segunda-feira, 25 de maio de 2026

O PRIMEIRO METAL HERO: POLICIAL DO ESPAÇO GAVAN(1982-1983)

 

Outro dia   eu conclui de assistir a série do Policial do Espaço Gavan( Uchuu Keiji Gaban, 1982-1983) no YouTube no canal Tokusato da Sato Company com os 44 episódios completos.




Em memória ao ator Kenji Ohba(1955-2026) que faleceu no último dia 6 de Maio. Eu tenho uma vaga lembrança de quando eu assisti Gavan a primeira vez passando na Globo em 1991, na época eu era moleque, devia ter uns seis anos.




Cheguei a assistir uns poucos episódios, portanto, eu não tenho essa memória afetiva tão próxima como o que eu tenho com relação a Jaspion.




Que não por acaso faz parte da mesma franquia metal hero que começou com Gavan e agora que estão produzindo uma nova série inspirada em Gavan, que é Gavan Infinity.




 Ao revisitar, pude entender bem o porquê do seu nível de importância dentro do universo do tokusatsu. E do quanto que até hoje ela é tão aclamada pelos japoneses.

Pelo que posso avaliar entre os pontos positivos e negativos sobre essa série é que assim: De positivo, a produção mostrou um ótimo trabalho na estrutura do roteiro ao modelar bem a jornada heroica do protagonista.



O seu roteiro contou com a assinatura de sete roteiristas, dentre estes sete estava Shozo Uehara(1937-2020) que foi o responsável por assinar o roteiro de Jaspion posteriormente, contou com a direção de cinco diretores, dentre esses diretores estava Yoshiaki Kobayashi que futuramente dirigiu Jaspion e outras séries do gênero tokusatsu que passaram aqui no Brasil como Kamen Rider Black.






Cuja estrutura narrativa é bem batida desse gênero, principalmente ao mostrar o herói após ser treinado pela polícia espacial vem a Terra para protege-la da ameaça da organização criminosa espacial Maku, contando com o auxílio da Mimi em um laboratório, em paralelo ele consegue um emprego no Haras da Família Fuji, e lida com a dinâmica de a cada episódio enfrentar as ameaças de Maku  enviando um monstro para dominar a humanidade e Gavan precisa impedir os destruindo com o golpe de sua espada laser, ou mesmo se o monstro fica gigante conta com o auxílio de seu mecha em forma de dragão Dolu.





Isso é algo que as produções das franquias de Kamen Rider e Super Sentai já costumavam explorar muito dessa dinâmica.

Portanto, apesar de não ser nada inovador para o gênero de série tokusatsu especificamente falando, pelo menos o roteiro conseguiu ser bem atrativo, muito disso graças ao bom desempenho de Kenji Ohba como protagonista, que é um ponto positivo importante, ainda mais que quando ele foi escalado para o papel, ele já não era tão novato no gênero apesar da pouca idade, estava só com 27 anos quando estrelou o papel principal. Ele já havia protagonizado duas séries super sentai que foram: Battle Fever J.(Japão, 1979-1980) onde fez o Battle Kenya  e Denshi Sentai Denziman(1980-1981) onde fez o Denzi Blue.






Isso fora suas participações não-creditadas por trás das fantasias de monstros como dublê.

Ele em cena conseguiu transmitir um bom carisma que esse personagem necessitava, principalmente em momentos mais descontraídos e também na habilidade coreográfica das cenas de luta.

Não só Ohba brilha em cena, como também brilham na série o saudoso Toshiaki Nishizawa(1936-2013) como o Comandante Kom com quem Gavan faz contatos por meio de um monitor para pedir um auxilio investigativo.



 Outros que brilham e que merecem menção são: Wakiko Kano que faz um brilhante desempenho como a Mimi, uma assistente de Gavan na Terra, o saudoso Jun Tatara(1917-2006) na pele do Gosuke Fuji, dono do haras onde o herói trabalha faz uma excelente representação divertida do papel com seu ar ranzinza, Masayuki Suzuki que faz um excelente desempenho como o alivio cômico do Kojiro, um abobalhado parceiro de Gavan que nutre uma obsessão por UFOs.




Assim como Michiru Iida que brilha na pele do Caçador Maligno, que é o subalterno do Don Hollar, o comandante da Maku, Ken Nishida na pele do Sandorba, o Príncipe de Maku, fora as participações de Hiroshi Miyauchi que fez o Alan nos episódios 30 e 31, que nós brasileiros o conhecemos pelo papel do Chefe Masaki em Winspector (1990) e Solbrain (1991) que passaram na extinta Rede Manchete na segunda metade dos anos 1990.




 O saudoso Sonny Chiba(1939-2021)* na pele do Voicer, o pai de Gavan, da Princesa Tenko, uma famosa ilusionista do Japão que apareceu no episódio 29 que posteriormente ganhou uma série animada produzida pela americana Saban que passou aqui no Brasil na Globo com o nome de Tenko e os Guardiões da Mágica ali por volta da segunda metade dos anos 1990.



 
A personagem desse desenho inspirado na mágica real 
fez uma participação no episódio de Gavan. 


Fora outras participações especiais que dão um bom fortalecimento como ponto positivo para Gavan, como a participação de Hiroshi Watari sendo introduzido nos últimos episódios como Den Igan que se torna o Sharivan, virando uma forma para atrair a série posterior Detetive Espacial Sharivan(Uchuu Keiji Sharivan, Japão, 1983-1984), série que passou aqui no Brasil na Bandeirantes em 1990.



  Assim como sua trilha sonora incidental que contou com a assinatura do saudoso Chumei Watanabe(1925-2022) que assinaria a trilha sonora de Jaspion e sua abertura e encerramento cantada por Akira Kushida é o que dá um charme a mais a série.

 


Já com relação aos pontos negativos sobre  a série, envolve o fato de que como ela  segue a formula típica das produções de tokusatsu dos seus episódios seguirem a dinâmica do herói encarar a nova ameaça de Maku com o monstro do dia, ele precisa eliminar essa ameaça com seus golpes de espada ou mesmo recorrendo ao seu mecha dragão Dolu. Esse segmento vai chegando uma hora que o negócio fica cansativo a ponto da série terminar por girar muito em círculos.

A coisa só vai  mudando um pouco de sair dessa estafa quando eles tiram de cena no episódio 30 o Caçador Maligno que Maku  o joga para o espaço após Don Holler descobrir sua tentativa de traição e entra em cena  Sandorba e sua mãe Bruxa Kiba onde com os seus poderes vão gerando um aumento maior no desafio para Gavan e o Caçador Maligno só retorna no episódio 42 já enfraquecido e morrendo dá a informação sobre o pai de Gavan.




Pior mesmo é quando ocorre a ausência da Mimi entre os episódios 30 a 42 que na história é explicado que ela precisou retornar ao Planeta Bird para cuidar de sua mãe doente, já quanto as razões reais que levaram a produção a tomar essa decisão são desconhecidas. A ausência da Mimi deixou um vácuo que acabou sendo preenchido quando foi colocada a Marin, vivida pela atriz Kyoko Nashiro, que era a assistente do Comandante Kom e passou a substituir a Mimi e a auxiliar Gavan aqui em sua base na Terra.




Uma decisão até certo ponto acertada, seguindo pela lógica da conveniência do roteiro ainda que gere uma estranheza, principalmente pelo fato de que como a Mimi tinha uma habilidade de se transformar num pássaro amarelo, onde ela as vezes mostrava aptidão em colaborar com Gavan nas suas missões em campo, coisa que com a Marin não dá para sentir o mesmo, ela se mostra um tanto jogada e até um tanto rasa no roteiro.

Agora o grande ponto negativo com relação a nós brasileiros está no fato de que sua dublagem feita no extinto estúdio carioca da VTI Rio** que passava na Rede Globo mostra-se de uma qualidade um tanto quanto questionável para se dizer o mínimo, principalmente quando há trechos que repentinamente aparece a voz original.




Ou mesmo quando não há sincronia da voz do locutor com a leitura do letreiro. Ou mesmo, eles terem mudado o nome do Caçador Maligno para Matador, o que ficou estranho, ou mesmo as confusões com as soletrações dos nomes ou mesmo eles demorarem a mencionar o Espaço Maku dentre outras falhas dessa dublagem.

Ainda que tenha contado com um ótimo elenco como Márcio Seixas que muita gente assimila a voz do Batman como narrador, o saudoso Orlando Prado(1928-1999) como a primeira voz do protagonista, que logo foi substituída pelo Marco Ribeiro, que captou bem melhor a essência do protagonista.

Fora Miriam Fisher dublando a Mimi, que conseguiu bem captar a sua essência dócil e mansa, assim como alguns falecidos como: Waldyr Santana(1936-2018) muito lembrado como a primeira voz do Homer Simpson dos Simpsons, dublando o Sandorba, Leonardo José(1943-2021) fez um desempenho incrível  dublando o Caçador Maligno, Sônia Ferreira(1941-2003) que dublou a Bruxa Kiba onde conseguiu captar  bem sua essência amedrontadora principalmente na maneira de falar caricatamente aguda em falsete  com uma risada sinistra   e não só essa como também dublava os disfarces femininos das assistentes dos monstros da Maku, Ionei Silva(1942-2013) que assumiu a segunda voz do Kojiro a partir do episódio 14, no lugar de Carlos Seidl, que dublou esse mesmo personagem entre os episódios 1 ao 13. Esse segundo conseguiu melhor captar a essência cômica paspalha e um tanto medíocre do Kojiro.

Assim como vale menção aos nomes também saudosos de Dário de Castro(1943-2021) na voz do Comandante Kom que conseguiu bem captar a essência empoderada que o personagem transmitia e de Cleonir dos Santos(1944-1998) que dublou o sobrinho excêntrico de Kojiro que apareceu unicamente num  episódio já na reta final.

Vale mencionar a participação de Oberdan Júnior que dublou o Den Igan/Sharivan nos episódios finais da série.

 Enfim, posso concluir que ao revisitar Gavan dá para entender o porquê de sua importância no meio do tokusatsu e do seu legado se estender até hoje passados mais de 40 anos, ainda mais quando a gente lembra que ele deu início a uma nova franquia para a Toei poder investir no ramo de brinquedos, principalmente quando analisamos que naquele contexto do começo da década de 1980 eles só tinham Super Sentai que já estava uma marca consolidada para vender brinquedos e Kamen Rider andava num hiato.

Ainda que entre nós brasileiros  ele não fez esse sucesso todo. Diversos fatores podem explicar o porquê de Gavan não figurar tanto na memória afetiva da maioria dos brasileiros: Primeiramente, quando a série chegou aqui no Brasil, já chegou tardiamente depois que Jaspion, que foi a quarta produção da franquia Metal Hero que sucedeu a Sharivan e Shaider  que compõe a trilogia dos Policiais do Espaço junto a Gavan,   havia chegado primeiro pelas mãos de Toshihiko Egashira, o dono da distribuidora Everest Video, que trouxe junto a seu pacote a série do Esquadrão Relâmpago Changeman(Degenki Sentai Changeman, Japão, 1985-1986) que exibiu na Manchete no Programa Clube da Criança em Fevereiro de 1988.

E quando Egashira trouxe as séries, começou também a trabalhar todo o esquema logístico para licenciar os produtos dos brinquedos.

Depois que Jaspion conquistou um boom comercial com a venda de brinquedos, foram vindo uma safra de outras produções em sequência, alguma dessas trazidas por concorrentes como Top Tape, Oro Filmes e a Sato Company.

A polêmica Oro Filmes foi uma distribuidora, com braços na Europa e no Brasil, que ficou famosa por trazer importantes séries e filmes de tokusatsu (produções japonesas com efeitos especiais) para a TV aberta brasileira no início dos anos 90.  Ela foi responsável por trazer três séries de tokusatsu que foram exibidas na Bandeirantes em 1990 que foram: Gigantes Guerreiros Google Five(Dai Sentai Google Five, 1982-1983), Detetive Espacial  Sharivan(1983-1984) e Machineman(1984-1985).

Dessas três, a série Google Five*** que compõe a franquia Super Sentai, foi lançada no Japão em 1982, mesma data que Gavan foi exibido originalmente.




Por ser uma produção que antecedeu a Jaspion, em comparação com as séries que a Manchete vinha exibindo depois do fenômeno de Jaspion, sua qualidade de produção era vista como inferior para nós brasileiros, parecendo um retrocesso.

 Fora que para piorar como a sua distribuição não veio diretamente do Japão, mas do material italiano trazido pela Oro Filmes, ainda mais pelo fato da distribuidora ser italiana. Por conta disso, “a dublagem brasileira foi feita por cima da dublagem italiana. Por isso, a dublagem teve problemas na sua sonorização pois as fitas utilizadas pela Itália não possuíam efeitos sonoros e músicas de fundo, já que esses haviam sido perdidos no transporte e manuseio.”(Fonte: Dublapédia)

Sharivan foi a sucessora de Gavan, mas estreou primeiro, onde veio no mesmo pacote da Oro Filmes que lançou na Bandeirantes, nessa série nós fomos apresentados ao Gavan primeiro como o comandante-mentor de Sharivan, e como sua dublagem foi feita no extinto estúdio paulista da Álamo, a mesma responsável por todas as produções de tokusatsu que passaram na Manchete e até mesmo Google Five, na dublagem paulista onde o herói dublado pelo saudoso Carlos Laranjeira(1956-1993) que mostrava ele ser referenciado como Gyaban, o que já gerou uma confusão para nós brasileiros.

Principalmente quando Gavan mesmo estreou na grade de programação da Globo a partir de Março de 1991, sendo exibido na Sessão Aventura, onde como o estúdio escolhido para dublar foi o já mencionado estúdio carioca da VTI, Rio. Por conta da falta da padronização das vozes nos acostumamos a ouvir Sharivan sendo dublado pelo Élcio Sodré, o mesmo que dublou o protagonista Issamu Minami em Kamen Rider Black e com a voz do Oberdan Júnior nessa participação sua em Gavan.

O mais doido é quando a Globo exibiu outra série tokusatsu que se conecta a Gavan, que é o Policial do Espaço Shaider(Uchuu Keiji Shaidá, Japão, 1984-1985), que é a última da trilogia dos Policiais do Espaço, onde sua dublagem ocorreu em outro estúdio de dublagem carioca, a Herbert Richers, onde tivemos outra troca de vozes de alguns personagens de Gavan que estão em Shaider. Quem dublou a voz do Comandante Kom em Shaider foi o saudoso Jomeri Pozzolli(1928-2014), o mesmo que em Gavan foi dublado por Dário de Castro e em Sharivan foi dublado por Luiz Antônio Lobue na dublagem da série produzida no estúdio paulista da Álamo e o Kojiro que em Gavan passou por duas vozes, em Sharivan foi dublado por Oswaldo Boaretto(1956-2006) e em Shaider foi dublado por Garcia Júnior.

Por conta da confusão que levou a soletração do seu nome, que não foi a primeira escolha até decidirem por Gavan, que foi inspirado no nome do ator francês Jean Gabin(1904-1976), onde por conta da complexidade que o idioma japonês tem em adequar uma palavra de origem  estrangeira a sonoridade escrita em takakaná que é o ideogramático nipônico, e como o idioma japonês não tem uma sonoridade da letra V e é confundido com a sonoridade da letra  B isso criou ainda mais  confusão, ainda mais que apesar de ser oficialmente grafado como Gavan eles pronunciam Gyaban, e para ficar ainda mais confuso esse nome também tem uma variação escrita com V Gavin. Resumindo por toda essa confusão de adaptação do nome fez com que Gavan não figurasse tanto na nossa memória, que só piora quando a gente lembra que o nome com que ele veio distribuído foi como Space Cop

Fosse porque não houve uma preocupação mercadologica, fosse porque quando a série chegou os tokusatsu já não tinham mais fôlego estavam saturados mercadologicamente falando.

Ainda assim, Gavan tem o seu nível de grande importância para a série do tokusatsu.

*Kenji Ohba e Sonny Chiba voltaram a contracenarem juntos na produção hollywoodiana Kill Bill Volume 1(2003) do cineasta Quentin Tarantino.

** A VTI Rio (Vídeo Interamericana) foi um lendário estúdio de dublagem brasileiro fundado por Victor Berbara(1928-2021). Fundada em 1960 como distribuidora de filmes, tornou-se estúdio de dublagem em 1968. Conhecida por usar um elenco mais restrito e focado em profissionais contratados, além de ter dublado grandes sucessos como Forrest Gump e Um Príncipe em Nova York. Fechou suas portas em 2008. Em 2025, o canal FREQ-Leone do Youtube sobre essa empresa de dublagem suas polêmicas relações trabalhistas com alguns dubladores no vídeo intitulado VTI Rio: um legado controverso na dublagem.

***Google Five contou em seu elenco com as participações de três atores que integraram o elenco de Jaspion, os três em questão são: Junich Haruta que co-protagonizou a série como o Kuroda/Google Black em Jaspion faria o MacGaren que não por acaso usava um uniforme preto, o falecido Noburu Nakaya (1929-2006) que em Google Five fez o mentor do grupo Professor Hongo e em Jaspion fez o mentor do herói, o Profeta Edin e Toshimichi Takaishi que em Google Five representou o Desguiler, o subalterno da Desdark que em Jaspion fez o Ikki. Outro ponto curioso que conecta Google Five a Jaspion é que sua trilha incidental conta com a assinatura de Chumei Watanabe(1925-2022), o mesmo que assinou a trilha de Gavan e Jaspion e que sua dublagem foi feita no extinto estúdio paulista da Álamo.


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