sábado, 15 de março de 2025

O APRENDIZ-A JORNADA DE DONALD TRUMP COMO EMPREENDEDOR IMOBILÁRIO

 

Outro dia, assistindo ao mais recente  filme concorrente ao Oscar  de 2025, que é no caso   O Aprendiz(The Apprentice,EUA,Canadá,Irlanda, Dinamarca,  2024) após ser incluído no catálogo da Amazon Prime Video.





Confesso ter ficado impressionado com o tipo de abordagem a respeito dele que é um cara muito polêmico.

A primeira impressão que ele pode tender a causar a um expectador desavisado e que tenha caído de paraquedas é quanto ao fato da obra  tentar trazer uma mensagem de cunho político panfletário tendencioso com os ideais de extrema-direita de intolerância  social.




Toda cinebiografia que trata de protagonizar figuras politicas tender a gerar esse desconforto em tentar criar uma idealização romantizada de sua jornada heroica com ares de endeusamento exageradamente mitificado como se ele fosse destinado para tal coisa.

O que por incrível que pareça, no filme  O Aprendiz em nenhum momento procura criar essa atmosfera de endeusamento sobre Trump.




 Essa cinebiografia que conta com a direção do iraniano-dinamarquês Ali Abbasi, com roteiro de Gabriel Sherman, trata-se de uma produção independente contando com a colaboração da Dinamarca, Canadá e Irlanda, procura abordar e  explorar um pouco da fase de Trump, muito bem defendido pelo ator Sebastian Stan,  em sua ascensão na carreira de empresário do ramo imobiliário em Nova York entre os anos 1970 a 1980, seguindo os passos de seu pai Fred Trump(1905-1999) vivido magistralmente no filme por Martin Donovan, um empresário renomado nesse ramo com a empresa The Trump Organization.






Em nenhum momento a obra tenta ser panfletária em fazer apologia aos seus ideais autoritários, do mesmo jeito que procura não ser tendenciosa em criar um endeusamento de  mostrar como ocorreu sua carreira na política até chegar a comandar a Casa Branca como o atual  Chefe de Estado.

Mesmo porque ela apenas se preocupa em nos apresentar um recorte de sua vida apresentado a ascensão da sua carreira no ramo imobiliário.




Onde a gente pode bem conhecer como um bom estudo de personagem que pode explicar  sua postura autoritária e desprezível. É  uma obra sensacional em explorar um pouco do perfil repugnante que ele já demonstrava ter.  





Em especial mostrando a pessoa que foi seu grande mentor Roy Cohn(1927-1986), muito bem defendido no filme por Jeremy Strong, um polêmico advogado que esteve envolvido na acusação do   Caso do Casal Rosenberg em 1953 e que no filme ele esmiuça bem o nível da importância de como suas orientações levaram Trump  a se ascenderem no ramo empresarial do mercado imobiliário de Nova York naquele período dos anos 1970 a 1980, quando a Big Apple estava vivendo um caos urbano e sua ascensão ocorreu de uma forma muito desonesta, pisando em muita gente para conseguir os seus objetivos gananciosos dos seus empreendimentos. 




Podendo-se dizer que o filme mostrou bem como ele foi um bom  aprendiz do título que não por acaso, também foi o título de um programa de reality show de competição de empreendedorismo que ele comandaria por volta dos anos 2000, cujo formato foi importado para diversos países e aqui no Brasil se tornou popular sendo apresentado pelo empresário Roberto Justus, que eu acredito quem tem minha idade, com certeza deve ter tido o primeiro contato com o nome Trump por meio desse programa.




Ao mesmo tempo que também pincela  um retrato do quão escroto ele vivia em sua vida afetiva. Como nas cenas que mostram ele reunido com sua família, onde ouve umas poucas e boas  de seu pai, um sujeito autoritário e abusivo, que desprezava seu irmão mais velho Fred Trump Junior(1938-1981), por ter escolhido seguir a carreira de piloto da TWA em vez de comandar os negócios da família como Donald escolheu, que para ele  era a mesma coisa que viver como um pobretão e que seria a ponto de ser visto como um pária na família. Mostrando como ele herdou esse caráter tóxico do seu pai.  O  Fred Jr. é muito bem representado por Charlie Carrick que nos seus últimos anos de vida, após perder o emprego  caiu em desgraça no consumo de álcool que o levou a morte.




Ou mesmo quando ele vivia as turras com sua mãe Mary Anne MacLeod(1912-2000), uma imigrante escocesa, grande ironia sendo ele um sujeito xenófobo que é, no filme é    muito bem representada por Catherine McNally.

Também mostra a maneira como Trump  era um marido abusivo e muito violento com sua primeira esposa, a ex-modelo tcheca Ivana Zelníčková(1949-2022), ou seja, ele foi casado com uma imigrante, um  contraste se assim posso descrever  com sua postura de lei anti-imigratória em território americano.




Foi com essa que passou adotar o sobrenome de casada assinando como Ivana Trump, vivida no filme pela atriz búlgara Maria Bakalova que Trump teve três filhos formados por: Donald Trump Jr., Ivanka Trump e Eric Trump.

Como o recorte vai até o momento do falecimento de Roy Cohn, não é mostrado Donald se divorciando de  Ivana que ocorreu em 1990, como consequência da pulada de cerca de Trump ao começar a ter um caso com a ex-modelo e atrix Maria Maples com quem se divorciaria em 1999 e teve uma filha Tiffany e atualmente se encontra casado com a ex-modelo eslovena Melânia Knauss, que contradição  ele viver casado com uma imigrante e ser xenófobo com quem  tem um filho Barrow.




Acontecimentos esses que ocorreram no momento onde Trump estava com sua carreira de empreendedor imobiliário  declinando devido ao fracasso dos empreendimentos do Trump Tower, por exemplo. E ele só foi se reerguer graças a televisão ao apresentar o reality show imobiliário intitulado ironicamente de O Aprendiz.

Em um balanço geral, O Aprendiz é um bom filme cine biográfico para se conhecer a trajetória de um sujeito tão controverso quanto Trump, em nenhum momento ele tenta ser chapa branca e nem procura ser  panfletário mesmo retratando  a trajetória de um sujeito de discurso fascista da típica extrema direita autoritária americana.




Ele procura sim é retratar como se deu sua trajetória de ascensão do ramo do mercado imobiliário na Nova York dos anos 1970/80 que começou com seu pai, onde com a mentoria de uma figura controversa como o Roy Cohn, ele conquistou de uma forma que não merecia, pisando e enganando muita gente.






Onde  conhecemos  também um pouco do seu perfil canalha de sujeito de caráter egocêntrico, narcisista, frio, calculista e megalomaníaco e era extremamente tóxico dentro de casa com sua esposa. Justamente por conta é que recomendo assistirem ao filme.

Os brilhantes  desempenhos de Sebastian Stan protagonizando Trump e de Jeremy Strong como Roy Cohn, renderam duas indicações na recente edição do Oscar 2025, nas categorias de melhor ator e melhor ator coadjuvante. Que perderam ambas sendo derrotados por Adrien Brody que ganhou na categoria de melhor ator por O Brutalista e Kieran Culkin que venceu como melhor ator coadjuvante por A Verdadeira Dor.

Ainda assim recomendo assistirem.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

MARIGHELLA: O MÁRTIRE DA DITADURA

 

Ainda aproveitando o clima do filme Ainda Estou Aqui (Brasil, 2024) que está repercutindo lá fora abordando sobre a  temática sensível da Ditadura Militar no Brasil.




Recomendo assistirem a outra obra  interessante que também aborda  essa temática indigesta que no caso me refiro  ao filme Marighella(Brasil,2021) que aborda a brutalidade com que a Ditadura Militar oprimiu o povo brasileiro contando a trajetória do guerrilheiro Carlos Marighella(1911-1969). Um dos mártires da Ditadura. Principalmente  porque ele esteve envolvido na luta armada, o que o tornava bastante perigoso para o Regime.

A trama acompanha a jornada de Marighella(Seu Jorge) num recorte mostrando a sua conturbada vida rotineira na ilegalidade, onde vive longe do convívio de sua esposa Clara(Adriana Esteves)  e do seu filho Carlinhos nos dias que antecedem ao seu assassinato ocorrido no dia 4 de Novembro de 1969 onde estava sendo perseguido e caçado pelos militares, e organizando os assaltos naquele tenso clima de insegurança.  




Nessa obra dirigida por Wagner Moura, com roteiro adaptado da biografia Marighella: O Guerrilheiro que Incendiou o Mundo de Mário Magalhães que é assinado pelo próprio diretor em conjunto com Felipe Braga.

Eles optaram por explorar em suas 2 horas e 35 minutos de duração, o recorte da vida do Marighella como um guerrilheiro combatente dos militares até os seus últimos momentos de vida vivendo uma vida bandida sendo procurado pelos militares.




Mas a vida de Marighella, não se restringia só a isso, pois ele também fez carreira literária na poesia. Para saber mais sobre a sua  trajetória, na Netflix tem disponível o documentário Marighella(Brasil, 2012), que conta com a direção de  Isa Grinspum Ferraz, uma sobrinha de Carlos Marighella, na verdade, ela é sobrinha de sua esposa Clara onde, portanto, Marighella era seu tio por afinidade.

 Conta com a participação de Lázaro Ramos como narrador, onde apresenta sua vida comum na capital baiana de onde nasceu filho de um imigrante  italiano com uma baiana preta descendente dos escravos sudaneses.




A produção estava prevista para ser lançada em 2019, mas devido ao imbróglio com a ANCINE, envolvendo uma prática de censura do governo de Jair Bolsonaro e agravado pela crise viral com a pandemia de Covid-19, a produção só conseguiu estrear em 2021.

Foram  tomadas  algumas licenças poéticas ao reconstituir o que de fato foi verídico e o que foi inventado na maneira como eles o retrataram.

A matéria do  site da revista Veja, de 5 Novembro de 2021, quando o filme foi lançado,  listou cinco pontos verídicos apresentado no filme, mas que foram ficcionalizados para caráter dramatúrgico que vou reproduzir abaixo:

1)Baleado no cinema e preso na frente do filho.

O atentado contra Marighella dentro de um cinema aconteceu de forma similar ao retratado no filme, mas com algumas liberdades poéticas no contexto. No livro Por Que Resisti à Prisão, ele conta que havia marcado um encontro com a zeladora de seu prédio para pegar algumas roupas, já que havia fugido do local dias antes, durante uma invasão da polícia. Vendo que ela estava sendo seguida, entrou no cinema para confundir os policiais, “visando receber no interior do salão, ás escuras, o embrulho que ela trazia”. Lá dentro, recebeu o pacote, mas o local foi invadido pelas forças de segurança, que o balearam no peito depois de gritos de “abaixo à ditadura”. Segundo as publicações da época, ele de fato lutou, desarmado, por minutos a fio com os policiais. Rendido, foi levado para a rua, onde um jornalista do Correio da Manhã registrou a prisão, como mostra o filme. Não há indícios, porém, que o filho Carlinhos estivesse assistindo a tudo do carro, nem eram da criança as roupas que levava a zeladora, que no filme é mandada fugir do local sem entrar no cinema. Outra diferença é que, no relato de Marighella, os policiais interromperam a sessão e acenderam as luzes assim que entraram no cinema, enquanto o filme mostra os agentes com lanternas abordando o homem com o filme rodando de fundo. 

2) Fitas gravadas e promessa ao único filho.

Logo no começo do filme, Marighella, em maio de 1964, nada com o filho Carlinhos, que aparenta ter entre 10 e 12 anos. Com o recente golpe militar, ele diz ao menino que ele precisará ir pra Bahia morar com a mãe por questão de segurança, mas promete que voltará a vê-lo antes que complete 15 anos. Carlinhos realmente costumava nadar com o pai, e voltou a morar com a mãe em Salvador, mas a promessa nunca aconteceu-na verdade, em 1964, ele já era um rapaz de 16 anos, e não uma criança pequena, como mostra o longa. O filme ainda usou outra liberdade poética com o menino: as fitas que Marighella grava para o filho, na esperança de que elas cheguem até o garoto um dia, nunca existiram. O recurso serviu para apresentar ao espectador a vida e os valores do biografado. 

 

3) Tom de pele

Uma das primeiras polêmicas que despontaram com o filme diz respeito ao tom de pele do guerrilheiro, mais claro do que o de Seu Jorge, negro retinto. Nas redes sociais, os críticos do longa acusaram a a produção de retratar um branco como sendo preto, mas a realidade é mais complexa do que isso. Neto de escravos sudaneses, Marighella é fruto do relacionamento da baiana Maria Rita do Nascimento, negra e filha de escravos, com o imigrante italiano Augusto Marighella, um homem branco. A miscigenação deu a ele um tom de pele mais claro — próximo ao de Mano Brown, primeira escolha de Wagner Moura para o papel-próximo ao de Mano Brown, primeira escolha de Wagner Moura para o papel — e ele costumava se descrever como um “mulato baiano”, termo hoje considerado pejorativo. Nas redes sociais, o biógrafo Mario Magalhães respondeu à polêmica dizendo que os inimigos de Marighella  sabiam que ele não era branco. “Em 1947, o deputado Marighella criticou um colega que levara um carro (a “Baronesa”) da Câmara para a Bahia. Altamirando Requião reagiu: ‘Não permito que elementos de cor, como V. Ex.se intrometam no meu discurso”, escreveu Magalhães no Twitter, citando um episódio de racismo enfrentado por Mariguella.

 

3) Expulsão do Partido Comunista (PCB)

 Em determinada cena da produção, Marighella aparece falando com Jorge Salles, um jornalista membro do PCB que o alerta sobre a posição contrária do partido à luta armada e que ele acabaria expulso.  A passagem é verídica: em uma edição de janeiro de 1968 do jornal Voz Operária, o PCB discorre sobre as resoluções de seu 6º congresso, feito em dezembro do ano anterior, e ratifica a expulsão de Carlos Marighella  e de uma série de outros membros que “participaram de atividades fraccionistas”. Maior organização de esquerda da época, o PCB defendia uma “transição pacífica” para o socialismo e a resistência à ditadura por meios constitucionais, como o voto no MDB e a participação de seus membros em sindicatos. Parte dos militantes, porém, descontentes com a “covardia” e “apatia” — como descreve Marighella no filme —perante o golpe de 64 e a repressão militar, deixaram o partido e se juntaram a núcleos de guerrilha como a Ação Libertadora Nacional, fundada por Marighella depois de sua expulsão.  

 

 

 

 

 

4) Invasão das rádios e manifesto divulgado.

De fato, em 1969, a ALN usou as torres de rádio para burlar a censura e invadir o sinal da Rádio Nacional, como mostra o longa, mas não foi Marighella quem leu o texto. Embora o manifesto “Ao Povo Brasileiro” tenha sido escrito por ele em junho, meses antes do ocorrido, foi o estudante Gilberto Luciano Belloque quem emprestou a voz para a gravação transmitida via rádio em agosto. Ao contrário do que mostra o filme, a transmissão foi feita pela manhã, e não no período da noite. O jornalista Hermínio Sacchetta publicou o texto na íntegra na edição da manhã do Diário da Noite e, como mostra o longa, acabou  preso pelos militares. 

 

 

5) Morte: versão oficial vs versão do filme. 

Quando Marighella foi morto, em 4 de novembro de 1969, ele era considerado pelos militares como “o inimigo número 1 do Brasil”. Naquele dia, como mostra o filme, dois padres que ajudavam a ALN marcaram — torturados e sob a mira do revólver — um encontro com Marighella que resultaria em sua morte. Segundo a narrativa oficial, descrita pela Operação bandeirantes (Oban), o guerrilheiro chegou ao local e recebeu voz de prisão, mas correu para o carro e “fez menção de sacar, de dentro de uma pasta, duas armas que estavam nela”. Ele, então, foi alvejado por metralhadoras e “caiu dentro do carro”, na  posição e local onde foi fotografado horas depois. Uma perícia feita posteriormente pela Comissão Nacional da Verdade, porém, indica que Marighella foi alvejado já dentro do veículo, sem troca de tiro — versão reproduzida pelo longa — e morreu com um tiro à queima roupa. “O tiro que atingiu Marighella na região torácica, provavelmente o último, foi efetuado a curtíssima distância (menos de oito centímetros), através do vão formado pela abertura da porta direita do veículo, numa ação típica de execução”, conclui o documento. No longa, a distância é um pouco maior, e Marighella é acertado por mais de cinco tiros, número constatado pela perícia.

Posso concluir que cinebiografia sobre Carlos Marighella o retratando como o perseguido politico na Ditadura Militar, é uma interessante obra que serve bem para retratar como as consequências da brutalidade da Ditadura são sentidas até hoje.

Um tema indigesto, mas muito relevante para entender como o nosso Estado Brasileiro é bastante omisso quanto as práticas violentas feitas pelos militares. E que por muito tempo negaram essa prática criminosa, isso é algo que incomoda demais a extrema-direita fascista brasileira que idolatra torturadores como o próprio Jair Bolsonaro que mostrou sua idolatria ao Coronel  Carlos Brilhante Ustra(1932-2015), o responsável por cometer torturas na Ditadura.





No seu elenco, o filme conta com Seu Jorge como protagonista que faz uma brilhante representação do Marighella encarando as dificuldade de viver na clandestinidade,  Adriana Esteves representa bem a companheira de Marighella Clara vivendo uma vida incertezas com o marido na clandestinidade e sem o seu convívio.

Também conta com  as participações de Bruno Gagliasso, que no filme representa brilhantemente  o papel do Agente Lúcio, o caçador de Marighella,  personagem ficcionalizado na história que equivale ao torturador real Sérgio Paranhos Fleury(1933-1979), um sujeito agressivos que não mede esforços para usar da violência bruta.  




Vale menção também  as participações de Herson Capri como o jornalista Jorge Salles que no filme ele condensa diferentes figuras de figuras de jornalistas com quem Marighella foi muito próximo e foram seus aliados. Humberto Carrão como Humberto, um companheiro de luta armada de Marighella, que condensa no filme os seus diferentes companheiros da vida real.  Bella Camero como Bella faz uma representação condensada dos diferentes membros da Ação Libertadora Nacional.

Há também de mencionar as participações de Luiz Carlos Vasconcellos que no filme representa Almir, outro aliado de Marighella equivalendo a figura real de Joaquim Cãmara Ferreira(1913-1970), Jorge Paz como Jorge que equivale a Virgílio Gomes da Silva(1933-1969),  estes que estiveram envolvidos no sequestro do embaixador americano Charles Elbrick(1908-1983). Henrique Vieira como Frei Henrique equivalente ao frade dominicano Fernando de Brito(1936-2019) que era um dos aliados contra os militares.

Assim como mencionar a participação do americano naturalizado brasileiro Charles Paraventi que no filme representa o papel do Bob que simboliza a participação passiva dos americanos no Golpe Militar.

Enfim, posso concluir que a cinebiografia Marighella, é um filme muito relevante para esse momento turbulento que vive o Brasil.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

A DITADURA MILITAR EM O QUE É ISSO, COMPANHEIRO.


 

Aproveitando esse clima em que o filme Ainda Estou Aqui(Brasil, 2024) está sendo tão comentado e concorrendo ao Oscar.

Foi nesse momento  que  foram surgindo matérias lembrando do filme O Que É Isso, Companheiro(Brasil, 1997) pela coincidência de que ele disputou o Oscar de 1998 na categoria de Melhor Filme Estrangeiro com uma temática parecida de Ainda Estou Aqui. Fora o fato de coincidentemente contar com a participação de três atores que compõe o elenco de Ainda Estou Aqui.  

 No filme  inspirado no livro homônimo de Fernando Gabeira que foi um dos responsáveis pelo sequestro do embaixador americano  Charles Burke Elbrick(1908-1983) em 1969  junto aos guerrilheiros do MR-8, grupo armado que combatia a Ditadura Militar.





Eu lembro de ter visto o filme a primeira vez  passando na TV,  logo após ter perdido a estatueta  do Oscar de 1998* para a produção belga-holandesa Karakter(Holanda, Bélgica, 1997) e ao revisitá-lo na Amazon Prime Video pude constatar como a obra envelheceu bem, principalmente quando a  gente  analisa o fato dela ter sido lançado na segunda metade da década  de 1990 quando o cinema nacional estava timidamente vivendo   sua fase de Retomada.

Digo isso porquê, no começo dos anos 1990, quando o Brasil entrava num cenário político Pós-Ditadura com a inflação alta,  sendo governado pelo primeiro presidente eleito diretamente pelo povo brasileiro em 1989 que foi Fernando Collor de Mello, a primeira medida que ele tomou foi confiscar a poupança de todos os brasileiros e prejudicar a nossa produção cultural cinematográfica especificamente  ao mandar fechar a Embrafilmes, o que ocasionou como consequência  de um dos mais renomados cineastas como Arnaldo Jabor(1940-2022), por exemplo,  decidisse abandonar  sua carreira no cinema e investisse no jornalismo.

Uma das produções que mais simboliza essa fase de decadência que o cinema nacional enfrentou foi o filme Inspetor Faustão e o Mallandro(Brasil, 1991), uma pérola da vergonha nacional.

 Esse período vergonhoso da história do cinema  nacional durou até o momento em que no governo de outro Fernando, no caso do sociólogo Fernando Henrique Cardoso que foi um dos articuladores do Plano Real, como é retratado no filme Real-O Plano Por Trás da História(Brasil, 2017) que ajudou a estabilizar a nossa economia foi que o cinema nacional teve a sua retomada com as leis de incentivo à produção cinematográfica.





O filme que marcou esse ponto de virada dessa fase de retomada do cinema nacional foi Carlota Joaquina-A Princesa do Brasil(Brasil,1995), um filme de temática histórica satírica sobre a vinda da Família Real Portuguesa dos Bragança se instalando em terras brasileiras que eram suas colônias, que contou com a direção de Carla Camurati e contou com Marieta Severo protagonizando uma Carlota Joaquina irascível e cheia de muito fogo o que deixou muitos historiadores irritados, no entanto, acabou casando bem com aquele momento turbulento momento caótico como um modo escapista de representar   o Brasil saindo da alta da inflação. 

Foi nesse exato contexto que foi concebido o filme O Que é isso, Companheiro, produção que contou com o dedo de uma importante família ligada ao cinema, os seus produtores-executivos foram o casal Luiz Carlos Barreto e Lucy Barreto e o filme contou com a direção do filho do casal Bruno Barreto.

Cujo roteiro  foi assinado pelo próprio autor do livro que o inspirou e que é retratado  no filme representado por Pedro Cardoso em conjunto com o roteirista Leopoldo Serran(1942-2008) que já carregava uma longa carreira cinematográfica.

 


 

A obra  retrata bem como foi  sua participação no sequestro ao embaixador americano Elbrick(Alan Arkin), onde acompanhamos Fernando antes de participar do grupo armado participando  de uma manifestação ao lado de Artur(Eduardo Moscovis), um aspirante a ator e de Oswaldo(Selton Mello) que o acompanha na luta armada quando ele é apresentado por meio de Marcão(Luíz Fernando Guimarães) ao local secreto do bando que é comandado por Maria(Fernanda Torres) e recebem os codinomes para preservarem suas reais identidades, Fernando passa ser chamado de Paulo.

No grupo onde ele ingressa, também integram: Renée(Claudia Abreu), Júlio(Caio Junqueira), Jonas(Matheus Nachtergaele) e Toledo(Nélson Dantas).

No decorrer da história, vamos acompanhando Fernando agora como Paulo sendo treinado para disparar armas  e eles arquitetando o sequestro ao embaixador e até chegar de fato a execução do sequestro que acompanhamos a rotina tensa deles até a sua libertação que ocorre  no dia 7 de Setembro de 1969, feriado do dia da Independência do Brasil, após quatro dias de sequestro. Curiosamente,  nos Estados Unidos, o título foi adaptado para Four Days in September.

Que conclui com a prisão do grupo por Henrique(Marco Ricca), após a libertação do embaixador americano.

Abordar as consequências dos atos brutais da Ditadura Militar é um tema muito caro ao Brasil, do mesmo modo  que Ainda Estou Aqui aborda. Apesar das diferenças de protagonismo, já que o filme Ainda Estou Aqui é protagonizado pela ótica da família Paiva que passou anos  sem saber notícias do paradeiro do patriarca Rubens Paiva depois que ele foi preso pelos militares.  E mostra o  nível da violência psicológica que isso trouxe para a família. Do mesmo modo que Ainda Estou Aqui foi inspirado num livro de quem também vivenciou o drama que no caso foi o Marcelo Rubens Paiva, filho caçula de Rubens Paiva e Eunice Paiva que no filme foi retratado na infância e na vida adulta. Coincidentemente O Que é Isso, Companheiro também  teve inspiração em um livro de autoria da pessoa que vivenciou a história e é retratado no filme, que no caso Fernando Gabeira. E aborda isso pela ótica de mostrar as consequências das violências brutais, principalmente pela ótica do guerrilheiro Fernando Gabeira que participou de assaltos e organizou o sequestro de um embaixador.




Coincidentemente, três atores que estão no elenco de Ainda Estou Aqui participaram do elenco de O Que é Isso, Companheiro:  Selton Mello que protagoniza o ex-deputado Rubens Paiva em Ainda Estou Aqui, em O Que é isso, Companheiro ele representou o companheiro de guerrilha de Gabeira Oswaldo, que é o codinome de Vladimir Palmeira que é dado por Marcão  quando integra o grupo, a produção apresentou aqui uma troca de nomes que era bem comum  entre os que integravam o bando armado. Fernanda Torres que em Ainda Estou Aqui, representou sua esposa Eunice Paiva em O que é isso, companheiro ela representou a guerrilheira Maria que faz referência a Maria Augusta Carneiro Ribeiro(1947-2009) que é responsável por treiná-los na artilharia. E sua mãe Fernanda Montenegro que em Ainda Estou Aqui fez a Eunice Paiva idosa em O Que é Isso, Companheiro ela faz uma pequena participação como Dona Margarida a mulher que observa de longe uma movimentação e liga para a polícia que é atendida pelo Sargento Eiras, representado numa participação especial pelo cantor Lulu Santos.  Dona Margarida é uma referência Elba Souto Maior, mulher de um capitão da Marinha que testemunhou o sequestro.

Outras participações no elenco a serem mencionados são de: Pedro Cardoso  como o protagonista Fernando Gabeira, o autor do livro que inspirou o filme,  assumi bem aqui a função de ser o fio condutor da narrativa. Sua representação do nível da complexidade que esse personagem faz você esquecer os papeis cômicos abobalhados que ele já representou na TV em novelas e séries da Globo como o Agostinho Carrara em A Grande Família**(Brasil, 2001-2014).





Também mencionar as participações do elenco de Luiz Fernando Guimarães que no filme representou Marcão que é o codinome do jornalista Franklin Martins, seu desempenho se mostra magistral, principalmente  ao fugir  um pouco dos papeis cômicos abobalhados que ele sempre costumava  representar na TV. É ele o responsável por conduzir o protagonista ao grupo.

Que nesse núcleo ainda contou com Caio Junqueira(1976-2019) na pele do Júlio que é codinome de Cid Benjamin, Matheus Nachtergaelle como Jonas que era o  codinome de Virgílio Gomes da Silva(1933-1969), Nélson Dantas(1927-2006) como Toledo que era o codinome de Joaquim Câmara Ferreira(1913-1970) que são mostrados no filme como um  dos articuladores do sequestro  e Claudia Abreu como a Renée, codinome de Vera Silvia Magalhães(1948-2007) que se destaca pela forma como consegue obter informação privilegiada da rotina do  embaixador Elbrick, se fazendo passar de moça pobre do interior querendo arrumar trabalho e deixa comovido o segurança da embaixada que foi muito bem defendido por Milton Gonçalves(1933-2022).

Fora também as menções ao elenco de Eduardo Moscovis que no filme representou Artur, um aspirante a ator que apareceu no filme em poucas cenas, apareceu no começo dividindo o apartamento com Fernando Gabeira e só retornaria a aparecer mais para frente quando é encontrado na rua pelo acaso por Fernando.

Outras menções são a Marco Ricca que representou bem no filme o papel do Henrique, um agente do governo que fica vigilante sobre a caça  ao grupo terrorista para resgatar o embaixador Elbrick, ele deixa bem implícito um perfil de sujeito brutal principalmente quando prende Fernando e o leva para o Doi-Codi.  Mencionar também a participação de Alessandra Negrini que representa bem o papel da Lilia, esposa do Henrique que consegue transmitir bem em cena o papel de uma mulher amorosa, dócil, que consegue imprimir um ar de humanismo em Henrique, mesmo ele deixando implícito ser um sujeito agressivo.





Assim como também coloco minhas menções as participações de Mauricio Gonçalves, filho do ator Milton Gonçalves que também participa do filme  como porteiro da Embaixada Americana, que no filme ele representa bem  o agente Brandão que é o inseparável companheiro de Henrique na caça aos terroristas. Othon Bastos também é outro grande ator fera que no filme faz uma participação no papel do Comandante, o metódico arquiteto do resgate ao embaixador.

No elenco também contou com as participações saudosas de Antônio Pedro(1940-2023) que aparece no filme representando o dono de um boteco que atende a Júlio, um dos terroristas representado pelo também saudoso Caio Junqueira que desconfiado da quantidade de frangos que ele pede para encomendar resolve depois chamar a polícia.  Outro também saudoso ator a ser mencionado que participou do filme é Jorge Cherques(1928-2011), o proprietário do  local que serviu para o sequestro de Elbrick que após a saída chama a polícia.

Há também de mencionar no elenco  as presenças internacionais dos americanos Alan Arkin(1934-2023) que representou bem no filme o papel do embaixador Elbrick que é o ponto central da trama. Caroline Kava que representou bem o papel de  sua esposa Elvira Elbrick e Fisher Stevens que representou bem o papel do Mowinkel, uma espécie de segurança particular do embaixador Elbrick.

Numa subtrama que retrata um pouco da sua vida rotineira morando no Brasil nos dias que antecederam ao sequestro.




Posso concluir que o filme O Que é Isso, Companheiro mostrou que envelheceu bem não só no quesito de roteiro, que soube como estruturar o mote de uma trama que aborda uma temática histórica delicada do Brasil, sem cair em maniqueísmos, e também em não tentar transmitir uma visão tendenciosa em representar os sequestradores com um perfil heroico. Quanto no quesito produção no apuro da estética retrô  em reproduzir tanto nos figurinos, nas caracterizações, nas cenografias e nas locações uma imersão ao Brasil dos anos 1960. Principalmente quando a gente contextualiza que sua produção foi lançada bem no momento em que a produção do cinema nacional estava retomando.

É um tema muito caro para o Brasil, principalmente quando a gente analisa que o seu pior legado de impunidade que a autoritária extrema-direita que mitifica torturadores quer tentar negar os crimes cometidos pelos militares.

E pior de tudo isso, é a herança do cenário da violência urbana que é sentida até hoje.

Justamente por isso é recomendo, conferir o filme O Que É Isso, Companheiro para quem viu Ainda Estou Aqui. 

*A edição do Oscar de 1998, onde O Que é isso, companheiro concorreu na categoria de Melhor Filme Estrangeiro ficou marcada pela vitória recorde das 11 Estatuetas do fenomenal  Titanic(EUA,1997), dirigido por James Cameron. O único filme que havia conseguido esse feito foi o épico Ben-Hur(EUA, 1959) no Oscar de 1960 do diretor William Wyler(1902-1981). Depois de Titanic, o único filme a igualar em carregar as 11 Estatuetas foi O Senhor dos Anéis-O Retorno do Rei(2003) dirigida pelo neozelandês Peter Jackson na edição do Oscar de 2004.

**Outro ator que também esteve presente na série A Grande Família, mas na versão original dos anos 1970 e participou do filme O Que é Isso, Companheiro foi Luiz Armando Queiroz(1945-1999), representou o Tuco que na versão dos anos 2000 foi papel de Lúcio Mauro Filho.


segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

O NAZISMO EM A LISTA DE SCHINDLER(1993)

 

No dia 27 de Janeiro, é lembrado o Dia Internacional da Memória do Holocausto, uma forma de respeitar as memórias dos judeus que foram mortos nos campos de concentração pelo genocida Governo Nazista.

Nada melhor do que entender o que foi esse ato desumanizado comentando  sobre o filme A Lista de Schindler(Schindler´s List, EUA, 1993).






Esse filme foi  dirigido pelo renomado Steven Spielberg, aborda aqui esse tema que é muito caro a ele. Já que ele tem raízes judaicas.

Nesse filme cuja história real do holocausto foi baseado no romance biográfico Schindler´s Ark de autoria do australiano Thomas Keneally, cujo roteiro foi adaptado por Steve Zaillian.


O filme acompanha a jornada da população judaica na Polônia já invadida pelas tropas nazistas que deram início a Segunda Guerra Mundial.

É nesse contexto que aparece o empresário alemão Oskar Schindler(Liam Neeson) para recrutar alguns judeus para trabalharem em sua fábrica, mandando criar uma lista  para evitar que todos não morram no Holocausto, o que o tornou celebrado até hoje pelos judeus como o símbolo do benfeitor. 


Spielberg soube bem como trabalhar a temática nesse filme abordando a dualidade do bem contra o mal de forma tridimensional.

Estabelecendo diferentes dicotomias para fazer o espectador refletir sobre guerra, humanismo e memória”.

(Descrição retirada do canal EntrePlanos do Youtube sobre o filme A Lista de Schindler, publicado em 18 de Outubro de 2018).

Criando uma área ambígua entre os dois lados dos nazistas serem os vilões e os judeus, as vítimas. E nesse aspecto o protagonista Oskar Schindler é o que consegue refletir bem essa dicotomia.




Nos primeiros momentos de rodagem do filme, vemos ele ir bem do lado do mal ao mostrar sua natureza mais egoísta e ambiciosa. De um homem que se aproveitou da guerra para ficar milionário.

Mais pra frente vai mostrando como Schindler vai tendendo para ir ao lado do bem ao não concordar com os ideais pregados pelo nazismo, e ser atencioso com judeus em prol dos seus trabalhadores resolve fazer uma lista de judeus para serem seus funcionários e ficarem livres do holocausto e sacrificando o lucro.





Principalmente depois que ele testemunha o cenário de carnificina que ocorre no Gueto de Varsóvia.

A direção de fotografia do polonês Janusz Kamiński, que se tornou um parceiro frequente de Spielberg após esse filme ao optar pela película em preto e branco, cujos únicos momentos de cores é na introdução mostrando um lar de família judaica fazendo oração e no final com os sobreviventes do Holocausto ajudados por Schindler ao redor do seu tumulo lhe prestando uma homenagem.




O preto e branco  ajudou bem a compor no filme uma estética cinzenta, um tanto noir com toques documentais, onde o único momento ele quebra isso é quando mostra a menina de vestido vermelho caminhando por Varsóvia, que serve mais para frente como uma rima visual para ela reaparecer entre os cadáveres do holocausto.

Fora também que o filme apresenta uma ótima reconstituição de época com a cenografia e os figurinos e contou em seu elenco com feras como: Liam Nesson como o protagonista Oskar Schindler(1908-1974) está impecável em cena. Ralph Fienes como o repugnante oficial nazista Amon Göth(1908-1946) se mostra  excelente ao representar e defender um sujeito que  apresenta um nível de crueldade sentindo um imenso prazer de matar cada judeu sem o menor remorso. E Ben Kingsley como Itzhak Stern(1901-1969), o contador pessoal de Schindler está excelente na pele do sujeito que era sem seu braço direito na sua empresa.

A Lista de Schindler não é um filme fácil de ser assistido para qualquer um em especial por sua temática sensível que explora o nível da crueldade brutal, e também psicológica que o nazismo ocasionou para a população judaica.

Existe muitas cenas fortes mostrando  o nível da crueldade que era praticado, principalmente quando mostra os judeus no holocausto desnutridos e tendo que passarem pela humilhação de andarem sem roupa, tudo torna essa obra não muito fácil digerível para todo mundo.

Mais ainda se mostra necessário para refletir que os ideais de ódio pregados pelo nazismo não morreram, basta vermos o que temos acompanhado atualmente que os movimentos da extrema direita no Brasil e no mundo tem ganhado força e levado a muitos casos de violência.

Como diz a frase do filosofo irlandês  Edrmund Burke(1729-1792):

Um povo que não conhece a sua história, está condenado a repeti-lo”.