Em
02 de Março de 1996, o Brasil acompanhou a triste notícia do acidente aéreo que
tirou a vida de todos os integrantes do irreverente conjunto musical Mamonas Assassinas, e
para lembrar essa data vou aqui comentar sobre duas obras que abordam sobre a
importância cultural desse conjunto que surgiu bem fora da curva.
As
duas obras em questão tratam-se de Mamonas Pra Sempre(Brasil,2009) e Mamon
as
Assassinas-O Filme(Brasil, 2023).
No
documentário Mamonas Pra Sempre, obra que tem a direção e produção de
Claudio Kahns e com roteiro assinado por Diana Zatz Muss com produção da Tatu
Filmes, aborda a trajetória do conjunto
musical daquela forma bem descontraída com os depoimentos dos familiares, o
depoimento de Rick Bonadio, o depoimento da noiva de Dinho, as imagens de
arquivos pessoais mostrando as primeiras apresentações do conjunto com o nome
de Utopia, ocorrido no programa de Savério Zacaninni, algo que torna
bastante enriquecedor para a obra, servindo bem para explicar como se deu o
contexto do surgimento do grupo cuja curta carreira marcou gerações que vale a
pena assistir, principalmente para as gerações mais novas entenderem o que eles
simbolizaram para a minha geração daquela segunda metade dos anos 1990 que era
visto como improvável.
Já
quanto a cinebiografia Mamonas Assassinas-O Filme, já não posso dizer a
mesma coisa. Com roteiro de Carlos Lombardi e direção de Edson Spinello, ambos
nomes que construíram suas carreiras na televisão dirigindo e escrevendo novelas. Com produção da Total Entermainemnt
em coprodução com a Mamonas Produções que é a detentora da marca e com a Claro.
A
produção dessa cinebiografia levou anos para sair do papel, a começar pelo fato
de que inicialmente o cérebro por trás do projeto, Carlos Lombardi havia apresentado
para ser uma minissérie para a Rede Record prevista para ser lançada em 2016, ano que
lembrou os vinte anos da trágica morte
do quinteto.
Acontece
que, no percurso houveram muitos empecilhos que resultou no cancelamento do
projeto como bem descreve esse trecho sobre o filme tirado da Wikipédia:
“Em
março de 2016, a Record anunciou que estava produzindo uma minissérie
televisiva sobre a banda de rock Mamonas Assassinas
intitulada Mamonas Assassinas - A Série, com produção da
empresa "OSS Produções", e que sua estreia estava prevista para julho
do mesmo ano. O ano de 2016 foi escolhido por marcar os 20 anos do trágico
acidente que vitimou a banda. Meses depois de anunciar a série, contudo, a
emissora cancelou as gravações, alegando não ter verba para dar continuidade ao
projeto, uma vez que a produção não foi aprovada pela Ancine e, com isso, não
conseguiu captar os recursos necessários para realizar a minissérie.
Porém,
conforme relatou o jornal O Globo, o motivo teria sido outro. A reportagem diz
que, por pressão das famílias dos músicos, várias cenas que não aconteceram na
vida real e incomodaram muito as famílias tiveram que ser cortadas do roteiro.
Uma
delas mostraria os integrantes da banda assaltando um posto de gasolina para
conseguir dinheiro para lançar um CD. Em outra, o pai do vocalista Dinho
trairia a esposa com a mulher do prefeito de São Paulo.
Por
conta disso, a Fox, que planejava exibir a série de cinco capítulos tão logo a Record
concluísse a veiculação, abandonou o projeto. Elenco e equipe técnica também
acabaram dispensados.
Até
2018, nada mais se falou a respeito da minissérie, quando finalmente a Record se
pronunciou informando que o projeto havia sido retomado. Por conta do imbróglio
com as famílias, passagens da vida pessoal dos músicos, sem comprovação ou
irrelevantes para o enredo, acabaram suprimidas. Em maio, segundo a coluna do
Flávio Ricco no UOL, o novo enredo do autor Carlos Lombardi foi aprovado
pela emissora paulista e pela Total Filmes (a nova produtora e parceira do
projeto).
Inicialmente,
será uma série em cinco capítulos que, depois, compactada, dará origem a um
filme. Um novo elenco terá que ser escolhido, uma vez que parte dos
autores anteriormente escalados já assumiu novos compromissos. Em 30 de
janeiro de 2023 a Record iniciou as gravações em Guarulhos,
município na Região Metropolitana de São Paulo.”
O
que isso terminou resultando em algumas mudanças na formação do elenco
principal, que quando foram anunciados
em abril de 2016 para compor a minissérie. Três atores que já os representavam no teatro
na peça Mamonas Assassinas-O Musical como Ruy Brissac para virar o Dinho(1971-1996),
Elcion Bozanni para ser Samuel Reoli(1973-1996) e Adriano Tunes para ser Júlio
Rasec(1968-1996), fora que também eles chegaram a escalar Vinicius de Oliveira
para o papel de Sérgio Reoli(1969-1996) e Beto Hinoto para viver Bento Hinoto(1970-1996).
Dessa
escalação inicial para a minissérie foram mantidos os nomes de Ruy Brissac que
foi mantido no papel de Dinho, Beto Hinoto foi mantido para viver Bento Hinoto,
Adriano Tunes que primeiramente era para ser Júlio Rasec ficou com o papel de
Samuel Reoli e quem assumiu os papeis de
Julio Rasec foi Robson Lima e Sérgio Reoli foi de Rhener Freitas.
O
fato curioso é que Beto Hinoto é sobrinho
do guitarrista Bento Hinoto que o representa no filme.
Ele
não chegou a conviver com o tio famoso, já que Beto nasceu dois anos após a
trágica morte do tio no acidente aéreo na Serra da Cantareira-SP que também
tirou a vida dos seus colegas de banda.
“—
Sinto uma energia muito forte do meu tio. Sempre antes de entrar no palco,
tento canalizar isso. Peço proteção, rezo e agradeço pelas oportunidades. Até
porque, se não fosse ele, eu não estaria fazendo esse papel — destaca Beto.”
(Retirado
da postagem É Extraordinário do Facebook de 30 de Outubro de 2025).
Diversos
fatores fazem com que na época quando foi
lançado tenha recebido uma recepção
negativa da crítica e pelo que pude constatar com meus próprios olhos ao
conferir no ano passado chegando na Netflix.
Um
deles é o fato do roteiro se mostrar um tanto corrido, apressado, sem dar tempo
de desenvolver a narrativa.
Junte
isso ao fato da qualidade da produção se mostrar minimamente questionável,
ainda mais com o roteiro escrito por
Lombardi que na sua longa carreira de roteirista na televisão quando escreveu
novelas na Rede Globo ao longo dos 30 anos em que foi contratado tais como: Vereda
Tropical(1984-1985), Bebê a Bordo(1988-1989), Perigosas Peruas(1992),
Quatro por Quatro(1994-1995), Vira-Lata(1996), Uga Uga(2000-2001),
a minissérie O Quinto dos Infernos(2002), Kubanacan(2003) e Pé
na Jaca(2006-2007). Ele também roteirizou alguns trabalhos para cinema
entre estes segundo consta em seu currículo no IMDB são: Um Trem para as
Estrelas(Brasil, 1987) do diretor Cacá Diegues(1940-2025) e também consta
que ele foi o colaborador nos roteiros dos filmes Zoando na TV(Brasil,
1999) uma produção de comédia paródica a tv, estrelada pela popular apresentadora
infanto-juvenil Angélica Ksyvickis e contou com a direção de José Alvarenga
Júnior e a comédia romântica Mais uma vez Amor(Brasil, 2005) que contou
com a direção da americana naturalizada brasileira Rosane Svartman que
posteriormente faria carreira na televisão escrevendo novelas na Globo.
Quem
assim como eu cresceu assistindo algumas novelas mencionadas de Carlos
Lombardi, deve bem saber que o seu estilo de estética é um tanto quanto
peculiar que fugia ao modelo folhetinesco tradicional de escrever novela por
assim dizer, que dividiu muito as opiniões, agradava a uns e desagradava a
outros.
O
seu humor era caracterizado pelo estilo caótico e anárquico, que na descrição
do seu perfil no site Teledramaturgia do jornalista Nilson Xavier, o seu estilo peculiar de escrita se
caracterizava “em uma linguagem cheia de ação, humor e diálogos sarcásticos.”
Ele
costumava trabalhar em seus enredos num
ritmo acelerado e frenético principalmente ao trabalhar com
cenas que envolviam pancadaria, tiroteio e correria.
Esse
tipo de adrenalina em suas novelas as que
faziam se aproximarem de uma linguagem
cinematográfica dos filmes de ação mesclado a linguagem das histórias em
quadrinhos de super-heróis.
Do
mesmo modo, o seu texto se caracterizava pelo estilo irreverente e porquê não
dizer excêntrico dos diálogos
sarcásticos dos personagens quando se envolviam situações corriqueiras pelo tom do deboche cínico do moralismo hipócrita da sociedade brasileira
bem escancarado. Ainda mais quando
apelava para erotismo masculino com seus protagonistas sem camisa mostrando os
corpos sarados e peitorais.
Por
toda essa descrição sobre o roteirista do filme, dá para se compreender o que
levou em muitos aspectos o filme a desagradar tanto a crítica, fora que não
ajuda o fato de que como a direção de Edson Spinello que sempre acumulou mais
trabalhos na televisão dirigindo, a coisa só piora, ainda mais por sua
inexperiência em dirigir cinema.
Além
do que, o filme também apresenta os mesmos vícios que eu destaquei que é bem
característico do estilo lombardiano, principalmente nos diálogos sarcásticos,
nos momentos que mostram os protagonistas sem camisa, e fora que tentando
seguir algumas convenções narrativas, a obra explora um conflito dos irmãos
Sérgio e Samuel quando este se envolve com uma interesseira dentre outros
problemas.
Posso
concluir que entre a cinebiografia e o documentário, vale mais a pena assistir ao documentário. Se quem não
assistiu a cinebiografia, mas mesmo depois de tudo o que descreve de defeitos
que ele apresenta, mesmo assim por curiosidade você vai querer conferir, posso
recomendar que assista e tire você mesmo suas próprias conclusões.
No
passar desses 30 anos após a trágica morte do conjunto musical, seus familiares
pais e irmãos passaram a cuidarem da memória e da marca Mamonas Assassinas,
para manter preservado a memória deles.
Alguns
deles partiram recentemente como a mãe do baterista Sérgio Reoli e do
guitarrista Samuel Reoli, Dirice Reis de Oliveira(Dona Nena) que faleceu em
fevereiro de 2024 após conferir ao
lançamento do filme. E no ano passado
partiu Toshiko Hinoto, mãe do baixista Bento Hinoto, ela já tinha 100 anos.
COMO
COMPLEMENTO:
Além desses também citar outras obras audiovisuais interessantes sobre o conjunto que valem dar uma conferida.
Um desses é no episódio da série da Globo Por Toda
Minha Vida(2006-2011), que começou como um especial de final de ano em 2006
se dedicando a Elis Regina(1945-1982) e em 2007 passou a ser um programa fixo
na emissora que de mês em mês dedicava um programa focado num artista musical,
sempre com apresentação e narração de Fernanda Lima, que trazia uma estética de
docudrama onde os depoimentos das pessoas que ela entrevistava eram intercalados com as dramatizações que são creditados a
diferentes diretores importantes da casa encarregados de dirigir cada episódio como: João
Jardim, Rogério Gomes, Ricardo Waddington, Paulo Silvestrini, Pedro
Vasconcelos, Alexandre Ishikawa, José Luiz Villamarim, Fabricio Mamberti, Luiz
Henrique Rios dentre outros, do mesmo modo como os roteiros de cada episódio
conta com crédito de diferentes roteiristas e no episódio especifico dedicado aos Mamonas
Assassinas que foi originalmente exibido no dia 10 de Julho de 2008, o roteiro
do episódio é creditado a Maria Camargo e a direção é de José Luiz Villamarim. Aqui
pelo menos o trabalho de dramatização em comparação a cinebiografia foi bem melhor trabalhado e com uma qualidade
técnica melhor apurada.
Outro
complemento a ser citado é o documentário da extinta MTV Brasil(1990-2013) MTV
na Estrada: Mamonas Assassinas(Brasil, 1996) registrando e acompanhando a jornada irreverente conjunto
musical do deboche Mamonas Assassinas cujas “gravações acompanhariam os Mamonas
em alguns shows realizados no Rio Grande do Sul. O programa mostrou trechos dos
shows, além de mostrar os Mamonas fora dos palcos e também entrevistou cada
integrante(dessa vez com eles falando sério rs).”
(Trecho
retirado da fanpage do Mamonas Assassinas do Facebook).
É
nesse documentário o curioso momento do
vocalista Dinho se dirigindo ao cinegrafista debochando do jato particular: “O avião quase caiu na
Floresta Amazônica devido a um radar quebrado e que o dia a seguir seria “uma
aventura.” .
Em
seguida, ele diz ao cinegrafista em forma de deboche que é típico dele:
“Eu
tenho uma boa e uma má noticia pra você que vai voar com a gente cameraman qual
que você quer primeiro?”
A
fala é interrompida repentinamente pela
aparição surpresa do tecladista Júlio
Rasec perguntando: “Você não é o Dinho dos Mamonas” e Dinho responde: “Eu era”.
E Júlio olha para a câmera e diz: “Oi”.
Então
Dinho volta a se dirigir para a câmera respondendo sobre o estado do jato:
“A
boa é que eles consertaram o radar”. E dando uma risada diz assim: “Quebrou de
novo”.
E
Dinho ainda acrescenta que o combustível não estava passando do reservatório
para o tanque com aquele ar todo debochado. E Júlio entra na situação dizendo:
“Quebrou de novo?”.
Esse
registro e a exibição desse documentário ocorreu em Fevereiro de 1996, pouco antes do fatídico acidente aéreo na
Serra da Cantareira em Santos-SP que tirou a vida dos cinco componentes do
conjunto musical no dia 2 de Março de 1996 depois que eles estavam retornando da última apresentação em Brasília e se preparando para a turnê internacional em
Portugal.
No
fatídico dia do acidente, esse momento pitoresco de Dinho foi bastante replicado pelas outras emissoras,
principalmente durante a cobertura da tragédia onde houve muita comoção
nacional e foi quando se criou até
alguma teoria conspiratória ligada a premonição, principalmente quando
entrevistaram a famosa vidente Mãe Dináh(1930-2014) que dizia pressentir sobre
a tragédia, ainda mais quando foi divulgado o vídeo caseiro do tecladista Júlio Rasec, filmado horas antes
dele ir se preparar para a última apresentação da turnê brasileira em Brasília.
Júlio
estava saindo do salão do qual era um cliente assíduo onde lá revelou para a
câmera do cabelereiro dono do salão em
um tom sério de preocupação do seu sonho premonitório: "parecia que o
avião caía". A trágica coincidência ocorreu na volta de Brasília para São
Paulo. Cerca
de 12 horas após o relato, o avião Learjet 25D colidiu na Serra da Cantareira,
vitimando todos os integrantes da banda, incluindo Júlio.
Jamais
houve um conjunto musical brasileiro igual aos Mamonas Assassinas, nem antes,
nem depois.








