Outro
dia eu conclui de assistir a série do Policial do Espaço Gavan( Uchuu Keiji
Gaban, 1982-1983) no YouTube no canal Tokusato da Sato Company com os 44
episódios completos.
Em
memória ao ator Kenji Ohba(1955-2026) que faleceu no último dia 6 de Maio. Eu
tenho uma vaga lembrança de quando eu assisti Gavan a primeira vez passando na Globo em 1991, na época eu era
moleque, devia ter uns seis anos.
Cheguei
a assistir uns poucos episódios, portanto, eu não tenho essa memória afetiva
tão próxima como o que eu tenho com relação a Jaspion.
Que
não por acaso faz parte da mesma franquia metal hero que começou com Gavan e agora que estão produzindo uma
nova série inspirada em Gavan, que é Gavan Infinity.
Ao revisitar, pude entender bem o porquê do
seu nível de importância dentro do universo do tokusatsu. E do quanto que até
hoje ela é tão aclamada pelos japoneses.
Pelo
que posso avaliar entre os pontos positivos e negativos sobre essa série é que
assim: De positivo, a produção mostrou um ótimo trabalho na estrutura do roteiro
ao modelar bem a jornada heroica do protagonista.
O
seu roteiro contou com a assinatura de sete roteiristas, dentre estes sete
estava Shozo Uehara(1937-2020) que foi o responsável por assinar o roteiro de Jaspion posteriormente, contou com a
direção de cinco diretores, dentre esses diretores estava Yoshiaki Kobayashi
que futuramente dirigiu Jaspion e
outras séries do gênero tokusatsu que passaram aqui no Brasil como Kamen Rider Black.
Cuja
estrutura narrativa é bem batida desse gênero, principalmente ao mostrar o
herói após ser treinado pela polícia espacial vem a Terra para protege-la da
ameaça da organização criminosa espacial Maku, contando com o auxílio da Mimi
em um laboratório, em paralelo ele consegue um emprego no Haras da Família Fuji,
e lida com a dinâmica de a cada episódio enfrentar as ameaças de Maku enviando um monstro para dominar a humanidade
e Gavan precisa impedir os destruindo com o golpe de sua espada laser, ou mesmo
se o monstro fica gigante conta com o auxílio de seu mecha em forma de dragão
Dolu.
Isso
é algo que as produções das franquias de Kamen Rider e Super Sentai já
costumavam explorar muito dessa dinâmica.
Portanto,
apesar de não ser nada inovador para o gênero de série tokusatsu
especificamente falando, pelo menos o roteiro conseguiu ser bem atrativo, muito
disso graças ao bom desempenho de Kenji Ohba como protagonista, que é um ponto
positivo importante, ainda mais que quando ele foi escalado para o papel, ele
já não era tão novato no gênero apesar da pouca idade, estava só com 27 anos
quando estrelou o papel principal. Ele já havia protagonizado duas séries super
sentai que foram: Battle Fever J.(Japão,
1979-1980) onde fez o Battle Kenya e Denshi Sentai Denziman(1980-1981) onde
fez o Denzi Blue.
Isso
fora suas participações não-creditadas por trás das fantasias de monstros como
dublê.
Ele
em cena conseguiu transmitir um bom carisma que esse personagem necessitava,
principalmente em momentos mais descontraídos e também na habilidade
coreográfica das cenas de luta.
Não
só Ohba brilha em cena, como também brilham na série o saudoso Toshiaki
Nishizawa(1936-2013) como o Comandante Kom com quem Gavan faz contatos por meio
de um monitor para pedir um auxilio investigativo.
Outros que brilham e que merecem menção são:
Wakiko Kano que faz um brilhante desempenho como a Mimi, uma assistente de
Gavan na Terra, o saudoso Jun Tatara(1917-2006) na pele do Gosuke Fuji, dono do
haras onde o herói trabalha faz uma excelente representação divertida do papel
com seu ar ranzinza, Masayuki Suzuki que faz um excelente desempenho como o
alivio cômico do Kojiro, um abobalhado parceiro de Gavan que nutre uma obsessão
por UFOs.
Assim
como Michiru Iida que brilha na pele do Caçador Maligno, que é o subalterno do
Don Hollar, o comandante da Maku, Ken Nishida na pele do Sandorba, o Príncipe
de Maku, fora as participações de Hiroshi Miyauchi que fez o Alan nos episódios
30 e 31, que nós brasileiros o conhecemos pelo papel do Chefe Masaki em Winspector (1990) e Solbrain (1991) que
passaram na extinta Rede Manchete na segunda metade dos anos 1990.
O saudoso Sonny Chiba(1939-2021)* na pele do
Voicer, o pai de Gavan, da Princesa Tenko, uma famosa ilusionista do Japão que
apareceu no episódio 29 que posteriormente ganhou uma série animada produzida
pela americana Saban que passou aqui no Brasil na Globo com o nome de Tenko e os Guardiões da Mágica ali por
volta da segunda metade dos anos 1990.
Fora
outras participações especiais que dão um bom fortalecimento como ponto
positivo para Gavan, como a
participação de Hiroshi Watari sendo introduzido nos últimos episódios como Den
Igan que se torna o Sharivan, virando uma forma para atrair a série posterior Detetive Espacial Sharivan(Uchuu Keiji
Sharivan, Japão, 1983-1984), série que passou aqui no Brasil na Bandeirantes em
1990.
Assim como sua trilha sonora incidental que
contou com a assinatura do saudoso Chumei Watanabe(1925-2022) que assinaria a
trilha sonora de Jaspion e sua abertura e encerramento cantada por Akira
Kushida é o que dá um charme a mais a série.
Já
com relação aos pontos negativos sobre a
série, envolve o fato de que como ela segue
a formula típica das produções de tokusatsu dos seus episódios seguirem a
dinâmica do herói encarar a nova ameaça de Maku com o monstro do dia, ele
precisa eliminar essa ameaça com seus golpes de espada ou mesmo recorrendo ao
seu mecha dragão Dolu. Esse segmento vai chegando uma hora que o negócio fica cansativo
a ponto da série terminar por girar muito em círculos.
A
coisa só vai mudando um pouco de sair
dessa estafa quando eles tiram de cena no episódio 30 o Caçador Maligno que
Maku o joga para o espaço após Don
Holler descobrir sua tentativa de traição e entra em cena Sandorba e sua mãe Bruxa Kiba onde com os seus
poderes vão gerando um aumento maior no desafio para Gavan e o Caçador Maligno
só retorna no episódio 42 já enfraquecido e morrendo dá a informação sobre o
pai de Gavan.
Pior
mesmo é quando ocorre a ausência da Mimi entre os episódios 30 a 42 que na
história é explicado que ela precisou retornar ao Planeta Bird para cuidar de
sua mãe doente, já quanto as razões reais que levaram a produção a tomar essa
decisão são desconhecidas. A ausência da Mimi deixou um vácuo que acabou sendo
preenchido quando foi colocada a Marin, vivida pela atriz Kyoko Nashiro, que
era a assistente do Comandante Kom e passou a substituir a Mimi e a auxiliar Gavan aqui em sua base na Terra.
Uma
decisão até certo ponto acertada, seguindo pela lógica da conveniência do
roteiro ainda que gere uma estranheza, principalmente pelo fato de que como a
Mimi tinha uma habilidade de se transformar num pássaro amarelo, onde ela as
vezes mostrava aptidão em colaborar com Gavan
nas suas missões em campo, coisa que com a Marin não dá para sentir o mesmo,
ela se mostra um tanto jogada e até um tanto rasa no roteiro.
Agora
o grande ponto negativo com relação a nós brasileiros está no fato de que sua dublagem
feita no extinto estúdio carioca da VTI Rio** que passava na Rede Globo
mostra-se de uma qualidade um tanto quanto questionável para se dizer o mínimo,
principalmente quando há trechos que repentinamente aparece a voz original.
Ou
mesmo quando não há sincronia da voz do locutor com a leitura do letreiro. Ou mesmo,
eles terem mudado o nome do Caçador Maligno para Matador, o que ficou estranho,
ou mesmo as confusões com as soletrações dos nomes ou mesmo eles demorarem a
mencionar o Espaço Maku dentre outras falhas dessa dublagem.
Ainda
que tenha contado com um ótimo elenco como Márcio Seixas que muita gente
assimila a voz do Batman como narrador, o saudoso Orlando Prado(1928-1999) como
a primeira voz do protagonista, que logo foi substituída pelo Marco Ribeiro,
que captou bem melhor a essência do protagonista.
Fora
Miriam Fisher dublando a Mimi, que conseguiu bem captar a sua essência dócil e
mansa, assim como alguns falecidos como: Waldyr Santana(1936-2018) muito
lembrado como a primeira voz do Homer Simpson dos Simpsons, dublando o Sandorba, Leonardo José(1943-2021) fez um
desempenho incrível dublando o Caçador
Maligno, Sônia Ferreira(1941-2003) que dublou a Bruxa Kiba onde conseguiu
captar bem sua essência amedrontadora
principalmente na maneira de falar caricatamente aguda em falsete com uma risada sinistra e não
só essa como também dublava os disfarces femininos das assistentes dos monstros
da Maku, Ionei Silva(1942-2013) que assumiu a segunda voz do Kojiro a partir do
episódio 14, no lugar de Carlos Seidl, que dublou esse mesmo personagem entre
os episódios 1 ao 13. Esse segundo conseguiu melhor captar a essência cômica
paspalha e um tanto medíocre do Kojiro.
Assim
como vale menção aos nomes também saudosos de Dário de Castro(1943-2021) na voz
do Comandante Kom que conseguiu bem captar a essência empoderada que o
personagem transmitia e de Cleonir dos Santos(1944-1998) que dublou o sobrinho
excêntrico de Kojiro que apareceu unicamente num episódio já na reta final.
Vale
mencionar a participação de Oberdan Júnior que dublou o Den Igan/Sharivan nos
episódios finais da série.
Enfim, posso concluir que ao revisitar Gavan dá para entender o porquê de sua
importância no meio do tokusatsu e do seu legado se estender até hoje passados
mais de 40 anos, ainda mais quando a gente lembra que ele deu início a uma nova
franquia para a Toei poder investir no ramo de brinquedos, principalmente
quando analisamos que naquele contexto do começo da década de 1980 eles só
tinham Super Sentai que já estava uma
marca consolidada para vender brinquedos e Kamen
Rider andava num hiato.
Ainda
que entre nós brasileiros ele não fez
esse sucesso todo. Diversos fatores podem explicar o porquê de Gavan não figurar tanto na memória
afetiva da maioria dos brasileiros: Primeiramente, quando a série chegou aqui
no Brasil, já chegou tardiamente depois que Jaspion,
que foi a quarta produção da franquia Metal
Hero que sucedeu a Sharivan e Shaider que compõe a trilogia dos Policiais do Espaço
junto a Gavan, havia
chegado primeiro pelas mãos de Toshihiko Egashira, o dono da distribuidora
Everest Video, que trouxe junto a seu pacote a série do Esquadrão Relâmpago Changeman(Degenki Sentai Changeman, Japão,
1985-1986) que exibiu na Manchete no Programa Clube da Criança em Fevereiro de
1988.
E
quando Egashira trouxe as séries, começou também a trabalhar todo o esquema
logístico para licenciar os produtos dos brinquedos.
Depois
que Jaspion conquistou um boom
comercial com a venda de brinquedos, foram vindo uma safra de outras produções
em sequência, alguma dessas trazidas por concorrentes como Top Tape, Oro Filmes
e a Sato Company.
A
polêmica Oro Filmes foi uma distribuidora, com braços na Europa e no Brasil,
que ficou famosa por trazer importantes séries e filmes de tokusatsu (produções
japonesas com efeitos especiais) para a TV aberta brasileira no início dos anos
90. Ela foi responsável por trazer três séries de
tokusatsu que foram exibidas na Bandeirantes em 1990 que foram: Gigantes Guerreiros Google Five(Dai
Sentai Google Five, 1982-1983), Detetive
Espacial Sharivan(1983-1984) e Machineman(1984-1985).
Dessas
três, a série Google Five*** que
compõe a franquia Super Sentai, foi lançada no Japão em 1982, mesma data que Gavan foi exibido originalmente.
Por
ser uma produção que antecedeu a Jaspion,
em comparação com as séries que a Manchete vinha exibindo depois do
fenômeno de Jaspion, sua qualidade de
produção era vista como inferior para nós brasileiros, parecendo um retrocesso.
Fora que para piorar como a sua distribuição
não veio diretamente do Japão, mas do material italiano trazido pela Oro
Filmes, ainda mais pelo fato da distribuidora ser italiana. Por conta disso, “a dublagem brasileira foi feita por cima da
dublagem italiana. Por isso, a dublagem teve problemas na sua sonorização pois
as fitas utilizadas pela Itália não possuíam efeitos sonoros e músicas de
fundo, já que esses haviam sido perdidos no transporte e manuseio.”(Fonte:
Dublapédia)
Já
Sharivan foi a sucessora de Gavan, mas estreou primeiro, onde veio
no mesmo pacote da Oro Filmes que lançou na Bandeirantes, nessa série nós fomos apresentados ao Gavan primeiro como o comandante-mentor de Sharivan, e como sua dublagem foi feita no extinto estúdio paulista
da Álamo, a mesma responsável por
todas as produções de tokusatsu que passaram na Manchete e até mesmo Google Five, na dublagem paulista onde o
herói dublado pelo saudoso Carlos Laranjeira(1956-1993) que mostrava ele ser
referenciado como Gyaban, o que já
gerou uma confusão para nós brasileiros.
Principalmente
quando Gavan mesmo estreou na grade
de programação da Globo a partir de Março de 1991, sendo exibido na Sessão Aventura, onde como o estúdio
escolhido para dublar foi o já mencionado estúdio carioca da VTI, Rio. Por conta da falta da
padronização das vozes nos acostumamos a ouvir Sharivan sendo dublado pelo Élcio Sodré, o mesmo que dublou o
protagonista Issamu Minami em Kamen Rider
Black e com a voz do Oberdan Júnior nessa participação sua em Gavan.
O
mais doido é quando a Globo exibiu outra série tokusatsu que se conecta a Gavan, que é o Policial do Espaço Shaider(Uchuu Keiji Shaidá, Japão, 1984-1985),
que é a última da trilogia dos Policiais do Espaço, onde sua dublagem ocorreu
em outro estúdio de dublagem carioca, a Herbert Richers, onde tivemos outra
troca de vozes de alguns personagens de Gavan que estão em Shaider. Quem dublou a voz do Comandante Kom em Shaider foi o saudoso Jomeri
Pozzolli(1928-2014), o mesmo que em Gavan
foi dublado por Dário de Castro e em Sharivan
foi dublado por Luiz Antônio Lobue na dublagem da série produzida no estúdio
paulista da Álamo e o Kojiro que em Gavan passou por duas vozes, em Sharivan foi dublado por Oswaldo
Boaretto(1956-2006) e em Shaider foi
dublado por Garcia Júnior.
Por
conta da confusão que levou a soletração do seu nome, que não foi a primeira
escolha até decidirem por Gavan, que
foi inspirado no nome do ator francês Jean Gabin(1904-1976), onde por conta da
complexidade que o idioma japonês tem em adequar uma palavra de origem estrangeira a sonoridade escrita em takakaná
que é o ideogramático nipônico, e como o idioma japonês não tem uma sonoridade
da letra V e é confundido com a sonoridade da letra B isso criou ainda mais confusão, ainda mais que apesar de ser oficialmente
grafado como Gavan eles pronunciam Gyaban, e para ficar ainda mais confuso esse
nome também tem uma variação escrita com V Gavin. Resumindo por toda essa
confusão de adaptação do nome fez com que Gavan
não figurasse tanto na nossa memória, que só piora quando a gente lembra que o
nome com que ele veio distribuído foi como Space
Cop
Fosse
porque não houve uma preocupação mercadologica, fosse porque quando a série
chegou os tokusatsu já não tinham mais fôlego estavam saturados
mercadologicamente falando.
Ainda
assim, Gavan tem o seu nível de
grande importância para a série do tokusatsu.




















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