

Com direção de René Sampaio,
produção da Gávea Filmes e roteiro adaptado por Victor Atherino e Marcos
Berstein. O filme conseguiu bem traduzir
através das cores e das imagens o que a
música composta pelo vocalista da banda Renato Manfredini Júnior(1960-1996), mais
conhecido artisticamente como Renato Russo, cuja origem do sobrenome artístico
ele escolheu como homenagem a grandes intelectuais que admirava como o
filosofo inglês Bertrand Russel(1872-1970), além desses, também admirava o
filósofo suíço Jean Jacques Rosseau(1712-1778) e o pintor francês Henri Rosseau(1844-1910).
Carioca, nascido no berço de uma família de classe média, que se mudou para Brasília ainda adolescente,
quando seu pai um funcionário do Banco
do Brasil foi transferido para lá. E foi na cidade símbolo do poder político,
então recém-construída por Oscar Niemayer(1907-2012) ainda no Governo de
Juscelino Kubitscheck(1902-1976) em 1960, mesmo ano que o cantor nasceu, para
servir como residência e reduto de todos os mandos e desmandos que os nossos
engravatados da política determinam como tudo vai funcionar para nossa população. Também serviu como o
reduto e o grande berço artístico para Renato Russo se lançar no meio musical.
A canção Faroeste Caboclo compõe o terceiro álbum de estúdio da Legião
Urbana pelo selo da gravadora EMI intitulado Que Pais é este, que foi
lançado no final de 1987. Renato havia
começado a compor esta canção em 1979,
bem antes de formar a Legião com inspiração numa canção de Bob Dylan, chamada Hurricane dedicado ao boxeador Rubin
Carter(1937-2014). A canção tinha como característica o fato de ter uma longa
duração, com nove minutos, contendo 159 versos sem intervalos dos refrãos, foi
uma das canções contidas no álbum que foram proibidas pela censura de tocarem nas rádios brasileiras. A canção descrevia
um enredo que contava a trajetória de João de Santo Cristo, um fudido retirante da
seca do sertão nordestino. Que após a morte do pai por motivo de briga de
terras, ele movido pelo sentimento vingativo resolve virar um temido criminoso
do sertão e depois foi mandado para
reformatório. Após sair do lugar foi com
a ajuda de um boiadeiro que encontrou na estrada e disse que estava indo para Brasília, onde ele
então resolve ir para ver como oportunidade de recomeçar sua vida. Deslumbrado
pela incrível metrópole habitada pelos políticos, especialmente pelas luzes de
natal como bem descreve a canção. É nesta cidade que temos contada a jornada
dele para sobreviver, é através de seu
primo peruano chamado Pablo que ele entra num caminho fácil de se enriquecer e
bastante perigoso que é por meio do tráfico de drogas. É neste interim que ele
conhece e fica apaixonada por Maria Lúcia, uma jovem de classe média, que
desperta também o interesse de seu rival
do tráfico de drogas o Jeremias, um
playboy de família abastada cujo poder de influencia consegue comprar todo
mundo, até mesmo os agente da lei. Tudo isso vai ser motivo para um último capítulo super
trágico.


Toda a essência do mote da
canção foi muito bem transportado nas formas e nas cores através do filme, tirando algumas
passagens de trechos que tiveram de serem cortadas para caber no espaço de
tempo e não atrapalhar tanto o andamento do ritmo da narrativa e até com
algumas liberdades criativas tomadas pela direção para tornar a obra mais
palatável ao público em geral poder imergir dentro do contexto daquela história
a tornando bem verossímil. Não só a direção de René Sampaio conseguiu manter
esta característica, como também o texto bem adaptado por sua equipe de
roteirista nos proporcionou uma história bastante impecável com toda uma atmosfera barra pesada
do inicio ao fim, que se mostrou muito bem casado com a direção de arte que
criou uma boa reconstrução de época do panorama da Brasília
dos anos 1980, bem descrita na música, isto pode ser notado nos
figurinos, nas arquiteturas e nas presenças dos carros. Com uma excelente
fotografia com paletas de cores em tom seco e sujo, especialmente nas cenas que
se passam na Ceilândia criando uma sensação de desconforto escaldante. Um lugar
com aspecto rural dentro da nossa capital federal onde reside o nosso
Presidente da República e onde trabalham os nossos deputados. Uma terra sem
lei, ignorada pelos nossos políticos. Ou seja, o filme traduziu bem a visão
crítica da canção da Legião descrevendo
esta outra faceta da nossa capital
federal que é desconhecida da maior parte dos brasileiros, que apenas conhece
pelos noticiários da TV mostrando a Brasília que mostra as atuações dos nossos políticos engravatados não fazendo
nada para o bem da nossa população,
ostentando carros de luxo frutos de roubo e se dirigindo as gigantescas e suntuosas arquiteturas dos palácios dos planaltos e dos ministérios. Eu já tive uma oportunidade de visitar
Brasília no final de 2014, quando peguei um voo de escala retornando de São Paulo. Como o meu voo de
retorno a Natal demoraria, resolvi
chamar um amigo que mora há muitos anos lá
em Brasília que fez a boa vontade
de fazer um citty tour comigo pela cidade. Lembro de ter ficado maravilhado em
ver de perto toda as arquiteturas dos ministérios ali ao vivo e as cores,
coisas que só costumo ver nos noticiários da TV. Inclusive observei o ritual
dos desfiles de mudanças de guardas dos dragões
do ministério, todos os prédios modernos, inclusive da primeira igreja e
a praça se preparando para a cerimônia de posse de Dilma Rousseff para
presidente. E me mostrou outras coisas curiosas da cidade que não são muito mostrado nos
noticiários nacionais, como os bairros
residenciais onde vivem as pessoas comuns. As pessoas comuns que habitam a
nossa capital federal estão bem representadas no filme com um elenco estelar formados
por famosos astros de novelas da Rede Globo e
bastantes afiados nos respectivos papeis. Fabricio Bolivera como o protagonista
João de Santo Cristo desempenhou brilhantemente em todas as camadas que
envolviam o personagem que seguia um caminho tortuoso e sem volta. Você
compreende as motivações dele, mesmo que não sejam as mais politicamente
corretas, mas mesmo assim torce por ele depois de tudo o que ele sofreu ao
longo do filme, principalmente nas mão de Jeremias. Ísis Valverde como Maria
Lúcia também mostrou um bom desempenho no papel, ao representa-la na típica figura
de uma típica jovem universitária de
classe média vivendo uma vida confortável e com bom caráter, tinha tudo para
ter um futuro brilhante, mas, por
causa da sua vida mundana, ainda mais
tendo um pai omisso, desperdiçou tudo ao
se enveredar por um caminho perigoso por causa das farras nas baladas, se drogando, especialmente após se apaixonar por
João. Um verdadeiro caso de amor bandido. Apesar disso tudo, você também
consegue compreender as motivações dela, e se importar ainda que este não seja
o rumo que ela tomou não sido o mais correto.
Felipe Adib na pele do Jeremias mostrou uma atuação impecável ao entregar
muitas características ao caráter podre
do antagonista, para torna-lo um tipo desprezível, abominável, especialmente na
maneira como ele ficou bem representado como um típico playboy perigoso,
nascido no berço de uma família de elite classuda. Que não mede esforços, e nem mesmo
conhece limites para conquistar os seus
objetivos gananciosos com toques de puro sadismo. Endinheirado com as drogas,
um pouco nos moldes de Pablo Escobar(1949-1993), o maior chefão do narcotráfico
na Colômbia, este ai é capaz de comprar todo mundo até mesmo o delegado Marco
Aurélio(Antônio Calloni). Antônio Calloni na pele do Marco Aurélio, o delegado
corrupto também desempenhou o papel de uma forma brilhante, ele mostrou uma
total entrega ao personagem que por trás
da máscara de agente da lei, também tem um caráter tão podre e tão desprezível
a ponto de ser um dos mais odiados da história. Além de agir como um pau
mandado do Jeremias, Marco Aurélio também
pratica toda a crueldade com agressões e abusos físicos e verbais especialmente quando mantém
João preso. No momento da grande virada
da história, em que João resolve mantê-lo como refém para soltá-lo e depois
resolve mata-lo com um tiro, pode se dizer que mesmo que esta não seja a
maneira mais correta de resolver fazendo justiça com as próprias mãos, ainda
assim você consegue entender as suas motivações
e pode-se dizer que dá para vibrar pelo fim que ele deu ao desprezível
delegado. O uruguaio Cesar Troncoso na pele do Pablo, o primo peruano de João
também mostrou um excelente desempenho
em todo o arco dele na história ao apresentar o submundo da criminalidade a
João como forma de enriquecer mais fácil, mas muito perigoso na venda das
drogas que ele planta na região da Ceilândia. Para encerrar a parte do elenco,
não podia deixar passar a participação de Marcos Paulo na pele do Ney, pai da
protagonista Maria Lúcia, desempenhando perfeitamente o personagem neste que
foi seu trabalho póstumo, ele faleceu em 2012 vítima de uma embolia, em
decorrência da sua batalha contra um
câncer de esôfago. Um engravatado deputado, magistrado ou mesmo
executivo não fica claro qual a sua profissão. Mas que de todo jeito mostrou um
boa representação dele como, além de um
pai omisso, mas também um sujeito preconceituoso e desprezível, isto ele desempenhou brilhantemente mostrando uma ótima entrega ao papel na cena
quando flagra Maria Lúcia no quarto com João e este completamente enraivecido
resolve expulsar sua própria filha de casa. Nesta que foi sua última cena no
longa. Uma despedida primorosa.


Outra coisa legal a se destacar
está na magistral trilha musical onde podemos ouvir muitos revivals de canções
contagiantes que foram sucesso nos anos
1980, especialmente nas cenas que se passam nas boates. Uma dessas bem
interessantes que mais chamou a atenção que é tocada entre uma cena e outra é a
contagiante These Boots Are Made for Walkin´, sucesso da Nancy Sinatra nos anos
1960.
