integrante(dessa vez com eles falando sério rs).”

(Trecho retirado da fanpage do Mamonas Assassinas do Facebook).

É nesse documentário o curioso  momento do vocalista Dinho se dirigindo ao cinegrafista debochando do   jato particular: “O avião quase caiu na Floresta Amazônica devido a um radar quebrado e que o dia a seguir seria “uma aventura.” .

Em seguida, ele diz ao cinegrafista em forma de deboche que é típico dele:

“Eu tenho uma boa e uma má noticia pra você que vai voar com a gente cameraman qual que você quer primeiro?”

A fala é interrompida repentinamente  pela aparição surpresa do  tecladista Júlio Rasec perguntando: “Você não é o Dinho dos Mamonas” e Dinho responde: “Eu era”. E Júlio olha para a câmera e diz: “Oi”.

Então Dinho volta a se dirigir para a câmera respondendo sobre o estado do jato:

“A boa é que eles consertaram o radar”. E dando uma risada diz assim: “Quebrou de novo”.

E Dinho ainda acrescenta que o combustível não estava passando do reservatório para o tanque com aquele ar todo debochado. E Júlio entra na situação dizendo: “Quebrou de novo?”.




 

Esse registro e a exibição desse documentário  ocorreu em Fevereiro de 1996,  pouco antes do fatídico acidente aéreo na Serra da Cantareira em Santos-SP que tirou a vida dos cinco componentes do conjunto musical no dia 2 de Março de 1996 depois que eles estavam retornando  da última apresentação em Brasília e se  preparando para a turnê internacional em Portugal.

No fatídico dia do acidente, esse momento pitoresco de Dinho  foi bastante replicado pelas outras emissoras, principalmente durante a cobertura da tragédia onde houve muita comoção nacional e  foi quando se criou até alguma teoria conspiratória ligada a premonição, principalmente quando entrevistaram a famosa vidente Mãe Dináh(1930-2014) que dizia pressentir sobre a tragédia, ainda mais quando foi divulgado o vídeo caseiro do  tecladista Júlio Rasec, filmado horas antes dele ir se preparar para a última apresentação da turnê brasileira em Brasília.

Júlio estava saindo do salão do qual era um cliente assíduo onde lá revelou para a câmera do cabelereiro dono do salão  em um tom sério de preocupação do seu sonho premonitório: "parecia que o avião caía". A trágica coincidência ocorreu na volta de Brasília para São Paulo. Cerca de 12 horas após o relato, o avião Learjet 25D colidiu na Serra da Cantareira, vitimando todos os integrantes da banda, incluindo Júlio.

Jamais houve um conjunto musical brasileiro igual aos Mamonas Assassinas, nem antes, nem depois.

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